No dia da cidade de Maputo:
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10/11/2013
20/10/2013
Savana entrevista o camarada Jorge Rebelo
Entrevista de Jorge Rebelo ao jornal "SAVANA"
Visto por muitos como uma das últimas reservas morais do movimento de libertação, Jorge Rebelo diz em entrevista ao SAVANA que está dececionado com a Frelimo atual, mas reconhece que neste momento não vê alternativas.
Eterno admirador de Samora, Rebelo, um dos fundadores da Frelimo, onde foi o temido secretário do trabalho ideológico, afirma que se o proclamador da independência de Moçambique voltasse não ficaria contente com a situação que se vive no país.
Lamenta o facto de atualmente o país estar infestado de lambebotas, porque, segundo ele, as pessoas são escolhidas na base da sua capacidade de lamber as botas do chefe.
Numa conversa amena, onde a ideia era falar do legado de Samora (amanhã, sábado, passam 27 anos após a sua morte), Rebelo aceitou abordar o tema de sucessão na Frelimo e defende que não há necessidade de reuniões dos órgãos do partido (Comité Central e reunião nacional de Quadros) "porque hoje já há um pensamento comum".
O tema sobre as críticas dirigidas directamente a alguns colaboradores de Samora nalguma imprensa em que os apelida de "revolucionários da desgraça" foi incontornável.
Amanhã, (sábado 19 de Outubro), passam 27 anos após a morte de Samora Machel. O sr. Jorge Rebelo conviveu muitos anos com o presidente Samora. Que recordações guarda do homem que proclamou a independência de Moçambique?
Há alguns dias participei nas cerimónias do aniversário do nascimento do presidente Samora. Nesse encontro, alguns defendiam que Samora, se ressuscitasse, ficaria contente com aquilo que está a acontecer no país. Iria elogiar a direção atual.
Outros diziam que ficaria dececionado de tal forma que quisesse regressar de onde veio. Nesse encontro não me pronunciei. Se tivesse falado diria que amigos tenham calma, porque Samora já não está connosco e não é bom inventar coisas que iria dizer ou não dizer. Como a bíblia diz que não podemos evocar o nome de Deus em vão. Neste caso diria para não evocar o nome de Samora para obter ganhos políticos.
Portanto, não podemos dizer categoricamente como Samora iria reagir perante a situação atual.
O seu sonho está ou não a ser efetivado…
Na base daquilo que sei de Samora através do seu pensamento e atuação na luta armada de libertação, onde se forjou a ideologia da Frelimo e depois na independência, onde o novo Estado começou a ser construído, posso imaginar o seguinte: Samora chegaria e perguntaria como é que estão as coisas.
Se perguntasse a mim diria que está tudo bem camarada presidente, porque ultimamente o povo está a ser formatado para avaliar as coisas sempre pela positiva. É o que acontece hoje, avaliar as coisas positivamente é a palavra de ordem. Portanto, nunca diria que as coisas estão más.
Contudo, ele vai fazer-me várias perguntas como: Nós lutámos para libertar a terra e os homens. A terra está libertada? A terra pertence ao povo como era o nosso sonho?
Aí eu diria que sim. A Constituição ainda diz que a terra não pode ser vendida, pertence ao Estado.
Mas, se ele dissesse que lá onde estou vejo que muitos dirigentes apropriam-se da terra e vendem-na às grandes multinacionais e a população fica na miséria, sem meios para ganhar a sua vida. Você está a enganar-me. Eu aí ficaria engasgado.
Depois levantaria a questão da corrupção. De certeza que Samora diria que era implacável contra a corrupção, não admitia corruptos e ao mínimo sinal de corrupção tomava medidas enérgicas, por isso que no meu tempo não havia corrupção.
Samora definia a corrupção como utilização de cargos públicos e políticos para obter benefícios pessoais e para familiares. Aí ele me perguntaria se os dirigentes, filhos, sobrinhos, irmãos não estão a enriquecer e a maioria do povo cada vez mais na miséria. Perante os factos, não poderia negar e diria que sim estão a enriquecer e o povo a empobrecer.
Depois perguntaria se esses que ficam ricos ganham a riqueza através do seu trabalho ou se aproveitam dos seus cargos para enriquecer. Se ele insistisse quem é o dirigente que está a ficar cada vez mais rico com a sua família. Eu não iria mencionar os nomes, porque toda a gente sabe.
Samora diria mais. Por exemplo, podia dizer que as pessoas andam carregadas em carrinhas de caixa aberta sem qualquer comodidade nem protecção; o emprego não existe; a qualidade de ensino é baixa (hoje os alunos chegam à nona classe sem saber ler nem escrever); a saúde é um desastre, não há medicamentos, os médicos e todo o pessoal da saúde estão desmotivados.
Por fim, Samora diria que não estou contente pela situação que vive o meu povo.
Com isso podemos concluir que, na óptica de Jorge Rebelo, os sonhos e os desejos de Samora não estão a ser tidos em conta pela actual direcção da Frelimo?
Tudo dependente de como é que a pessoa se situa. Se está preocupado com o enriquecimento de um pequeno grupo, diria que o país está em franco desenvolvimento. Se se coloca de ponto da população em geral diria que este crescimento não é o desejado e não é aquilo que Samora defendia.
A minha conclusão é de que se Samora voltasse não ficaria contente com a situação que se vive no país. Na nossa sociedade, os casos de corrupção aumentam progressivamente.
Ela está a tomar conta de todos e há que inverter isso, porque pode nos levar ao abismo. Infelizmente, hoje não podemos dizer isso publicamente porque não encontramos abertura da parte da actual direção do país. Lembro-me de uma conversa com Samora, em que num tom de desabafo dizia que os camaradas que vieram connosco da luta armada estavam a ser apanhados pelo vírus de corrupção e nós tínhamos que tomar medidas para eliminar esse vírus.
E ele dizia que hoje os camaradas estão preocupados com dinheiro, comodidade e regalias que durante a luta de libertação nunca exigiam. Não tínhamos nenhuma preocupação em ficar ricos e lutávamos por um ideal que era a libertação do povo e melhoria das condições de vida de todos. Agora a situação é diferente.
O pensamento de Samora Machel para Moçambique teria estado à altura das profundas mudanças que o país conheceu nos últimos anos?
Há muitos aspectos, políticas e princípios que Samora defendia e que hoje não são aplicáveis. Por exemplo: na área da saúde, Samora dizia que o médico não pode ser um mercenário, não pode utilizar a doença como meio para enriquecer. O médico deve trabalhar só para o Estado e receber o seu salário como qualquer funcionário. Não se admitia clínicas privadas porque seria utilização da doença como meio para enriquecer.
Isso hoje não é viável. Já naquele tempo eu próprio já me interrogava porquê, por exemplo, alguém que estudou durante sete anos para tirar o curso de medicina e fica limitado ao salário que o Estado paga que normalmente é baixo. Se um engenheiro, um jurista e outras profissões não vinculadas exclusivamente ao Estado, podiam trabalhar onde quiserem e ganhar muito mais.
De certeza que muitos médicos iriam fugir da profissão.
Outro exemplo é da economia centralizada. O Estado é que dirigia todos os setores económicos. A experiência mostrou que isso não é benéfico para o país e não era viável. Nessa altura já era possível aferir que o homem é mais flexível e criativo quando motivado pelo lucro e numa economia centralizada a pessoa sabia que se esforçando como não teria o seu salário.
Samora morreu num período de partido único e de uma economia centralizada. Como é que conviveria com a atual realidade, de maior abertura política e económica, pelo menos no plano formal?
Teria que se adaptar porque as sociedades avançam. De certeza que não ficaria tranquilo, mas teria consciência de que aquele modelo de socialismo que nós adoptámos não estava a dar resultados. Claro que há outros factores que contribuíram para isso, porque os países imperialistas entraram em pânico quando Moçambique e Angola se proclamaram países socialistas. Isso era um germe aqui na zona porque poderia influenciar países à volta. Então atacaram-nos e isso contribuiu muito para que o projecto socialista de Samora e de muitos de nós não avançasse.
"Direcção da Frelimo esconde os reais ideais de Samora"
Uma das coisas que marcaram o mandato de Guebuza foi a imortalização da figura de Samora. Foram construídas estátuas em todo o lado, homenagens e discursos benevolentes. Contudo, de outro lado os males que Samora combatia aumentaram. Falo da corrupção e pilhagens dos recursos nacionais. Será que a figura de Samora está mesmo a ser valorizada?
As estátuas são uma coisa boa porque quando as pessoas passam pelas ruas ou praças onde estão erguidas lembram-se de Samora. Mas o mal é que ficamos por aí. Se falamos do legado de Samora apenas dissemos que foi um grande líder, foi o primeiro presidente de Moçambique independente. Não entramos no seu pensamento. Parece que a atual direção da Frelimo e do país não está interessada no pensamento de Samora. Ela esconde o seu pensamento.
Nos seus discursos esquece que Samora era uma figura sensível à corrupção, ao sofrimento do povo, à expropriação dos bens do povo para satisfazer apetites e ganância de um pequeno grupo de dirigentes.
Como é que Samora Machel encararia o facto de sectores importantes da soberania económica de Moçambique, nomeadamente os recursos naturais, estarem hoje nas mãos do capital estrangeiro?
Se ele viesse só para visitar ficaria dececionado. Se ele viesse para impor ordem diria que vamos acabar com estas coisas, mas não no sentido de impedir a exploração desses recursos. Os recursos existem, são nossos e devem contribuir para o crescimento e desenvolvimento do país. Agora, o que ele diria é que temos que dirigir esse processo de tal maneira que o povo inteiro não sofra e uma pequena minoria beneficie.
"Falta vontade política na investigação da morte de Samora"
Como é que reage a um aparente esmorecimento do processo de investigação da morte de Samora Machel, depois de alguma euforia suscitada pelo Presidente Armando Guebuza e Jacob Zuma?
Há duas maneiras de analisar a sua pergunta. Uma pela complexidade das investigações e outra na falta de vontade. Lembro-me do assassinato do primeiro-ministro da Suécia, Olof Palme, foi quase no mesmo período com o do presidente Samora, mas até hoje ainda não foi descoberto quem é que matou.
Portanto, talvez seja tão difícil. Porém, exprimindo o meu sentimento digo que estou desapontado com o nível das investigações. Gostaria que esse processo avançasse para se descobrir os verdadeiros autores do crime.
Sente alguma preocupação da parte dos Governos de Moçambique e da África do Sul em investigar o crime?
Não sinto. Se houvesse esforço de cada um dos lados seria divulgado, o que não está a acontecer. Haveria alguns resultados visíveis indicando que a investigação está a avançar neste ou naquele sentido, já se descobriu isto ou aquilo, mas não se fala. Isso é preocupante.
