27/05/2013

A dita-dura

Jorge Arroz foi detido acusado sedição; Movimento de profissionais de saúde e populares forçou a sua libertação
Escrito por Adérito Caldeira
Segunda, 27 Maio 2013
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O Presidente da Associação Médica de Moçambique (AMM), Dr. Jorge Arroz, foi detido cerca das 18h40 deste Domingo (26), nas instalações da AMM, na cidade de Maputo, e conduzido à 6ª Esquadra da Polícia da República de Moçambique (PRM) onde esteve preso durante cerca de quatro horas acusado de sedição. Os profissionais de saúde que estão em greve há sete dias, exigindo um aumento salarial de 100 por cento e a aprovação do Estatuto Médico pela Assembleia da República, reuniram-se no exterior da esquadra e só saíram de lá quando o seu líder foi restituído à liberdade.
 
"O Dr. Jorge Arroz acaba de ser detido na AMM" reportou-nos um cidadão às 18h46 deste Domingo. A nossa equipa de reportagem dirigiu-se à 6ª esquadra, para onde o Dr. Jorge Arroz havia sido levado e presenciamos o oficial de permanência a explicar as razões da sua detenção na sequência de um mandato emitido pela Polícia de Investigação Criminal sob a acusação de estar a delinear um plano para encerrar todas Unidades Sanitária de Moçambique nesta Segunda-feira (27) no seguimento da greve que ele, e outros profissionais de saúde observam desde a passada Segunda-feira (20).
 
Entretanto a notícia da detenção correu pelas redes sociais, particularmente pelo facebook, e vários cidadãos começaram a acorrer à esquadra situada na praça 20 de Setembro.
Arroz que estava acompanhado pelo seu advogado viu em pouco tempo chegar o Bastonário da Ordem dos Advogados de Moçambique, Tomás Timbane, que após inteirar-se da acusação começou a tentar contactar a procuradoria da cidade por forma a encontrar um procurador que analisasse a detenção, claramente ilegal.
Poucos minutos após as 20 horas Jorge Arroz foi encaminhado para uma cela da 6ª esquadra.
 

 
Ao pequeno grupo de profissionais de saúde juntaram-se outras centenas de colegas e cidadão anónimos que não quiseram deixar acontecer mais uma ilegalidade da PRM. Temos também relatos que à essa altura os profissionais de saúde que estavam em serviço Hospital Central de Maputo pararam as suas actividades e começam a ponderar juntarem-se ao movimento de cidadãos que exigia a libertação do líder dos Médicos.
 
Cerca das 21 horas, enquanto no exterior se gritava " não saímos daqui sem o Arroz" tudo se encaminhava para que o Presidente da AMM passasse a noite na cela. Uma jovem trouxe água, snacks e uma capulana que foram entregues a Polícia para que fizesse chegar ao detido.
Por essa altura o efectivo policial na esquadra havia sido triplicado, com a presença de vários agentes à paisana, ao que tudo indica da PIC.
 
Alice Mabote, Presidente da Liga Moçambicana dos Direitos Humanos, cuja instituição está a prestar apoio jurídico aos médicos em greve desde a primeira greve, chegou. Abriu caminho entre a multidão, polícias e medias que lotavam o interior da esquadra e dirigiu-se ao oficial primeiro para saber a situação e exigiu falar com o Comandante ao mesmo tempo que de telemóvel em punho contactava fazia contactos para a libertação de Arroz.
Às 21h30 a Procuradoria já havia sido contactada e estava a analisar o processo de detenção do Dr. Jorge Arroz.
 
Mas a tensão continuava com o trânsito quase condicionado na rotunda existente no cruzamento das avenidas Marien Ngouabi e Guerra Popular. Vários automóveis que passavam manifestavam a sua solidariedade reduzindo a marcha e buzinando. A tensão aumentou um pouco mais quando a polícia tentou empurrar à força, para o exterior da esquadra, os membros da imprensa, médicos e cidadãos que estavam a prestar a sua solidariedade e fechou a porta de acesso principal à 6ª esquadra.
 
21h58 foi ordenada soltura de Jorge Arroz, afirmou o Bastonário da Ordem do Advogados, que inclusive usou a rede social facebook para divulgar a boa notícia.
 
Alice Mabote e o Advogado Carlos Jeque pediram a todos que se encontravam no interior da esquadra para se retirarem, num gesto de algum respeito pela polícia para que o detido pudesse ser libertado.
 
Mas os ânimos não acalmaram, o povo que se unira defronte da 6ª esquadra queria ver o Dr. Jorge Arroz sair pela porta da frente. Porém a PRM não deixou.
 
