03/07/2010

Companheiros de cama

A recente acusação, por parte do Governo dos Estados Unidos, de que o cidadão nacional Momade Bachir é um importante traficante internacional de droga, é uma coisa grave.

E não é apenas grave para o diretamente visado. É, talvez, mais grave ainda para quem com ele tem vindo a manter um relacionamento abertamente amistoso e de aproveitamento da sua aparente generosidade.

Estou a falar, é claro, do Partido Frelimo.

Porque não é segredo para ninguém, pelo contrário tem sido amplamente divulgado, que Momade Bachir tem financiado muito generosamente as campanhas eleitorais do Partido Frelimo. O que quer dizer que, se forem verdadeiras as acusações americanas contra ele, isso significa que as vitórias eleitorais do Partido Frelimo têm sido significativamente financiadas com dinheiro proveniente do tráfico de droga.

O que é uma enorme vergonha para aquele Partido, para o Governo que saiu das eleições e, verdade seja dita, para todo o povo moçambicano.

Todos nós somos sujos por uma tal acusação.

Mas há que começar a ver a situação pelo princípio.

Não é de agora que o Partido Frelimo partilha a cama com o crime organizado.

Foi conhecida a foto em que o anterior Presidente Joaquim Chissano aparecia, lado a lado com Nini Satar, segurando um tapete de luxo, oferecido por Nini para ser leiloado a favor do Partido Frelimo. Nini Satar que está, desde há uns anos, na BO como um dos assassinos do jornalista Carlos Cardoso.

Outra foto, que deu que falar, mostra o mesmo Joaquim Chissano, de boquinha aberta, a receber uma colherada de bolo que lhe é dada por quem? Pois, pelo próprio Momade Bachir.

Momade Bachir que, sempre que há um pedido de financiamento eleitoral do seu Partido, se desfaz de quantias enormes em troca de cachimbos e canetas de Armando Guebuza que, depois, devolve à esposa do mesmo dirigente.

E Armando Guebuza tem retribuído estas atenções. Não foi uma nem duas vezes que visitou o Maputo Shoping Center até à sua inauguração. Aceitou, mesmo, que o seu nome fosse dado a uma praceta no interior das instalações daquela unidade comercial.

Podem-me dizer que tudo isso foi feito na mais completa inocência, na total ignorância da origem do dinheiro tão generosamente entregue por Bachir à máquina partidária.

Pode ser e eu, sem provas, recuso-me a afirmar o contrário.

Não posso, no entanto, deixar de notar a coincidência de tudo isto se passar ao mesmo tempo que nenhum, nem um só, traficante de droga foi punido em Moçambique de há muitos anos a esta parte. Foram encontradas quantidades enormes de droga (só de uma vez foram 40 toneladas!!!) mas nunca se soube quem era o dono. Houve assassinatos em série, num caso até mesmo o massacre de uma família inteira, em que o ar à volta dos casos cheirava a droga por todos os lados. Só que ninguém foi sequer acusado desses crimes, quanto mais levado a tribunal e condenado.

Disse-me, há dias, um passarinho que pousou no meu ombro, que há mais de dez
anos o Banco de Moçambique tem, na Procuradoria Geral da República, uma queixa contra Momade Bachir por lavagem de dinheiro ilegal. É verdade que nem sempre se pode confiar nos passarinhos que nos pousam no ombro mas será isso verdade? E, se for, porque será, que os sucessivos Procuradores não deram andamento a tal queixa?


Os meus colegas Nachote e Hanlon publicaram, já há alguns anos, interessantes trabalhos sobre este tema. Que sequência tiveram junto das autoridades? Perante o escândalo, agora, Marcelo Mosse e Paul Fauvet voltaram ao tema com destaque.

Resultados?

Pondo sempre no condicional o saber-se se estas acusações são verdadeiras ou não, eu pergunto: Nesta altura do campeonato, entre os barões da droga e o Governo do país, quem são os patrões e quem são os empregados?

E não sejamos ingénuos a pensar que o caso se resume a Momade Bachir. Há muito mais quem se mova como motor alimentado a pó, fumos, comprimidos ou líquido para seringas. Um olhar atento às movimentações de propriedade na área da indústria hoteleira poderia dar resultados interessantes. A recente explosão de uma motorizada em Maputo também pode estar ligada ao tema.

Mas uma coisa me incomoda, Será que no interior do Partido Frelimo não há quem tenha nojo disto tudo? Onde estão aqueles dirigentes respeitados por todos, quando estas coisas acontecem? Ficam mudos? Falta-lhes a voz?

Será que o preço de quebrarem a unidade dentro da sua Organização (ou será seita?) é menos grave do que o preço de verem os seus filhos e netos nas garras da droga?

E os partidos da oposição? Ainda não se deram conta do que se está a passar?
Por vezes me pergunto para que serve termos uma oposição...

Pelo menos os membros da Comunidade Maometana obrigaram Momade Bachir a demitir-se da sua presidência. Demitiu-se ele e o vice-presidente, por sinal o seu próprio filho...

Gostava que a resposta a todas estas questões não fosse o silêncio, pesado e opressor, que tem sido até agora.

Machado da Graça
in «Savana», 18.06.2010