Acha que um dia Samora podia apertar a mão do líder da Renamo, Afonso Dhlakama?
Em nome dos princípios que defendia não iria prejudicar o povo. Se ele se convencesse de que esse era o único caminho para conseguir que o país estivesse em paz, ele ia fazer isso.
"O nosso chefe fomenta lambebotismo"
As críticas dirigidas directamente a colaboradores de Samora nalguma imprensa não configuram comportamentos racistas que ele tão veemente denunciou e repreendeu?
Samora foi uma pessoa que sempre combateu o racismo, regionalismo e o tribalismo. Ele dizia que esses são os nossos piores inimigos porque impedem-nos de assumir a grandeza do nosso país, não permitem compreender a complexidade da nossa pátria e sobretudo dispersam as nossas forças.
Não lutámos por uma raça, uma religião, uma tribo. Lutámos pela mesma nação, pelo ideal único e pela libertação da nossa terra e do nosso povo. São esses pensamentos que a direção atual da Frelimo esconde. Quando a actual direcção fala de Samora só se limita a dizer que era um grande líder, mas aquilo que ele defendia não fala, esconde.
Quando o mais alto dirigente do país diz que temos que distinguir quem é moçambicano genuíno e não genuíno, a quem se refere e qual é que é o seu objetivo? O que ele pretende?
Eu levantei essa questão no congresso de Pemba. Dirigi-me ao presidente e disse: camarada presidente, o que são moçambicanos genuínos e não genuínos? Disse ao camarada presidente, olha para os membros da Comissão Política, veja o camarada Manuel Tomé. Olha para minha pele e olha para a pele dele, eu vejo que ele é mais claro do que eu. Olha para Graça Machel, ela é mais clara do que eu, então eles não são moçambicanos genuínos? Não me respondeu.
Com isso sente que há focos de racismo no seio da Frelimo?
Não disse isso. Citei apenas o que o dirigente máximo do partido e do país disse e o que eu lhe perguntei. Só esse chefe que disse isso pode responder a questão.
Há quem diga que Jorge Rebelo e outros moçambicanos da raça não negra eram muito "mimados" por Samora Machel. Após a sua morte, essa classe ficou órfã e hoje não vê coisas boas. É um grupo de saudosistas. Concorda com isso?
Há um aspeto que devemos ter em conta que é dos bajuladores e dos lambebotas. Hoje, o país, infelizmente, está infestado desse tipo de gente. O aparelho estatal está infestado por esse tipo de gente porque as pessoas são escolhidas na base da sua capacidade de lamber as botas do chefe. Todos nós assistimos isso. Basta abrir alguns jornais. Mas esses que escrevem são encomendados.
Recebem instruções para defenderem algumas ideias nas linhas e orientação e aceitam.
Mas os bajuladores estão a empurrar o país para o abismo. Pelo que, apelo a essas pessoas para que deixem de serem bajuladores e guiem-se pelo seu pensamento natural porque isso retira-lhes a sua dignidade. Já imaginou o que o termo lambebotas significa. Estar sempre a bajular retira ao indivíduo alguma dignidade e retira a visão do chefe porque fica sem saber o que é bom e o que é mal porque eles continuarão a dizer que tudo está bom para manter as mordomias.
Mas, por outro lado, a culpa é do próprio chefe porque ele é que alimenta esses bajuladores. Escolhe aquele tipo de gente para serem seus conselheiros. Portanto, no fim ao cabo tudo desemboca no chefe porque ele escolhe aqueles que lhe agradam e dizem sempre coisas boas. Normalmente, esse tipo de chefes não gostam que alguém diga que camarada presidente aqui estamos a errar.
O atual dirigente não aceita críticas. Uma das virtudes de Samora é que aceitava críticas. Lembro-me de um episódio. Houve uma altura em que Samora andava meio frustrado porque ele não encontrava nos seus colaboradores respostas para os problemas e passou a tomar decisões sozinho e nós colaboradores diretos sentíamos isso.
Um dia, num encontro restrito, ele disse que não sabia o que estava a acontecer connosco, dizia que não éramos os mesmos. Eu atrevi-me e disse: o problema é que agora o camarada presidente comporta-se como um ditador e fiquei à espera da reação. Fiquei com medo, porque ele podia dizer que isso é uma ofensa ao mais alto magistrado da nação portanto, prendam-no.
Samora não reagiu, não me mandou prender e o que eu notei foi que a partir daí ele chamava-me constantemente para conversarmos. Em vez de me perseguir, marginalizar-me, ele mostrou que gostava de pessoas que lhe diziam as coisas frontalmente e isso é uma indicação da grandeza de um chefe.
Há quem diga que nos últimos dias, há tendência, através da Comunicação Social, de reduzir os progressos de Moçambique, numa única figura, enquanto que na realidade, o desenvolvimento de Moçambique é resultante do trabalho de todos os moçambicanos cada um à sua maneira. Qual é a sua opinião acerca disso?
É uma coisa que me deixa preocupado. Esta tendência de tentar endeuzar o chefe. Esses bajuladores dizem que o chefe é que faz tudo. Todos os dias aparecem artigos na imprensa a falar das realizações de sua excelência. Tudo aquilo que está a acontecer é obra do chefe. Foi o chefe que fez isto e aquilo. Isso cria um mal estar nos cidadãos. Na nossa altura era completamente diferente. Os sucessos eram de todos. Os sucessos do chefe deviam-se aos seus colaboradores e isso estimulava-nos. Quando fazíamos uma coisa certa, éramos elogiados, quando fazíamos uma coisa errada, éramos reprimidos, mas nunca se apresentou como o único que faz coisas.
De certeza que Samora também podia dizer que fui eu que libertei o país, fui eu que corri com os colonos, mas não. Mandela podia dizer que eu sofri na cadeia pelo povo sul-africano, agora quero ficar rico. São atitudes dessas que elevam um líder e não endeuzamentos.
Se estivesse próximo do presidente Guebuza, que conselhos daria?
Não sou conselheiro e nada posso comentar.
Acha que o projeto de justiça social ainda está presente na Frelimo, tendo em conta as gritantes assimetrias económicas vigentes no país?
Não. A Frelimo de hoje tem características muito diferentes da Frelimo do tempo de Mondlane e Samora.
Hoje, no papel falamos de justiça social, igualdade, mas na prática o que está a acontecer é que os pobres estão ficar mais pobres e a minoria rica está a ficar cada vez mais rica.
Marcelino dos Santos disse numa das suas intervenções, no ano passado, que esta Frelimo não respondia aos ideias da sua criação pelo que não sabia se votaria nela em 2014. Qual é o posicionamento de Jorge Rebelo?
Estou dececionado com a Frelimo atual, mas neste momento não vejo alternativas. Portanto, votar pela queda da Frelimo sem essa alternativa significa condenar o país ao caos.
Neste momento, apesar de todos os defeitos que tem a Frelimo atual, ainda é o único partido que pode garantir o mínimo de estabilidade e o desenvolvimento embora esse desenvolvimento beneficie apenas uma pequena camada. Não estou a ver a Renamo como alternativa. O MDM ainda está na fase embrionária e não pode aparecer a dirigir o país. Não conheço os princípios ideológicos do MDM, mas de qualquer forma tem que se afirmar.
Como é que olha o facto de a Frelimo não ter ainda eleito o candidato para as próximas eleições presidenciais, uma vez que nos processos anteriores tinha candidato com maior antecedência?
Isto é uma preocupação de muitos de nós, porque quando foi do tempo do presidente Guebuza, ele começou a campanha dois anos antes porque tinha que se fazer conhecer nas bases. Não é em três meses ou seis meses que um candidato pode percorrer o país todo e dizer eu sou candidato e votem em mim. O pais é grande. Por isso que não compreendo como é que há este atraso na indicação do sucessor do presidente Guebuza. A demora não é benéfica para a Frelimo, porque como disse antes, o presidente Guebuza teve dois anos para fazer campanha e isso ajudou que ganhasse as eleições.
Não compreendo a razão dessa demora e não creio que haja alguém que compreenda porque já é tempo. Talvez os chefes saibam.
Qual é que seria o candidato ideal da Frelimo para as eleições de 2014?
Não tenho perfil do candidato da Frelimo. Olhando à minha volta não vejo o candidato.
Uma das coisas que sempre caracterizaram o partido Frelimo é que sempre reuniu os seus órgãos centrais duas a três vezes por ano. Estranhamente esse hábito não se está a repetir este ano. Desde que a Frelimo saiu do congresso só se reuniu vez uma em sede de Comité Central. O que isso significa?
Podíamos dizer que não há necessidade de reuniões dos órgãos do partido (Comité Central e reunião nacional de Quadros) porque hoje já há um pensamento comum.
Todos pensam da mesma maneira. Para quê fazer reuniões de quadros, gastar-se dinheiro e tempo enquanto pensa-se da mesma maneira e já se sabe o que pensam.
Não vale a pena continuar com essas reuniões porque já sabemos o que se vai decidir. Todos têm o mesmo caminho a seguir.
Se a Frelimo é um partido apologista de diversidade de ideias porque é assim que cresce. É através da crítica e autocrítica que se constrói um partido forte.
Esqueça, essas coisas de críticas, auto-criticas é uma coisa do passado. A Frelimo de hoje não aceita a crítica e muito menos fazer auto-crítica.
Visto por muitos como uma das últimas reservas morais do movimento de libertação, Jorge Rebelo diz em entrevista ao SAVANA que está dececionado com a Frelimo atual, mas reconhece que neste momento não vê alternativas.
Eterno admirador de Samora, Rebelo, um dos fundadores da Frelimo, onde foi o temido secretário do trabalho ideológico, afirma que se o proclamador da independência de Moçambique voltasse não ficaria contente com a situação que se vive no país.
Lamenta o facto de atualmente o país estar infestado de lambebotas, porque, segundo ele, as pessoas são escolhidas na base da sua capacidade de lamber as botas do chefe.
Numa conversa amena, onde a ideia era falar do legado de Samora (amanhã, sábado, passam 27 anos após a sua morte), Rebelo aceitou abordar o tema de sucessão na Frelimo e defende que não há necessidade de reuniões dos órgãos do partido (Comité Central e reunião nacional de Quadros) "porque hoje já há um pensamento comum".
O tema sobre as críticas dirigidas directamente a alguns colaboradores de Samora nalguma imprensa em que os apelida de "revolucionários da desgraça" foi incontornável.
Amanhã, (sábado 19 de Outubro), passam 27 anos após a morte de Samora Machel. O sr. Jorge Rebelo conviveu muitos anos com o presidente Samora. Que recordações guarda do homem que proclamou a independência de Moçambique?
Há alguns dias participei nas cerimónias do aniversário do nascimento do presidente Samora. Nesse encontro, alguns defendiam que Samora, se ressuscitasse, ficaria contente com aquilo que está a acontecer no país. Iria elogiar a direção atual.