Poucos minutos antes das 23 horas Jorge Arroz foi retirado por umas das portas laterais da esquadra e conduzido até a Associação Médica de Moçambique.
 
Ainda na noite deste Domingo o chefe das Operações do Comando Geral da Polícia, António Pelembe, falou à imprensa sobre as motivações da detenção do Presidente da AMM.
Pelembe disse que Arroz não foi detido, mas sim notificado para prestar declarações. “A polícia encontrou Jorge Arroz em flagrante delito, reunido na associação médica de Moçambique a delinear um plano estratégico de como levar avante a greve no dia de amanhã (hoje). Tal plano visava o encerramento de todas as unidades sanitárias de modo a impedir os que por consciência prestam serviços mínimos aos doentes, e a evacuação de todos os doentes para fora dos hospitais”.
 
Esta Segunda-feira está agendado um encontro de todos profissionais de saúde moçambicanos, no cine teatro Gilberto Mendes, na baixa da capital moçambicana, para darem continuidade a luta por melhores condições de vida.
 
Contrariamente as informações do Ministério da Saúde que tudo está calmo nas Unidades Sanitárias vive-se um ambiente de caos nos Hospitais e continuam a existir Centros de Saúde que não estão a atender aos doentes.
 
A falta de fundamento da detenção
O antigo Juiz-Conselheiro do Tribunal Supremo, João Carlos Trindade, numa acto de cidadania partilhou gentilmente o enquadramento jurídico sobre o crime de sedição que, alegadamente, teria fundamentado a detenção do Presidente da Associação Médica de Moçambique, Dr. Jorge Arroz.
 
Segundo Trindade convém prestar atenção ao que dispõe o artigo 179 do Código Penal em vigor: "Aqueles que, sem atentarem contra a segurança interior do Estado, se ajuntarem em motim ou tumulto, ou com arruído, empregando violências, ameaças ou injúrias, ou tentando invadir qualquer edifício público, ou a casa de residência de algum funcionário público:
 
1º, para impedir a execução de alguma lei, decreto, regulamento ou ordem legítima da autoridade;
 
2º, para constranger, impedir ou perturbar no exercício das suas funções alguma corporação que exerça autoridade pública, magistrado, agente da autoridade ou funcionário público;
 
3º, para se eximirem ao cumprimento de alguma obrigação;
 
4º, para exercer algum acto de ódio, vingança ou desprezo contra qualquer funcionário, ou membro do Poder Legislativo, serão condenados a prisão até um ano, se a sedição não for armada.
 
1º - Se a sedição for armada, aplicar-se-á a pena de prisão.
2º - Se não tiver havido violências, ameaças ou injúrias, nem tentativa de invasão dos edifícios públicos ou da casa de residência de algum funcionário público, a prisão não excederá a seis meses na hipótese do artigo e a um ano na do parágrafo antecedente. ".
 
Segundo este João Carlos Trindade, da simples leitura do dispositivo legal extraem-se facilmente as seguintes conclusões: Em termos substantivos:
- A reunião dos representantes de uma classe profissional, numa sala da sede da sua organização e no exercício do direito constitucional à greve, não se pode confundir com motim ou tumulto. Além disso, para que se verificasse o crime, seria necessário reunir indícios suficientes de que os actos praticados (o ajuntamento em tumulto ou motim…) se destinavam a qualquer dos fins indicados no preceito incriminador:
1 – impedir a execução de alguma lei, decreto, regulamento ou ordem legítima da autoridade;
2 – constranger, impedir ou perturbar no exercício das suas funções alguma corporação que exerça autoridade pública, magistrado, agente da autoridade ou funcionário público;
3 – eximir-se ao cumprimento de alguma obrigação; ou
4 – exercer algum acto de ódio, vingança ou desprezo contra qualquer funcionário ou membro do Poder Legislativo.
 
Ora, não se afigura, de todo, que tenha sido possível alcançar tais indícios.
 