Outros diziam que ficaria dececionado de tal forma que quisesse regressar de onde veio. Nesse encontro não me pronunciei. Se tivesse falado diria que amigos tenham calma, porque Samora já não está connosco e não é bom inventar coisas que iria dizer ou não dizer. Como a bíblia diz que não podemos evocar o nome de Deus em vão. Neste caso diria para não evocar o nome de Samora para obter ganhos políticos.
Portanto, não podemos dizer categoricamente como Samora iria reagir perante a situação atual.
O seu sonho está ou não a ser efetivado…
Na base daquilo que sei de Samora através do seu pensamento e atuação na luta armada de libertação, onde se forjou a ideologia da Frelimo e depois na independência, onde o novo Estado começou a ser construído, posso imaginar o seguinte: Samora chegaria e perguntaria como é que estão as coisas.
Se perguntasse a mim diria que está tudo bem camarada presidente, porque ultimamente o povo está a ser formatado para avaliar as coisas sempre pela positiva. É o que acontece hoje, avaliar as coisas positivamente é a palavra de ordem. Portanto, nunca diria que as coisas estão más.
Contudo, ele vai fazer-me várias perguntas como: Nós lutámos para libertar a terra e os homens. A terra está libertada? A terra pertence ao povo como era o nosso sonho?
Aí eu diria que sim. A Constituição ainda diz que a terra não pode ser vendida, pertence ao Estado.
Mas, se ele dissesse que lá onde estou vejo que muitos dirigentes apropriam-se da terra e vendem-na às grandes multinacionais e a população fica na miséria, sem meios para ganhar a sua vida. Você está a enganar-me. Eu aí ficaria engasgado.
Depois levantaria a questão da corrupção. De certeza que Samora diria que era implacável contra a corrupção, não admitia corruptos e ao mínimo sinal de corrupção tomava medidas enérgicas, por isso que no meu tempo não havia corrupção.
Samora definia a corrupção como utilização de cargos públicos e políticos para obter benefícios pessoais e para familiares. Aí ele me perguntaria se os dirigentes, filhos, sobrinhos, irmãos não estão a enriquecer e a maioria do povo cada vez mais na miséria. Perante os factos, não poderia negar e diria que sim estão a enriquecer e o povo a empobrecer.
Depois perguntaria se esses que ficam ricos ganham a riqueza através do seu trabalho ou se aproveitam dos seus cargos para enriquecer. Se ele insistisse quem é o dirigente que está a ficar cada vez mais rico com a sua família. Eu não iria mencionar os nomes, porque toda a gente sabe.
Samora diria mais. Por exemplo, podia dizer que as pessoas andam carregadas em carrinhas de caixa aberta sem qualquer comodidade nem protecção; o emprego não existe; a qualidade de ensino é baixa (hoje os alunos chegam à nona classe sem saber ler nem escrever); a saúde é um desastre, não há medicamentos, os médicos e todo o pessoal da saúde estão desmotivados.
Por fim, Samora diria que não estou contente pela situação que vive o meu povo.
Com isso podemos concluir que, na óptica de Jorge Rebelo, os sonhos e os desejos de Samora não estão a ser tidos em conta pela actual direcção da Frelimo?
Tudo dependente de como é que a pessoa se situa. Se está preocupado com o enriquecimento de um pequeno grupo, diria que o país está em franco desenvolvimento. Se se coloca de ponto da população em geral diria que este crescimento não é o desejado e não é aquilo que Samora defendia.
A minha conclusão é de que se Samora voltasse não ficaria contente com a situação que se vive no país. Na nossa sociedade, os casos de corrupção aumentam progressivamente.
Ela está a tomar conta de todos e há que inverter isso, porque pode nos levar ao abismo. Infelizmente, hoje não podemos dizer isso publicamente porque não encontramos abertura da parte da actual direção do país. Lembro-me de uma conversa com Samora, em que num tom de desabafo dizia que os camaradas que vieram connosco da luta armada estavam a ser apanhados pelo vírus de corrupção e nós tínhamos que tomar medidas para eliminar esse vírus.
E ele dizia que hoje os camaradas estão preocupados com dinheiro, comodidade e regalias que durante a luta de libertação nunca exigiam. Não tínhamos nenhuma preocupação em ficar ricos e lutávamos por um ideal que era a libertação do povo e melhoria das condições de vida de todos. Agora a situação é diferente.
O pensamento de Samora Machel para Moçambique teria estado à altura das profundas mudanças que o país conheceu nos últimos anos?
Há muitos aspectos, políticas e princípios que Samora defendia e que hoje não são aplicáveis. Por exemplo: na área da saúde, Samora dizia que o médico não pode ser um mercenário, não pode utilizar a doença como meio para enriquecer. O médico deve trabalhar só para o Estado e receber o seu salário como qualquer funcionário. Não se admitia clínicas privadas porque seria utilização da doença como meio para enriquecer.
Isso hoje não é viável. Já naquele tempo eu próprio já me interrogava porquê, por exemplo, alguém que estudou durante sete anos para tirar o curso de medicina e fica limitado ao salário que o Estado paga que normalmente é baixo. Se um engenheiro, um jurista e outras profissões não vinculadas exclusivamente ao Estado, podiam trabalhar onde quiserem e ganhar muito mais.
De certeza que muitos médicos iriam fugir da profissão.
Outro exemplo é da economia centralizada. O Estado é que dirigia todos os setores económicos. A experiência mostrou que isso não é benéfico para o país e não era viável. Nessa altura já era possível aferir que o homem é mais flexível e criativo quando motivado pelo lucro e numa economia centralizada a pessoa sabia que se esforçando como não teria o seu salário.
Samora morreu num período de partido único e de uma economia centralizada. Como é que conviveria com a atual realidade, de maior abertura política e económica, pelo menos no plano formal?
Teria que se adaptar porque as sociedades avançam. De certeza que não ficaria tranquilo, mas teria consciência de que aquele modelo de socialismo que nós adoptámos não estava a dar resultados. Claro que há outros factores que contribuíram para isso, porque os países imperialistas entraram em pânico quando Moçambique e Angola se proclamaram países socialistas. Isso era um germe aqui na zona porque poderia influenciar países à volta. Então atacaram-nos e isso contribuiu muito para que o projecto socialista de Samora e de muitos de nós não avançasse.
"Direcção da Frelimo esconde os reais ideais de Samora"
Uma das coisas que marcaram o mandato de Guebuza foi a imortalização da figura de Samora. Foram construídas estátuas em todo o lado, homenagens e discursos benevolentes. Contudo, de outro lado os males que Samora combatia aumentaram. Falo da corrupção e pilhagens dos recursos nacionais. Será que a figura de Samora está mesmo a ser valorizada?
As estátuas são uma coisa boa porque quando as pessoas passam pelas ruas ou praças onde estão erguidas lembram-se de Samora. Mas o mal é que ficamos por aí. Se falamos do legado de Samora apenas dissemos que foi um grande líder, foi o primeiro presidente de Moçambique independente. Não entramos no seu pensamento. Parece que a atual direção da Frelimo e do país não está interessada no pensamento de Samora. Ela esconde o seu pensamento.
Nos seus discursos esquece que Samora era uma figura sensível à corrupção, ao sofrimento do povo, à expropriação dos bens do povo para satisfazer apetites e ganância de um pequeno grupo de dirigentes.
Como é que Samora Machel encararia o facto de sectores importantes da soberania económica de Moçambique, nomeadamente os recursos naturais, estarem hoje nas mãos do capital estrangeiro?
Se ele viesse só para visitar ficaria dececionado. Se ele viesse para impor ordem diria que vamos acabar com estas coisas, mas não no sentido de impedir a exploração desses recursos. Os recursos existem, são nossos e devem contribuir para o crescimento e desenvolvimento do país. Agora, o que ele diria é que temos que dirigir esse processo de tal maneira que o povo inteiro não sofra e uma pequena minoria beneficie.
"Falta vontade política na investigação da morte de Samora"
Como é que reage a um aparente esmorecimento do processo de investigação da morte de Samora Machel, depois de alguma euforia suscitada pelo Presidente Armando Guebuza e Jacob Zuma?
Há duas maneiras de analisar a sua pergunta. Uma pela complexidade das investigações e outra na falta de vontade. Lembro-me do assassinato do primeiro-ministro da Suécia, Olof Palme, foi quase no mesmo período com o do presidente Samora, mas até hoje ainda não foi descoberto quem é que matou.
Portanto, talvez seja tão difícil. Porém, exprimindo o meu sentimento digo que estou desapontado com o nível das investigações. Gostaria que esse processo avançasse para se descobrir os verdadeiros autores do crime.
Sente alguma preocupação da parte dos Governos de Moçambique e da África do Sul em investigar o crime?
Não sinto. Se houvesse esforço de cada um dos lados seria divulgado, o que não está a acontecer. Haveria alguns resultados visíveis indicando que a investigação está a avançar neste ou naquele sentido, já se descobriu isto ou aquilo, mas não se fala. Isso é preocupante.
Acha que um dia Samora podia apertar a mão do líder da Renamo, Afonso Dhlakama?
Em nome dos princípios que defendia não iria prejudicar o povo. Se ele se convencesse de que esse era o único caminho para conseguir que o país estivesse em paz, ele ia fazer isso.
"O nosso chefe fomenta lambebotismo"
As críticas dirigidas directamente a colaboradores de Samora nalguma imprensa não configuram comportamentos racistas que ele tão veemente denunciou e repreendeu?
Samora foi uma pessoa que sempre combateu o racismo, regionalismo e o tribalismo. Ele dizia que esses são os nossos piores inimigos porque impedem-nos de assumir a grandeza do nosso país, não permitem compreender a complexidade da nossa pátria e sobretudo dispersam as nossas forças.
Não lutámos por uma raça, uma religião, uma tribo. Lutámos pela mesma nação, pelo ideal único e pela libertação da nossa terra e do nosso povo. São esses pensamentos que a direção atual da Frelimo esconde. Quando a actual direcção fala de Samora só se limita a dizer que era um grande líder, mas aquilo que ele defendia não fala, esconde.
Quando o mais alto dirigente do país diz que temos que distinguir quem é moçambicano genuíno e não genuíno, a quem se refere e qual é que é o seu objetivo? O que ele pretende?
Eu levantei essa questão no congresso de Pemba. Dirigi-me ao presidente e disse: camarada presidente, o que são moçambicanos genuínos e não genuínos? Disse ao camarada presidente, olha para os membros da Comissão Política, veja o camarada Manuel Tomé. Olha para minha pele e olha para a pele dele, eu vejo que ele é mais claro do que eu. Olha para Graça Machel, ela é mais clara do que eu, então eles não são moçambicanos genuínos? Não me respondeu.
Com isso sente que há focos de racismo no seio da Frelimo?
Não disse isso. Citei apenas o que o dirigente máximo do partido e do país disse e o que eu lhe perguntei. Só esse chefe que disse isso pode responder a questão.
Há quem diga que Jorge Rebelo e outros moçambicanos da raça não negra eram muito "mimados" por Samora Machel. Após a sua morte, essa classe ficou órfã e hoje não vê coisas boas. É um grupo de saudosistas. Concorda com isso?
Há um aspeto que devemos ter em conta que é dos bajuladores e dos lambebotas. Hoje, o país, infelizmente, está infestado desse tipo de gente. O aparelho estatal está infestado por esse tipo de gente porque as pessoas são escolhidas na base da sua capacidade de lamber as botas do chefe. Todos nós assistimos isso. Basta abrir alguns jornais. Mas esses que escrevem são encomendados.
Recebem instruções para defenderem algumas ideias nas linhas e orientação e aceitam.
Mas os bajuladores estão a empurrar o país para o abismo. Pelo que, apelo a essas pessoas para que deixem de serem bajuladores e guiem-se pelo seu pensamento natural porque isso retira-lhes a sua dignidade. Já imaginou o que o termo lambebotas significa. Estar sempre a bajular retira ao indivíduo alguma dignidade e retira a visão do chefe porque fica sem saber o que é bom e o que é mal porque eles continuarão a dizer que tudo está bom para manter as mordomias.
Mas, por outro lado, a culpa é do próprio chefe porque ele é que alimenta esses bajuladores. Escolhe aquele tipo de gente para serem seus conselheiros. Portanto, no fim ao cabo tudo desemboca no chefe porque ele escolhe aqueles que lhe agradam e dizem sempre coisas boas. Normalmente, esse tipo de chefes não gostam que alguém diga que camarada presidente aqui estamos a errar.
O atual dirigente não aceita críticas. Uma das virtudes de Samora é que aceitava críticas. Lembro-me de um episódio. Houve uma altura em que Samora andava meio frustrado porque ele não encontrava nos seus colaboradores respostas para os problemas e passou a tomar decisões sozinho e nós colaboradores diretos sentíamos isso.
Um dia, num encontro restrito, ele disse que não sabia o que estava a acontecer connosco, dizia que não éramos os mesmos. Eu atrevi-me e disse: o problema é que agora o camarada presidente comporta-se como um ditador e fiquei à espera da reação. Fiquei com medo, porque ele podia dizer que isso é uma ofensa ao mais alto magistrado da nação portanto, prendam-no.
Samora não reagiu, não me mandou prender e o que eu notei foi que a partir daí ele chamava-me constantemente para conversarmos. Em vez de me perseguir, marginalizar-me, ele mostrou que gostava de pessoas que lhe diziam as coisas frontalmente e isso é uma indicação da grandeza de um chefe.
Há quem diga que nos últimos dias, há tendência, através da Comunicação Social, de reduzir os progressos de Moçambique, numa única figura, enquanto que na realidade, o desenvolvimento de Moçambique é resultante do trabalho de todos os moçambicanos cada um à sua maneira. Qual é a sua opinião acerca disso?
É uma coisa que me deixa preocupado. Esta tendência de tentar endeuzar o chefe. Esses bajuladores dizem que o chefe é que faz tudo. Todos os dias aparecem artigos na imprensa a falar das realizações de sua excelência. Tudo aquilo que está a acontecer é obra do chefe. Foi o chefe que fez isto e aquilo. Isso cria um mal estar nos cidadãos. Na nossa altura era completamente diferente. Os sucessos eram de todos. Os sucessos do chefe deviam-se aos seus colaboradores e isso estimulava-nos. Quando fazíamos uma coisa certa, éramos elogiados, quando fazíamos uma coisa errada, éramos reprimidos, mas nunca se apresentou como o único que faz coisas.
De certeza que Samora também podia dizer que fui eu que libertei o país, fui eu que corri com os colonos, mas não. Mandela podia dizer que eu sofri na cadeia pelo povo sul-africano, agora quero ficar rico. São atitudes dessas que elevam um líder e não endeuzamentos.
Se estivesse próximo do presidente Guebuza, que conselhos daria?
Não sou conselheiro e nada posso comentar.
Acha que o projeto de justiça social ainda está presente na Frelimo, tendo em conta as gritantes assimetrias económicas vigentes no país?
Não. A Frelimo de hoje tem características muito diferentes da Frelimo do tempo de Mondlane e Samora.
Hoje, no papel falamos de justiça social, igualdade, mas na prática o que está a acontecer é que os pobres estão ficar mais pobres e a minoria rica está a ficar cada vez mais rica.
Marcelino dos Santos disse numa das suas intervenções, no ano passado, que esta Frelimo não respondia aos ideias da sua criação pelo que não sabia se votaria nela em 2014. Qual é o posicionamento de Jorge Rebelo?
Estou dececionado com a Frelimo atual, mas neste momento não vejo alternativas. Portanto, votar pela queda da Frelimo sem essa alternativa significa condenar o país ao caos.
Neste momento, apesar de todos os defeitos que tem a Frelimo atual, ainda é o único partido que pode garantir o mínimo de estabilidade e o desenvolvimento embora esse desenvolvimento beneficie apenas uma pequena camada. Não estou a ver a Renamo como alternativa. O MDM ainda está na fase embrionária e não pode aparecer a dirigir o país. Não conheço os princípios ideológicos do MDM, mas de qualquer forma tem que se afirmar.
Como é que olha o facto de a Frelimo não ter ainda eleito o candidato para as próximas eleições presidenciais, uma vez que nos processos anteriores tinha candidato com maior antecedência?
Isto é uma preocupação de muitos de nós, porque quando foi do tempo do presidente Guebuza, ele começou a campanha dois anos antes porque tinha que se fazer conhecer nas bases. Não é em três meses ou seis meses que um candidato pode percorrer o país todo e dizer eu sou candidato e votem em mim. O pais é grande. Por isso que não compreendo como é que há este atraso na indicação do sucessor do presidente Guebuza. A demora não é benéfica para a Frelimo, porque como disse antes, o presidente Guebuza teve dois anos para fazer campanha e isso ajudou que ganhasse as eleições.
Não compreendo a razão dessa demora e não creio que haja alguém que compreenda porque já é tempo. Talvez os chefes saibam.
Qual é que seria o candidato ideal da Frelimo para as eleições de 2014?
Não tenho perfil do candidato da Frelimo. Olhando à minha volta não vejo o candidato.
Uma das coisas que sempre caracterizaram o partido Frelimo é que sempre reuniu os seus órgãos centrais duas a três vezes por ano. Estranhamente esse hábito não se está a repetir este ano. Desde que a Frelimo saiu do congresso só se reuniu vez uma em sede de Comité Central. O que isso significa?
Podíamos dizer que não há necessidade de reuniões dos órgãos do partido (Comité Central e reunião nacional de Quadros) porque hoje já há um pensamento comum.
Todos pensam da mesma maneira. Para quê fazer reuniões de quadros, gastar-se dinheiro e tempo enquanto pensa-se da mesma maneira e já se sabe o que pensam.
Não vale a pena continuar com essas reuniões porque já sabemos o que se vai decidir. Todos têm o mesmo caminho a seguir.
Se a Frelimo é um partido apologista de diversidade de ideias porque é assim que cresce. É através da crítica e autocrítica que se constrói um partido forte.
Esqueça, essas coisas de críticas, auto-criticas é uma coisa do passado. A Frelimo de hoje não aceita a crítica e muito menos fazer auto-crítica.
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12/10/2013
Lavar a história
Fui ontem ver o Mordomo ao cinema.
Fui pela música do Rodrigo Leão, mas também porque a luta pelos direitos civis dos negros me interessa (até pelo seu paralelo com as atuais lutas pelos direitos civis dos homossexuais).
Talvez porque hoje em dia Hollywood seja Democrata, parece que simplesmente se recusam a aceitar a História.
Sobre as lutas relativas aos direito civis, assisti a um tremendo branqueamento das culpas Democratas.*
A verdade é que nos anos 50 e 60, os campeões das lutas pelos direitos civis eram Republicanos e não Democratas. Ao longo de todo o filme, assiste-se a uma grosseira manipulação.
A história do mordomo na Casa Branca começa com Eisenhower a ordenar que tropas federais protejam um negro que pretende frequentar uma universidade segregacionista. O presidente enviou tropas para Little Rock, Arkansas, porque o governador deste Estado deu ordens à polícia estadual para não deixar entrar o negro em causa.
Como se sabe, Eisenhower era Republicano. O que não se disse no filme foi que o governador do Arkansas era Democrata. Mais grave ainda, esta atitude de um governador Democrata era comum.
Em Alabama, em 1963, passou-se outro caso semelhante também com um governador Democrata.
Em 1957, quando Eisenhower tentou aprovar o que ficou conhecido como o 1957 Civil Rights Act foi obrigado a moderar bastante os objetivos do texto inicial por causa da forte oposição liderada por Lyndon B. Johnson, que, na década seguinte, seria presidente Democrata.
Mesmo uma versão bastante mitigada do texto original contaria com o voto contra de dúzia e meia de senadores, todos eles democratas… Vale a pena ler esta carta de Republicano Val J. Washington dirigida a LBJ. No filme, Lyndon B. Johnson é glorificado como um campeão da luta negra. O seu Civil Rights Act é apresentado como um dos maiores avanços das lutas pelos direitos civis.
O que o filme se esquece de dizer é que o texto aprovado era, na sua essência, igual àquele que Eisenhower tinha proposto e a que Lyndon B. Johnson se tinha firmemente oposto em 1957.
Richard Nixon é tratado com bastante desprezo no filme, dando a entender que não passa de um mero racista que quer o voto dos negros. Referir que, ainda no senado, ele se tinha batido pelos direitos dos negros… nem pensar, estragaria o enredo.
Havia algo que eu esperava também ver retratado, que foi o papel das armas nos movimentos de libertação dos negros. Na verdade, quando os negros tinham de enfrentar o Ku Klux Klan (quase exclusivamente composto por Democratas) estavam duplamente desprotegidos. Estavam desprotegidos pela polícia e estavam desprotegidos porque o direito constitucional a ter arma lhes era negado.
O próprio Martin Luther King, depois de um ataque a sua casa em meados dos anos 50, viu ser-lhe negado uma licença de porte de arma. Foi no fim dessa década, graças à pressão da National Riffle Association, que os negros passaram a ter o direito a usar armas. E foi nessa altura também que os homens dos capuchos brancos do KKK aprenderam que enfrentar negros armados era bem mais complicado. Até porque aqueles capuchos brancos eram alvos fáceis à noite. O declínio do KKK começou aí.