Em termos processuais:
- O crime de sedição, tal como tipificado no Código Penal, é um crime de execução colectiva, pelo que não se compreende que só o Dr. Arroz tenha sido detido, invocando-se flagrante delito. Todas as pessoas que estavam reunidas com ele no momento da detenção deveriam ter sido igualmente conduzidas à esquadra para responderem pela mesma imputação;
- Se a detenção se deu “em flagrante delito”, como revelou o porta-voz da Polícia, como se compreende que tenha sido emitido um mandado de captura prévio? Nesse caso, seria dispensado o mandado, pois, “em flagrante delito a que corresponda pena de prisão todas as autoridades ou agentes da autoridade devem, e qualquer pessoa do povo pode, prender os infractores” (artigo 287º do CPP);
- Ainda que se admita a remota possibilidade de terem existido indícios suficientes e de a reunião dos grevistas poder ser qualificada de tumulto ou motim, sempre seria irregular a captura, se o respectivo mandado não respeitasse (como parece ter sucedido, pelos relatos da comunicação social) os requisitos formais do artigo 295º do Código de Processo Penal (CPP) vigente, maxime, do seu nº 2 (“a indicação do facto que motivar a prisão, ou desse facto e das circunstâncias que, nos termos do artigo 291º, justificam a captura”). Neste caso, ter-se-ia, inclusivamente, violado o disposto no nº 3 do artigo 64 da Constituição;
 
- Tendo em conta que ao crime caberia, na pior das hipóteses, a pena de prisão até um ano, tudo o que a Polícia poderia, legalmente, ter feito após a condução do “arguido” à Esquadra era notificá-lo para se apresentar no tribunal competente no dia seguinte, para eventual julgamento em processo sumário, e não conduzi-lo para uma cela, pois nos crimes punidos com pena de prisão não superior a um ano não é permitida a prisão preventiva (artigo 286º do CPP).
 
Em resumo, mais uma vez a Polícia revelou ineptidão e falta de competência no cumprimento das normas processuais, sendo legítimo pressupor que os reais motivos da detenção tenham sido outros, que não aqueles que, de forma atabalhoada, foram tornados públicos.
 

25/05/2013

Ciência africana










 

24/05/2013

Palhaço de serviço!

Quando se cospe no próprio prato de sopa apenas para dar publicidade a um livro: das duas três - ou seu tem falta de chá ou se excedeu na quantidade de copos!

20/05/2013

Quando os mandarem para PQP, é aqui..

Puta Que Pariu
 

18/05/2013

Big Brother

A propósito de medição de audiência televisivas, está tudo dito e escrito!



 

13/05/2013

O futuro está na pesca


 

09/05/2013

Göttingen Barbara

A União Europeia é uma fabulosa construção Humana, uma conquista da Liberdade e da Paz.

É por isso que é preciso tudo fazer para continuar e aprofundar o Projeto Europeu.

E recordar Göttingen docemente cantado por Barbara Brodi:



05/05/2013

200 países, 200 anos, 4 minutos


04/05/2013

Chinesas

As chinesas querem o corpo da mulher ocidental


No meu segundo bairro, o predomínio da cultura africana era tal que muitas miúdas queriam ser negras. Estas mulatas honorárias acabavam por cobrir a pele com cremes escuros a fim de parecem mulatas efectivas.

Mal eu sabia que este fenómeno de aculturação viria a ter uma dimensão à Cecil B. DeMille: as mulheres chinesas querem uma aparência ocidentalizada. Mas, ao invés das mulatas wannabe, as chinesas não se ficam pelos cremes. Recorrem mesmo à cirurgia plástica. Resultado? Está em curso uma operação plástica colectiva lá pelas bandas de Xangai e Pequim.


Para começar, as chinesas querem ser mais altas, querem as pernas da Elle MacPherson.
Submetem-se, portanto, a uma dolorosa cirurgia que aumenta o comprimento dos ossos (fraturas propositadas?). De igual modo, também querem um nariz mais empinado, e esta operação à cana do nariz é uma das mais requisitadas. Mas nada bate o sucesso da operação que arredonda os olhos.

Até meninas de 12 anos fazem esta cirurgia que dá um ar menos oriental às pálpebras. Porquê? Porque as mães querem que as filhas sejam mais bonitas e, ora essa, a beleza está associada a traços ocidentais.

Este tema pode parecer brincadeira, pode parecer um daqueles episódios do fecho do telejornal, mas não é. Em primeiro lugar, esta ocidentalização revela uma brecha no sinocentrismo e até no racismo da etnia Han. Em segundo lugar, esta metamorfose em curso indica que o velho Ocidente ainda tem trunfos na manga. 

Sim, estamos a perder algum poder material, mas continuamos a dominar o lado qualitativo da vidinha. As chinesas querem vestir as marcas ocidentais, querem andar nos carros ocidentais, querem ter um estilo de vida ocidental. 

Sim, ainda temos o poder para decidir o que é cool e, neste sentido, continuamos no topo da economia. Como se isto não fosse suficiente, as mulheres chineses querem ter as curvas das mulheres ocidentais. Isto não é só poder, já é bipoder. E este ponto leva-nos ainda a uma pergunta sem resposta: a China não aceita que o Ocidente defina o Bem, mas aceita que os ocidentais definam o Belo. Porquê?