Enfim, o filme até conseguiu que Ronald Reagan passasse por racista. Na verdade, de acordo com o filme, Ronald Reagan é o primeiro presidente a ordenar que os empregados negros da Casa Branca recebam um ordenado igual ao dos brancos (que até aí era pouco mais de metade). É também o primeiro presidente a convidar a personagem principal para um banquete na Casa Branca.
Mas, claro, o filme não poderia dar tais créditos a um Republicano. Logo a seguir, com a demissão do mordomo, é-nos dito que nada era sincero. Era tudo oportunismo. Mas, mais uma vez, a verdade é diferente. A própria personagem real (aquela em que se baseia a personagem do filme) já o disse em diversas entrevistas. Não me entendam mal. Sigo a política americana desde 1992. E, se votasse, teria votado sempre Democrata. Também considero execrável o lobby da NRA contra um efectivo controlo de armas. Mas história é história e os Democratas não são campeões desta história.
A história do Partido Democrata na luta pelos direitos dos negros é recente, começou com o Civil Rights Act de Johnson, em 1964, e culminou com a eleição de Obama.
Mas não esqueçamos que o Partido Republicano nasceu em meados do século XIX para combater a escravatura então defendida pelo Partido Democrata.
* Sempre que usar a maiúscula para Democratas e Republicanos refiro-me a membros ou apoiantes do Partido Democrata e do Partido Republicano.
in "A Destreza das Dúvidas", por Luís Aguiar-Conraria
Fui pela música do Rodrigo Leão, mas também porque a luta pelos direitos civis dos negros me interessa (até pelo seu paralelo com as atuais lutas pelos direitos civis dos homossexuais).
Talvez porque hoje em dia Hollywood seja Democrata, parece que simplesmente se recusam a aceitar a História.
Sobre as lutas relativas aos direito civis, assisti a um tremendo branqueamento das culpas Democratas.*
A verdade é que nos anos 50 e 60, os campeões das lutas pelos direitos civis eram Republicanos e não Democratas. Ao longo de todo o filme, assiste-se a uma grosseira manipulação.
A história do mordomo na Casa Branca começa com Eisenhower a ordenar que tropas federais protejam um negro que pretende frequentar uma universidade segregacionista. O presidente enviou tropas para Little Rock, Arkansas, porque o governador deste Estado deu ordens à polícia estadual para não deixar entrar o negro em causa.
Como se sabe, Eisenhower era Republicano. O que não se disse no filme foi que o governador do Arkansas era Democrata. Mais grave ainda, esta atitude de um governador Democrata era comum.
Em Alabama, em 1963, passou-se outro caso semelhante também com um governador Democrata.
Em 1957, quando Eisenhower tentou aprovar o que ficou conhecido como o 1957 Civil Rights Act foi obrigado a moderar bastante os objetivos do texto inicial por causa da forte oposição liderada por Lyndon B. Johnson, que, na década seguinte, seria presidente Democrata.
Mesmo uma versão bastante mitigada do texto original contaria com o voto contra de dúzia e meia de senadores, todos eles democratas… Vale a pena ler esta carta de Republicano Val J. Washington dirigida a LBJ. No filme, Lyndon B. Johnson é glorificado como um campeão da luta negra. O seu Civil Rights Act é apresentado como um dos maiores avanços das lutas pelos direitos civis.
O que o filme se esquece de dizer é que o texto aprovado era, na sua essência, igual àquele que Eisenhower tinha proposto e a que Lyndon B. Johnson se tinha firmemente oposto em 1957.
Richard Nixon é tratado com bastante desprezo no filme, dando a entender que não passa de um mero racista que quer o voto dos negros. Referir que, ainda no senado, ele se tinha batido pelos direitos dos negros… nem pensar, estragaria o enredo.
Havia algo que eu esperava também ver retratado, que foi o papel das armas nos movimentos de libertação dos negros. Na verdade, quando os negros tinham de enfrentar o Ku Klux Klan (quase exclusivamente composto por Democratas) estavam duplamente desprotegidos. Estavam desprotegidos pela polícia e estavam desprotegidos porque o direito constitucional a ter arma lhes era negado.
O próprio Martin Luther King, depois de um ataque a sua casa em meados dos anos 50, viu ser-lhe negado uma licença de porte de arma. Foi no fim dessa década, graças à pressão da National Riffle Association, que os negros passaram a ter o direito a usar armas. E foi nessa altura também que os homens dos capuchos brancos do KKK aprenderam que enfrentar negros armados era bem mais complicado. Até porque aqueles capuchos brancos eram alvos fáceis à noite. O declínio do KKK começou aí.
Enfim, o filme até conseguiu que Ronald Reagan passasse por racista. Na verdade, de acordo com o filme, Ronald Reagan é o primeiro presidente a ordenar que os empregados negros da Casa Branca recebam um ordenado igual ao dos brancos (que até aí era pouco mais de metade). É também o primeiro presidente a convidar a personagem principal para um banquete na Casa Branca.
Mas, claro, o filme não poderia dar tais créditos a um Republicano. Logo a seguir, com a demissão do mordomo, é-nos dito que nada era sincero. Era tudo oportunismo. Mas, mais uma vez, a verdade é diferente. A própria personagem real (aquela em que se baseia a personagem do filme) já o disse em diversas entrevistas. Não me entendam mal. Sigo a política americana desde 1992. E, se votasse, teria votado sempre Democrata. Também considero execrável o lobby da NRA contra um efectivo controlo de armas. Mas história é história e os Democratas não são campeões desta história.
A história do Partido Democrata na luta pelos direitos dos negros é recente, começou com o Civil Rights Act de Johnson, em 1964, e culminou com a eleição de Obama.
Mas não esqueçamos que o Partido Republicano nasceu em meados do século XIX para combater a escravatura então defendida pelo Partido Democrata.
* Sempre que usar a maiúscula para Democratas e Republicanos refiro-me a membros ou apoiantes do Partido Democrata e do Partido Republicano.
in "A Destreza das Dúvidas", por Luís Aguiar-Conraria
03/10/2013
29/07/2013
Os assassinos
É tempo de pedir contas pelos crimes cometidos pela camarilha frelimista (Vieira, Veloso, Monteiro e demais)!
26/07/2013
Grândola Vila Morena
A canção que hoje persegue os políticos da era da troika nunca foi pacífica para as pessoas de Grândola - nem para o intérprete Zeca Afonso, que nunca mais lá a cantou depois de uma vez ter sido impedido de a terminar.
Viagem ao passado recente de um símbolo. Aquilo foi uma espécie de “Grândola” ao contrário, mas aconteceu em Grândola.
Ninguém foi impedido de falar por causa da canção como se tornou costume agora, deu-se o inverso: a cantiga foi interrompida, o que é difícil de entender, os tempos eram tão estranhos que hoje ainda há quem oiça esta história custando acreditar nela.
Parecia tudo às avessas, o mundo estava revirado pelos forros, e a prova é que o sucedido se passou com Zeca Afonso, a cantar o “Grândola Vila Morena” no salão dos Bombeiros Voluntários de Grândola, ali na Praça da Palmeiras, nome popular, uma vez que o verdadeiro é da República, com estátua de um republicano no meio.
José Afonso começou, mas não acabou, não o deixaram terminar, aconteceu o impensável: apuparam-no, assobiaram-no, gritaram-lhe “esquerdista”, estragaram o espectáculo, estava o caldo entornado, não havia fraternidade, muito menos um amigo em cada esquina, o Zeca meteu a viola no saco, literalmente. Fez o que fazem hoje alguns ministros, quando pela canção não os deixam falar, estes tempos de troika também são dos avessos. Ele foi-se embora, abalou, como dizem os alentejanos.
Os manifestantes não eram fascistas, antes fossem, ai do fascista que se metesse em trabalhos naqueles tempos, levava uma carga de porrada que nem sabia, aquela malta era danada, e até havia um bairro chamado “Danado” no centro da vila a provar que a pancadaria era fruta da época quando fosse preciso.
Os autores dessa “grandolada”, designação moderna que não existia no pós-PREC, eram comunistas, custa a crer. Eram militantes do PCP, organizados ou voluntariosos, quem fala disso não o sabe dizer, não perdoavam a José Afonso o apoio a Otelo Saraiva de Carvalho nas presidenciais de 1976 contra o camarada Octávio Pato, nem a sua aproximação à LUAR, organização de extrema-esquerda, que como as outras forças radicais não alinhava com o Partido Comunista, força dominante no Alentejo e em Grândola também, pelo menos até 2001.
Podia compreender-se a tristeza da militância exacerbada, afinal a revolução passara, o PREC finara-se em finais de 1975, mas em Grândola ainda estava tudo muito quente, muito vivo, as fronteiras bem traçadas, nos códigos da esquerda chamava-se a isto setarismo, por isso é que o PCP e o Bloco de Esquerda ainda hoje não se entendem.
O boicote foi testemunhado por José Horta, que foi próximo da UDP e hoje é presidente da Junta de Freguesia de Santa Margarida da Serra (independente pelo PS), e confirmado por Dulce Manuel, sobrinha do célebre Zé da Conceição, um dos responsáveis pelo convite que desencadeou a criação do poema do “Grândola Vila Morena”, mas essa é outra história, já lá vamos. Nem um nem outro se lembram da data certa do incidente, talvez em 1976, no máximo terá acontecido em 1978, na fase em que o adversário político se confundia com inimigo, um tempo em que as atitudes políticas deixavam marcas para uma vida.
José Afonso não esqueceria o episódio. “No fim do concerto, veio falar comigo e com os meus pais e estava muito aborrecido com aquela situação”, recorda Dulce Manuel. “Ficou muito magoado com Grândola”, diz. Segundo se lembra José Horta, o Zeca havia de “comentar que tinha sido a única terra onde não tinha conseguido acabar o Grândola Vila Morena”. Não voltou a cantar na vila cujo nome celebrizou, embora nem para todos essa fosse uma designação de boa fama.
A historiadora Irene Pimentel, que escreveu uma fotobiografia de José Afonso, destaca a sua humildade e “pudor” em relação a homenagens – na vila há ruas e praças com o nome dele – mas também confirma: “Sei que ele estava muito magoado com Grândola”. Teria a ver com o referido episódio, e ao mesmo tempo com a tentativa de apropriação por parte do PCP, não deixava de parecer contraditório.
Dentro de Grândola, a “Vila Morena” era em geral uma cantiga desconfortável para quem não fosse comunista. Os grupos de extrema-esquerda acusavam o PCP de se ter apropriado da obra de Zeca Afonso e de tentar ocupar a sua memória. Apesar disso, na Renault 4L que circulava pelas ruas com os megafones do PCP no tejadilho, o partido emitia dias a fio músicas de Zeca como se ele fosse um comunista.
Para os não comunistas, que sendo menos ainda eram alguns, tanto fazia. Aquela canção, bonita como os mais belos cantares alentejanos, com uma letra política subtil, menos panfletária que muitas outras, a falar de amigos e de fraternidade, era coisa de comunas, merecia distância, vade retro brejenvistas, durante muito tempo se confundiu a revolução com o processo revolucionário, as cicatrizes eram profundas. A terra tinha nome próprio e dois apelidos, Grândola e “Vila Morena”, motivo suficiente para um anónimo ao longo dos anos os pintar na placa de entrada na localidade, que a seguir alguém riscava, embora ele voltasse escrever: “Grândola Vila Morena” e alguém tornasse a riscar…
A cantiga não era universal como viria a ser. “As pessoas não gostavam de Grândola porque, por causa da música, ficou com a fama de ser a causadora da revolução e depois toda a gente achava que em Grândola só havia comunistas!”, contou um idoso grandolense a Joana Correia, no âmbito de um mestrado da Universidade Aberta sobre Identidade e Memória, realizado em 2010.
Os depoimentos recolhidos foram todos anónimos, ainda hoje poucos aceitam dar a cara para falar destes desconfortos. A proprietária de uma mercearia recordava outro episódio eloquente: “A única vez que disse [ser de Grândola] serviu de lição: tínhamos ido numa excursão, eu e um grupo de amigas, e estávamos a almoçar numa pensão. Calhou estarmos a falar na nossa terra e, de repente, todas as pessoas que estavam a almoçar à nossa volta levantaram-se e saíram, a dizerem que não comiam na mesma sala em que estivesse ‘gentalha’ de Grândola.
O dono da pensão veio ter connosco e convidou-nos a sair, dizendo que não servia almoços a comunistas. E eu que nunca fui comunista…” As histórias sucedem-se, como a do agricultor que numa feira de gado teve de ser acudido por um compadre de Alcácer do Sal. “A verdade é que por causa disso acabei metido numa bonita sem ter feito nada”. Quando disse que era de Grândola, o homem que estava à sua frente voltou-se, agressivo. “E eu só dizia: mas eu não tenho culpa de ser de Grândola!” Ninguém tinha culpa, os símbolos são o que são.
Naquele tempo, em que os carros usavam uma placa a dizer a localidade de origem, podia ser um problema transportar aquele nome e viajar para o Norte, onde até há poucos anos se queimavam sedes do PCP em autos de fé políticos. “Quando íamos passear para fora de Grândola, tínhamos sempre que tapar essa chapa porque corríamos o risco de sair do carro e quando voltássemos ter o carro todo partido. Aconteceu a muita gente. Nunca dizia que era de Grândola.
As pessoas não gostavam, achavam que em Grândola éramos todos comunistas”, contou uma professora reformada à mesma investigadora. Se no Norte e no Centro do País os grandolenses eram rotulados de moscovitas mesmo não o sendo, em Grândola se não o fossem eram pelo menos reaccionários. Os piores seriam fascistas, dependia se tinham terras ou fábricas de cortiça. O mundo era a preto e branco, os cinzentos e as tonalidades vieram depois com o amornar dos fervores tanto revolucionários, como da reação.
O centro geométrico político daquela Vila Morena estava muito deslocado, havia razões sobejas para isso, tanto sociais como históricas, de modo que a direita começava demasiado à esquerda, eram sintomas não só dos tempos mas do contexto de décadas. Bastava ver o que era a vida dos trabalhadores rurais.
O tempo fez o seu trabalho. Toda esta história começou 10 anos antes do 25 de Abril. Era o ano de 1964. O encenador Hélder Costa, natural de Grândola, estudava em Coimbra, onde vivia numa república chamada Prá-Kys-Tão, e era amigo de Zeca Afonso, que aparecia de vez em quando a visitar os que prály-estavam. Apesar da distância, o alentejano filho da D. Mariana continuava activo como membro da “Música Velha”, o nome simplificado que o povo dá à SMFOG – Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense – onde o já referido Zé da Conceição desenvolvia um trabalho de dinamização cultural de contornos políticos.
Nesse ano, no âmbito do 52º aniversário da “Música Velha”, Zé da Conceição convidou Zeca Afonso através de Hélder Costa para actuar no dia 17 de Maio em Grândola. Era um luxo. Carlos Paredes tinha acabado de compor os Verdes Anos. Atuaram os dois no mesmo dia. Conheceram-se ali. “Foi extraordinário”, recorda Hélder Costa, “durante a noite o Zeca estreou canções que ninguém conhecia.
A relação foi tão afectiva que dias depois mandou para a direção da coletividade um poema de homenagem a Grândola, que não era uma canção”, recorda o encenador. O poema foi lido publicamente na sociedade a 31 de Maio. A carta enviada tinha sido escrita a tinta verde, “não sei o que lhe passou pela cabeça”, recorda-se Hélder Costa, e o original foi guardado por Zé da Conceição. “Desgraçado, perdeu-a, ou está escondida ou muito bem guardada”, diz o encenador, a verdade é que a letra começou a ser cantada com a música do “Baleizão, Baleizão”, lembra-se Dulce Manuel, a sobrinha de Zé da Conceição.
A canção definitiva do autor só apareceu com a edição do álbum Cantigas do Maio, em 1971, depois de pelo menos quatro versões diferentes e após e de ter perdido uma estrofe pelo caminho: “Capital da cortesia / Não se teme de oferecer / Quem for a Grândola um dia / Muita coisa há-de trazer”.
Como o destino é feito de acasos, a canção nunca teria esta importância política se a Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas (MFA) não se tivesse lembrado de escolher “a Grândola” como contra-senha para a operação que desencadeou o golpe militar, no dia 25 de Abril de 1974.
Carlos Beato, ex-presidente da Câmara de Grândola (2001-2013), alferes na coluna de Salgueiro Maia que tomou o poder a Marcello Caetano, diz que a “Vila Morena” foi escolhida porque não estava na lista da censura e podia ser passada na rádio sem levantar suspeitas. Foi emitida na Renascença à meia noite e vinte. Tornou-se um hino.
No entanto, a relação do autor com a sua “capital da cortesia” nunca mais seria a mesma depois daquele concerto no salão dos bombeiros. José Afonso chegaria a ter uma casa em S. Francisco da Serra, perto de Grândola, e são vários os relatos, exagerados ou não, de que entrava no café Pica-Pau, onde se juntavam os simpatizantes e militantes comunistas, e que não lhe falavam ou saíam para a rua para não lhe falarem. Pelo menos não era recebido de forma calorosa. Em cada esquina um amigo. E em cada rosto igualdade.
Em meados dos anos 80, um grupo que não estava ligado diretamente ao PCP organizou-lhe uma homenagem, já José Afonso estava doente. “Aceitou, mas estava muito triste porque tinha sido mal recebido na terra”, conta Isabel Revez, quadro superior da câmara de Grândola, uma das organizadoras do evento. O autor falou com amigos para participarem, colaborou mas não esteve presente, e pediu, quase como condição, que se falasse de Timor, o que a organização cumpriu, convidando os refugiados timorenses em Portugal.
Apesar de tudo, “fez-se o espetáculo debaixo de alguma tensão”, diz Isabel Revez. As comemorações tinham dois dias, mas não passaram do primeiro, quando Francisco Fanhais se sentiu visado por um funcionário da autarquia, quando ao dedicar uma música a Otelo, preso no âmbito do processo das FP’25, o animador cultural da câmara o tentou apressar ou calar. Caiu mal. Fanhais terá dito que se não o calavam antes do 25 de Abril não seria agora censurado, houve alguma confusão. No dia seguinte a homenagem foi um fiasco, com o cartaz cancelado, de Fausto a José Mário Branco, tudo ausente.
Quando houve uma petição na Assembleia Municipal para reunir fundos e apoiar tratamentos para o cantor no estrangeiro, a proposta não passou, com os votos contra do PCP, recorda Graça Nunes, actual presidente da câmara, do PS.
Quando se organizou o concerto no Coliseu em 1983, o último do cantor, Ivone Chinita, uma grandolense que trabalhava na produtora Era Nova, terá enviado convites para a câmara municipal, que ficaram por usar. Dilar Chinita, irmã de Ivone, já falecida, recorda: “A minha irmã ofereceu um envelope com 40 bilhetes para a câmara organizar um autocarro, mas ninguém foi. Disseram-lhe na câmara que as pessoas não estavam interessadas”.
Mais setarismo.
Viagem ao passado recente de um símbolo. Aquilo foi uma espécie de “Grândola” ao contrário, mas aconteceu em Grândola.
Ninguém foi impedido de falar por causa da canção como se tornou costume agora, deu-se o inverso: a cantiga foi interrompida, o que é difícil de entender, os tempos eram tão estranhos que hoje ainda há quem oiça esta história custando acreditar nela.
Parecia tudo às avessas, o mundo estava revirado pelos forros, e a prova é que o sucedido se passou com Zeca Afonso, a cantar o “Grândola Vila Morena” no salão dos Bombeiros Voluntários de Grândola, ali na Praça da Palmeiras, nome popular, uma vez que o verdadeiro é da República, com estátua de um republicano no meio.
José Afonso começou, mas não acabou, não o deixaram terminar, aconteceu o impensável: apuparam-no, assobiaram-no, gritaram-lhe “esquerdista”, estragaram o espectáculo, estava o caldo entornado, não havia fraternidade, muito menos um amigo em cada esquina, o Zeca meteu a viola no saco, literalmente. Fez o que fazem hoje alguns ministros, quando pela canção não os deixam falar, estes tempos de troika também são dos avessos. Ele foi-se embora, abalou, como dizem os alentejanos.
Os manifestantes não eram fascistas, antes fossem, ai do fascista que se metesse em trabalhos naqueles tempos, levava uma carga de porrada que nem sabia, aquela malta era danada, e até havia um bairro chamado “Danado” no centro da vila a provar que a pancadaria era fruta da época quando fosse preciso.
Os autores dessa “grandolada”, designação moderna que não existia no pós-PREC, eram comunistas, custa a crer. Eram militantes do PCP, organizados ou voluntariosos, quem fala disso não o sabe dizer, não perdoavam a José Afonso o apoio a Otelo Saraiva de Carvalho nas presidenciais de 1976 contra o camarada Octávio Pato, nem a sua aproximação à LUAR, organização de extrema-esquerda, que como as outras forças radicais não alinhava com o Partido Comunista, força dominante no Alentejo e em Grândola também, pelo menos até 2001.
Podia compreender-se a tristeza da militância exacerbada, afinal a revolução passara, o PREC finara-se em finais de 1975, mas em Grândola ainda estava tudo muito quente, muito vivo, as fronteiras bem traçadas, nos códigos da esquerda chamava-se a isto setarismo, por isso é que o PCP e o Bloco de Esquerda ainda hoje não se entendem.