Henrique Raposo
in "Expresso", 19.04.2013



03/05/2013

Mary Hopkin

Porque hoje ela faz anos! Música boa.

30/04/2013

Político!

29/04/2013

A idosa

Uma velhinha, ao atravessar a rua, caiu de rabo no chão.

José Sócrates viu e apressou-se a ajudar a levantar a velhota e ajudou-a também a atravessar a rua.

Uma vez do outro lado, ele pergunta:
- Então, reconhece-me? Sou o ex-primeiro-ministro e espero que em próximas eleições, a senhora vote em mim!

Diz a idosa, com um sorriso matreiro:
- Sabe, senhor inginheiro, eu bati com o cu no chão; não foi com a cabeça !!!...

25/04/2013

O dia de todos os desejos

24/04/2013

Alá farta-se um dia destes

No reino da estupidez, a Síria de hoje, ditador de um lado, opositores tresloucados, não respeitam templos, hospitais, escolas e população civil.

Na cidade mártir de Aleppo, o minarete da mesquita é derrubado à bomba na troca de tiros entre inimigos. Enquanto berram como porcos, mostram como se faz de uma mesquita um quartel...

Alá é grande mas, um dia destes, farta-se de tanta estupidez!
حلب تدمير مئذنة الجامع الاموي الكبير

Richie Havens e "Freedom" no Woodstock 1969

Para a memória de inesquecíveis tempos, em dia de mais uma perda:

23/04/2013

D'ont cry me Argentina

O texto de hoje é da autoria de Andrés Malamud, cientista político e investigador do Instituto de Ciências Sociais. O Andrés era membro do governo da Argentina aquando do colapso de 2001.

A 26 de julho de 2001, pelas 21 horas de Buenos Aires, mandei um email que achei original a um amigo americano. Nele informava-o que o default (calote) da Argentina era inevitável e que apenas faltava saber o quando. Eu começava a ter essa conversa diariamente com os meus colegas de governo, mas eles gozavam comigo. "Por que é que gostas tanto de dizer default?", mimicavam. "É o som da palavra que te excita?", zombavam, acho que com carinho. Ninguém acreditava nessa possibilidade, nem no oficialismo nem na oposição.


A Lei de Convertibilidade, que estabelecia que o governo daria um Dólar a todos os que entregassem um Peso, garantia a poupança dos argentinos e a estabilidade da economia.


A 26 de julho de 2001, eu era assessor de gabinete no Ministério de Justiça e Direitos Humanos e o meu amigo era o politólogo dos EUA que melhor conhecia a Argentina. Por isso, ele era consultado frequentemente pelo Departamento de Estado, e eu suspeitava que também teria feito trabalhos para a CIA. Como analista, entenda-se.


A sua resposta foi imediata e lapidar: "Conta-me algo que eu não saiba". E eu que achava que a minha era insider information!


O resto da história é conhecido. A 1 de dezembro, para deter uma corrida aos bancos que ameaçava todo o sistema financeiro, o governo decretou o corralito (restrição ao levantamento de depósitos). Mas numa economia com um alto grau de informalidade, sem dinheiro vivo não há transações - ou seja, falta comida no lar. Seguiram-se assaltos a supermercados, por vezes organizados e sempre aproveitados por fações opositoras, grupos anárquicos e delinquentes comuns.


A repressão policial alimentou a violência, e a 20 de dezembro o governo demitiu-se entre gases lacrimogéneos e 30 mortos em enfrentamentos de rua. A 23 de dezembro, um governo provisório declarou o default perante uma ovação em pé do parlamento nacional. A 30 de dezembro, o governo provisório demitiu-se perante massivas manifestações populares contra a corrupção sob o lema "que vão todos (os políticos) embora, que não fique nenhum".


Em janeiro de 2002, um mês depois do corralito, um novo governo provisório decretou o fim da convertibilidade: a Argentina saía do dólar. A economia parou literalmente durante dois meses: as pessoas iam ao emprego e ficavam a olhar umas para as outras. No terceiro mês, boa parte delas resolveu o problema ficando sem emprego. A inflação disparou e a Argentina afundou. Um ano e poucos meses mais tarde, o governo voltou a cair por causa de mais duas mortes violentas. Os partidos políticos implodiram e o novo presidente foi eleito com apenas 22% dos votos.