O boicote foi testemunhado por José Horta, que foi próximo da UDP e hoje é presidente da Junta de Freguesia de Santa Margarida da Serra (independente pelo PS), e confirmado por Dulce Manuel, sobrinha do célebre Zé da Conceição, um dos responsáveis pelo convite que desencadeou a criação do poema do “Grândola Vila Morena”, mas essa é outra história, já lá vamos. Nem um nem outro se lembram da data certa do incidente, talvez em 1976, no máximo terá acontecido em 1978, na fase em que o adversário político se confundia com inimigo, um tempo em que as atitudes políticas deixavam marcas para uma vida.
José Afonso não esqueceria o episódio. “No fim do concerto, veio falar comigo e com os meus pais e estava muito aborrecido com aquela situação”, recorda Dulce Manuel. “Ficou muito magoado com Grândola”, diz. Segundo se lembra José Horta, o Zeca havia de “comentar que tinha sido a única terra onde não tinha conseguido acabar o Grândola Vila Morena”. Não voltou a cantar na vila cujo nome celebrizou, embora nem para todos essa fosse uma designação de boa fama.
A historiadora Irene Pimentel, que escreveu uma fotobiografia de José Afonso, destaca a sua humildade e “pudor” em relação a homenagens – na vila há ruas e praças com o nome dele – mas também confirma: “Sei que ele estava muito magoado com Grândola”. Teria a ver com o referido episódio, e ao mesmo tempo com a tentativa de apropriação por parte do PCP, não deixava de parecer contraditório.
Dentro de Grândola, a “Vila Morena” era em geral uma cantiga desconfortável para quem não fosse comunista. Os grupos de extrema-esquerda acusavam o PCP de se ter apropriado da obra de Zeca Afonso e de tentar ocupar a sua memória. Apesar disso, na Renault 4L que circulava pelas ruas com os megafones do PCP no tejadilho, o partido emitia dias a fio músicas de Zeca como se ele fosse um comunista.
Para os não comunistas, que sendo menos ainda eram alguns, tanto fazia. Aquela canção, bonita como os mais belos cantares alentejanos, com uma letra política subtil, menos panfletária que muitas outras, a falar de amigos e de fraternidade, era coisa de comunas, merecia distância, vade retro brejenvistas, durante muito tempo se confundiu a revolução com o processo revolucionário, as cicatrizes eram profundas. A terra tinha nome próprio e dois apelidos, Grândola e “Vila Morena”, motivo suficiente para um anónimo ao longo dos anos os pintar na placa de entrada na localidade, que a seguir alguém riscava, embora ele voltasse escrever: “Grândola Vila Morena” e alguém tornasse a riscar…
A cantiga não era universal como viria a ser. “As pessoas não gostavam de Grândola porque, por causa da música, ficou com a fama de ser a causadora da revolução e depois toda a gente achava que em Grândola só havia comunistas!”, contou um idoso grandolense a Joana Correia, no âmbito de um mestrado da Universidade Aberta sobre Identidade e Memória, realizado em 2010.
Os depoimentos recolhidos foram todos anónimos, ainda hoje poucos aceitam dar a cara para falar destes desconfortos. A proprietária de uma mercearia recordava outro episódio eloquente: “A única vez que disse [ser de Grândola] serviu de lição: tínhamos ido numa excursão, eu e um grupo de amigas, e estávamos a almoçar numa pensão. Calhou estarmos a falar na nossa terra e, de repente, todas as pessoas que estavam a almoçar à nossa volta levantaram-se e saíram, a dizerem que não comiam na mesma sala em que estivesse ‘gentalha’ de Grândola.
O dono da pensão veio ter connosco e convidou-nos a sair, dizendo que não servia almoços a comunistas. E eu que nunca fui comunista…” As histórias sucedem-se, como a do agricultor que numa feira de gado teve de ser acudido por um compadre de Alcácer do Sal. “A verdade é que por causa disso acabei metido numa bonita sem ter feito nada”. Quando disse que era de Grândola, o homem que estava à sua frente voltou-se, agressivo. “E eu só dizia: mas eu não tenho culpa de ser de Grândola!” Ninguém tinha culpa, os símbolos são o que são.
Naquele tempo, em que os carros usavam uma placa a dizer a localidade de origem, podia ser um problema transportar aquele nome e viajar para o Norte, onde até há poucos anos se queimavam sedes do PCP em autos de fé políticos. “Quando íamos passear para fora de Grândola, tínhamos sempre que tapar essa chapa porque corríamos o risco de sair do carro e quando voltássemos ter o carro todo partido. Aconteceu a muita gente. Nunca dizia que era de Grândola.
As pessoas não gostavam, achavam que em Grândola éramos todos comunistas”, contou uma professora reformada à mesma investigadora. Se no Norte e no Centro do País os grandolenses eram rotulados de moscovitas mesmo não o sendo, em Grândola se não o fossem eram pelo menos reaccionários. Os piores seriam fascistas, dependia se tinham terras ou fábricas de cortiça. O mundo era a preto e branco, os cinzentos e as tonalidades vieram depois com o amornar dos fervores tanto revolucionários, como da reação.
O centro geométrico político daquela Vila Morena estava muito deslocado, havia razões sobejas para isso, tanto sociais como históricas, de modo que a direita começava demasiado à esquerda, eram sintomas não só dos tempos mas do contexto de décadas. Bastava ver o que era a vida dos trabalhadores rurais.
O tempo fez o seu trabalho. Toda esta história começou 10 anos antes do 25 de Abril. Era o ano de 1964. O encenador Hélder Costa, natural de Grândola, estudava em Coimbra, onde vivia numa república chamada Prá-Kys-Tão, e era amigo de Zeca Afonso, que aparecia de vez em quando a visitar os que prály-estavam. Apesar da distância, o alentejano filho da D. Mariana continuava activo como membro da “Música Velha”, o nome simplificado que o povo dá à SMFOG – Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense – onde o já referido Zé da Conceição desenvolvia um trabalho de dinamização cultural de contornos políticos.
Nesse ano, no âmbito do 52º aniversário da “Música Velha”, Zé da Conceição convidou Zeca Afonso através de Hélder Costa para actuar no dia 17 de Maio em Grândola. Era um luxo. Carlos Paredes tinha acabado de compor os Verdes Anos. Atuaram os dois no mesmo dia. Conheceram-se ali. “Foi extraordinário”, recorda Hélder Costa, “durante a noite o Zeca estreou canções que ninguém conhecia.
A relação foi tão afectiva que dias depois mandou para a direção da coletividade um poema de homenagem a Grândola, que não era uma canção”, recorda o encenador. O poema foi lido publicamente na sociedade a 31 de Maio. A carta enviada tinha sido escrita a tinta verde, “não sei o que lhe passou pela cabeça”, recorda-se Hélder Costa, e o original foi guardado por Zé da Conceição. “Desgraçado, perdeu-a, ou está escondida ou muito bem guardada”, diz o encenador, a verdade é que a letra começou a ser cantada com a música do “Baleizão, Baleizão”, lembra-se Dulce Manuel, a sobrinha de Zé da Conceição.
A canção definitiva do autor só apareceu com a edição do álbum Cantigas do Maio, em 1971, depois de pelo menos quatro versões diferentes e após e de ter perdido uma estrofe pelo caminho: “Capital da cortesia / Não se teme de oferecer / Quem for a Grândola um dia / Muita coisa há-de trazer”.
Como o destino é feito de acasos, a canção nunca teria esta importância política se a Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas (MFA) não se tivesse lembrado de escolher “a Grândola” como contra-senha para a operação que desencadeou o golpe militar, no dia 25 de Abril de 1974.
Carlos Beato, ex-presidente da Câmara de Grândola (2001-2013), alferes na coluna de Salgueiro Maia que tomou o poder a Marcello Caetano, diz que a “Vila Morena” foi escolhida porque não estava na lista da censura e podia ser passada na rádio sem levantar suspeitas. Foi emitida na Renascença à meia noite e vinte. Tornou-se um hino.
No entanto, a relação do autor com a sua “capital da cortesia” nunca mais seria a mesma depois daquele concerto no salão dos bombeiros. José Afonso chegaria a ter uma casa em S. Francisco da Serra, perto de Grândola, e são vários os relatos, exagerados ou não, de que entrava no café Pica-Pau, onde se juntavam os simpatizantes e militantes comunistas, e que não lhe falavam ou saíam para a rua para não lhe falarem. Pelo menos não era recebido de forma calorosa. Em cada esquina um amigo. E em cada rosto igualdade.
Em meados dos anos 80, um grupo que não estava ligado diretamente ao PCP organizou-lhe uma homenagem, já José Afonso estava doente. “Aceitou, mas estava muito triste porque tinha sido mal recebido na terra”, conta Isabel Revez, quadro superior da câmara de Grândola, uma das organizadoras do evento. O autor falou com amigos para participarem, colaborou mas não esteve presente, e pediu, quase como condição, que se falasse de Timor, o que a organização cumpriu, convidando os refugiados timorenses em Portugal.
Apesar de tudo, “fez-se o espetáculo debaixo de alguma tensão”, diz Isabel Revez. As comemorações tinham dois dias, mas não passaram do primeiro, quando Francisco Fanhais se sentiu visado por um funcionário da autarquia, quando ao dedicar uma música a Otelo, preso no âmbito do processo das FP’25, o animador cultural da câmara o tentou apressar ou calar. Caiu mal. Fanhais terá dito que se não o calavam antes do 25 de Abril não seria agora censurado, houve alguma confusão. No dia seguinte a homenagem foi um fiasco, com o cartaz cancelado, de Fausto a José Mário Branco, tudo ausente.
Quando houve uma petição na Assembleia Municipal para reunir fundos e apoiar tratamentos para o cantor no estrangeiro, a proposta não passou, com os votos contra do PCP, recorda Graça Nunes, actual presidente da câmara, do PS.
Quando se organizou o concerto no Coliseu em 1983, o último do cantor, Ivone Chinita, uma grandolense que trabalhava na produtora Era Nova, terá enviado convites para a câmara municipal, que ficaram por usar. Dilar Chinita, irmã de Ivone, já falecida, recorda: “A minha irmã ofereceu um envelope com 40 bilhetes para a câmara organizar um autocarro, mas ninguém foi. Disseram-lhe na câmara que as pessoas não estavam interessadas”.
Mais setarismo.
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25/06/2013
Discover Mozambique and Maputo
O país merecia melhor futuro do que lhe foi imposto pela camarilha guebuzina.
Viva Moçambique!
Viva Moçambique!
22/06/2013
Que Viva Estaline!
"As obras teóricas do grande Estaline são contribuições valiosas.
Por elas estudaram e estudam o marxismo-leninismo milhões de operários em todo o Mundo.
Com elas o Partido Comunista da China e o Partido do Trabalho da Albânia educaram os seus quadros, com elas formaram milhares de bolcheviques na União Soviética. (...)
O camarada Estaline está demasiado vivo nos corações de todos os explorados e oprimidos do mundo inteiro para que oportunista algum o possa fazer esquecer.
A vida, a obra, a atividade do grande Estaline pertencem aos Comunistas de todo o mundo e não apenas aos soviéticos, pertencem à classe operária e não apenas ao povo da URSS.
Na pátria do Socialismo, a União Soviética, o Socialismo vencerá, uma nova revolução surgirá tarde ou cedo. Os autênticos comunistas soviéticos já se organizaram e, juntamente com a classe operária e o povo da URSS, erguerão bem alto a bandeira vermelha de Estaline, instaurando de novo o poder proletário.
Força alguma o poderá evitar.
QUE VIVA ESTALINE!".
Artigo assinado pelo camarada Abel, no "Luta Popular" de Setembro de 1975.
O camarada Abel era, à época, o jovem José Manuel Durão Barroso, militante do MRPP e, agora, Presidente da Comissão Europeia.
Conclusão: Só os Burros é que não mudam!
Por elas estudaram e estudam o marxismo-leninismo milhões de operários em todo o Mundo.
Com elas o Partido Comunista da China e o Partido do Trabalho da Albânia educaram os seus quadros, com elas formaram milhares de bolcheviques na União Soviética. (...)
O camarada Estaline está demasiado vivo nos corações de todos os explorados e oprimidos do mundo inteiro para que oportunista algum o possa fazer esquecer.
A vida, a obra, a atividade do grande Estaline pertencem aos Comunistas de todo o mundo e não apenas aos soviéticos, pertencem à classe operária e não apenas ao povo da URSS.
Na pátria do Socialismo, a União Soviética, o Socialismo vencerá, uma nova revolução surgirá tarde ou cedo. Os autênticos comunistas soviéticos já se organizaram e, juntamente com a classe operária e o povo da URSS, erguerão bem alto a bandeira vermelha de Estaline, instaurando de novo o poder proletário.
Força alguma o poderá evitar.
QUE VIVA ESTALINE!".
Artigo assinado pelo camarada Abel, no "Luta Popular" de Setembro de 1975.
O camarada Abel era, à época, o jovem José Manuel Durão Barroso, militante do MRPP e, agora, Presidente da Comissão Europeia.
Conclusão: Só os Burros é que não mudam!
05/05/2013
25/04/2013
24/04/2013
Richie Havens e "Freedom" no Woodstock 1969
Para a memória de inesquecíveis tempos, em dia de mais uma perda:
23/04/2013
D'ont cry me Argentina
O texto de hoje é da autoria de Andrés Malamud, cientista político e investigador do Instituto de Ciências Sociais. O Andrés era membro do governo da Argentina aquando do colapso de 2001.
A 26 de julho de 2001, pelas 21 horas de Buenos Aires, mandei um email que achei original a um amigo americano. Nele informava-o que o default (calote) da Argentina era inevitável e que apenas faltava saber o quando. Eu começava a ter essa conversa diariamente com os meus colegas de governo, mas eles gozavam comigo. "Por que é que gostas tanto de dizer default?", mimicavam. "É o som da palavra que te excita?", zombavam, acho que com carinho. Ninguém acreditava nessa possibilidade, nem no oficialismo nem na oposição.
A Lei de Convertibilidade, que estabelecia que o governo daria um Dólar a todos os que entregassem um Peso, garantia a poupança dos argentinos e a estabilidade da economia.
A 26 de julho de 2001, eu era assessor de gabinete no Ministério de Justiça e Direitos Humanos e o meu amigo era o politólogo dos EUA que melhor conhecia a Argentina. Por isso, ele era consultado frequentemente pelo Departamento de Estado, e eu suspeitava que também teria feito trabalhos para a CIA. Como analista, entenda-se.
A sua resposta foi imediata e lapidar: "Conta-me algo que eu não saiba". E eu que achava que a minha era insider information!
O resto da história é conhecido. A 1 de dezembro, para deter uma corrida aos bancos que ameaçava todo o sistema financeiro, o governo decretou o corralito (restrição ao levantamento de depósitos). Mas numa economia com um alto grau de informalidade, sem dinheiro vivo não há transações - ou seja, falta comida no lar. Seguiram-se assaltos a supermercados, por vezes organizados e sempre aproveitados por fações opositoras, grupos anárquicos e delinquentes comuns.
A repressão policial alimentou a violência, e a 20 de dezembro o governo demitiu-se entre gases lacrimogéneos e 30 mortos em enfrentamentos de rua. A 23 de dezembro, um governo provisório declarou o default perante uma ovação em pé do parlamento nacional. A 30 de dezembro, o governo provisório demitiu-se perante massivas manifestações populares contra a corrupção sob o lema "que vão todos (os políticos) embora, que não fique nenhum".
Em janeiro de 2002, um mês depois do corralito, um novo governo provisório decretou o fim da convertibilidade: a Argentina saía do dólar. A economia parou literalmente durante dois meses: as pessoas iam ao emprego e ficavam a olhar umas para as outras. No terceiro mês, boa parte delas resolveu o problema ficando sem emprego. A inflação disparou e a Argentina afundou. Um ano e poucos meses mais tarde, o governo voltou a cair por causa de mais duas mortes violentas. Os partidos políticos implodiram e o novo presidente foi eleito com apenas 22% dos votos.
Mas, no terceiro ano, o país saiu do inferno. Durante uma década, a Argentina passou a exportar mais do que importava, a arrecadar mais do que gastava, e passou a ter alguma estabilidade política. Há quem diga que agora os tempos de bonança estão para acabar, mas isso é outra história. A que aqui se contou é a que espera, quiçá, metade da Europa - e não apenas a Portugal.
Meia Europa que continua a achar que pior não é possível e que a austeridade, ou então a resistência à austeridade, pode travar o colapso. Quando disse ao meu amigo americano que o euro não era para durar, ele manteve o discurso de então: "conta-me algo que eu não saiba".
Henrique Raposo
A 26 de julho de 2001, pelas 21 horas de Buenos Aires, mandei um email que achei original a um amigo americano. Nele informava-o que o default (calote) da Argentina era inevitável e que apenas faltava saber o quando. Eu começava a ter essa conversa diariamente com os meus colegas de governo, mas eles gozavam comigo. "Por que é que gostas tanto de dizer default?", mimicavam. "É o som da palavra que te excita?", zombavam, acho que com carinho. Ninguém acreditava nessa possibilidade, nem no oficialismo nem na oposição.
A Lei de Convertibilidade, que estabelecia que o governo daria um Dólar a todos os que entregassem um Peso, garantia a poupança dos argentinos e a estabilidade da economia.
A 26 de julho de 2001, eu era assessor de gabinete no Ministério de Justiça e Direitos Humanos e o meu amigo era o politólogo dos EUA que melhor conhecia a Argentina. Por isso, ele era consultado frequentemente pelo Departamento de Estado, e eu suspeitava que também teria feito trabalhos para a CIA. Como analista, entenda-se.
A sua resposta foi imediata e lapidar: "Conta-me algo que eu não saiba". E eu que achava que a minha era insider information!
O resto da história é conhecido. A 1 de dezembro, para deter uma corrida aos bancos que ameaçava todo o sistema financeiro, o governo decretou o corralito (restrição ao levantamento de depósitos). Mas numa economia com um alto grau de informalidade, sem dinheiro vivo não há transações - ou seja, falta comida no lar. Seguiram-se assaltos a supermercados, por vezes organizados e sempre aproveitados por fações opositoras, grupos anárquicos e delinquentes comuns.
A repressão policial alimentou a violência, e a 20 de dezembro o governo demitiu-se entre gases lacrimogéneos e 30 mortos em enfrentamentos de rua. A 23 de dezembro, um governo provisório declarou o default perante uma ovação em pé do parlamento nacional. A 30 de dezembro, o governo provisório demitiu-se perante massivas manifestações populares contra a corrupção sob o lema "que vão todos (os políticos) embora, que não fique nenhum".
Em janeiro de 2002, um mês depois do corralito, um novo governo provisório decretou o fim da convertibilidade: a Argentina saía do dólar. A economia parou literalmente durante dois meses: as pessoas iam ao emprego e ficavam a olhar umas para as outras. No terceiro mês, boa parte delas resolveu o problema ficando sem emprego. A inflação disparou e a Argentina afundou. Um ano e poucos meses mais tarde, o governo voltou a cair por causa de mais duas mortes violentas. Os partidos políticos implodiram e o novo presidente foi eleito com apenas 22% dos votos.
Mas, no terceiro ano, o país saiu do inferno. Durante uma década, a Argentina passou a exportar mais do que importava, a arrecadar mais do que gastava, e passou a ter alguma estabilidade política. Há quem diga que agora os tempos de bonança estão para acabar, mas isso é outra história. A que aqui se contou é a que espera, quiçá, metade da Europa - e não apenas a Portugal.
Meia Europa que continua a achar que pior não é possível e que a austeridade, ou então a resistência à austeridade, pode travar o colapso. Quando disse ao meu amigo americano que o euro não era para durar, ele manteve o discurso de então: "conta-me algo que eu não saiba".
Henrique Raposo
09/04/2013
11/03/2013
28/01/2013
14/12/2012
01/12/2012
09/11/2012
07/11/2012
Desvio de direita
Aqui começou o fim da União Soviética com o olhar guloso de Leonid Brezhnev.
Poucos anos depois, a Revolução de Outubro - que aconteceu em Novembro - chegava ao fim, colapsando o Sol na Terra...
Poucos anos depois, a Revolução de Outubro - que aconteceu em Novembro - chegava ao fim, colapsando o Sol na Terra...
29/10/2012
Quando China mandar no Mundo
A aclamada obra de Martin Jacques foi agora editado em Portugal pelas mãos do «Círculo de Leitores/Bertrand». A obra original é de 2009
Trata-se de uma obra conhecedora e analítica do Oriente em que se antecipa a decadência do Ocidente e a ascenção da China.
"Em breve, a China mandará no mundo. Mas, ao fazê-lo, não se tornará mais
«ocidental». Neste seu aclamado livro, já traduzido em 11 línguas, Martin
Jacques rejeita o pensamento convencional acerca da ascensão da China, mostrando
que o seu impacte não será apenas económico, mas também cultural. À medida que a
poderosa civilização da China se for reafirmando, assinalará o fim do domínio
global do estado-nação ocidental e um futuro de «modernidade contestada»."
Quem sabe, antecipa o futuros. Por isso, é absolutamente indispensável ler!
Quem sabe, antecipa o futuros. Por isso, é absolutamente indispensável ler!
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