Mas, no terceiro ano, o país saiu do inferno. Durante uma década, a Argentina passou a exportar mais do que importava, a arrecadar mais do que gastava, e passou a ter alguma estabilidade política. Há quem diga que agora os tempos de bonança estão para acabar, mas isso é outra história. A que aqui se contou é a que espera, quiçá, metade da Europa - e não apenas a Portugal.

Meia Europa que continua a achar que pior não é possível e que a austeridade, ou então a resistência à austeridade, pode travar o colapso. Quando disse ao meu amigo americano que o euro não era para durar, ele manteve o discurso de então: "conta-me algo que eu não saiba".

Henrique Raposo
in "Expresso", 23.04.2013


















22/04/2013

Lado B

Um pequeno single em cujo lado B havia esta preciosidade (Françoise Hardy "J'ai coupé le telephone"):


19/04/2013

Cobrança da dívida

Esquadra da Marinha chinesa chega a Lisboa!


Em declarações à RTP, o embaixador chinês em Portugal disse acreditar numa solução pacífica para o problema. A afirmação coincidiu com a chegada a Lisboa de uma esquadra da marinha chinesa!



09/04/2013

Vendedor de Banha da Cobra

Vidas paralelas

Na semana passada, celebrámos o retorno de um homem que tínhamos como morto.

Alguém que foi alvo de grandes injustiças, que se sacrificou por nós e que depois voltou em toda a sua glória. Mas não foi só o regresso de José Sócrates que se festejou. Também se comemorou a Páscoa e a ressurreição de Jesus Cristo.

São duas figuras impressionantes. Uma apresentou-se ao povo como o seu salvador, capaz dos mais incríveis milagres. Mas, à sua maneira, Jesus também era especial.

Subsistem dúvidas sobre o que se passou realmente com Jesus, uma vez que os únicos relatos foram redigidos muitos anos depois da sua morte, por pessoas que, algumas delas, nem o tinham conhecido. E subsistem ainda mais dúvidas sobre o que se passou realmente com Sócrates, uma vez que os únicos relatos são os do próprio.

Enfim, podia continuar aqui a usar este artifício estilístico para ampliar a grandeza de Sócrates, estabelecendo paralelismos entre Sócrates e Cristo ao referir características divinas do messias e equiparando-as às características de Jesus. (Cá está outro. Peço desculpa.) Mas o resto é incomparável. Afinal, só ao fim de mais de um século é que Jesus teve uma verdadeira religião em seu nome, enquanto José Sócrates teve-a ao fim de uma semana.

Percebe-se porquê. É uma questão de infra-estruturas. Para crescer, o cristianismo teve de esperar que Saulo de Tarso caísse na Estrada de Damasco e se convertesse. Ora, a religião de Sócrates não está dependente de uma só estrada para converter discípulos. Há, espalhadas por Portugal, várias estradas onde podemos ter a real noção do poder de Sócrates. A minha predilecta é a A17, entre Aveiro e Leiria. Enquanto toda a gente usa a A1, estou isolado do resto do mundo. São 150 km de solitude onde qualquer pessoa facilmente se converte a José Sócrates. Como essa, há várias estradas vazias, ideais para a instrospecção. É só escolher.
De uma maneira ou de outra, Sócrates tocou-nos a todos. A uns tocou no coração. A outros tocou no sítio do coração, mas por cima da roupa. Foi um daqueles toques mais ao estilo dos apalpões que os seguranças do aeroporto usam, de quem revista o bolso do casaco à procura da carteira. Mas qualquer português tem um episódio de Sócrates que o tenha marcado mais.

O meu é a parábola de Chico Buarque. Naquele tempo, Sócrates estava em visita oficial ao Brasil. Revelou que Chico Buarque queria muito conhecê-lo e tinha-o convidado para tomar um cafezinho. Os jornais apressaram-se a transmitir esta boa nova que muito prestigiava o país. Se um cançonetista brasileiro queria conhecer o nosso primeiro-ministro, o futuro de Portugal só podia ser radioso. Em breve, haveria um artista plástico zairense a desejar travar conhecimento com Sócrates. Ou um encenador turco. Um bailarino indonésio, porque não? As possibilidades eram imensas.

Infelizmente, Chico Buarque veio desmentir esta linda história: afinal, José Sócrates é que se tinha feito convidado para sua casa. Só que tinha dito aos jornalistas o contrário.

Por isso, quando Sócrates fez questão de dizer que a RTP é que o tinha convidado, recordei esse episódio com ternura. O meu Sócrates continua igual.

José Diogo Quintela
in «Público», 07-04-2013

Bagdad 2003

Há dez anos acabava uma terrível ditadura....