23/03/2012

Nini

Chamava-se Nini
Vestia de organdi
E dançava (dançava)
Dançava só pra mim
Uma dança sem fim
E eu olhava (olhava)

E desde então se lembro o seu olhar
É só pra recordar
Que lá no baile não havia outro igual
E eu ia para o bar
Beber e suspirar
Pensar que tanto amor ainda acabava mal

Batia o coração mais forte que a canção
E eu dançava (dançava)
Sentia uma aflição
Dizer que sim, que não
E eu dançava (dançava)

E desde então se lembro o seu olhar
É só pra recordar
Os quinze anos e o meu primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Toda a ternura que tem o primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Que a vida passa
Mas um homem se recorda sempre assim
Nini dançava só pra mim

E desde então se lembro o seu olhar
É só pra recordar
Os quinze anos e o meu primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Toda a ternura que tem o primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Que a vida passa
Mas um homem se recorda, é sempre assim
Nini dançava só pra mim
Nini dos Meus 15 anos

Paulo Carvalho

Aí Benjamim!


Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu... (ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário
Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
Viriato Cruz

15/03/2012

A bolha chinesa

12/03/2012

17 anos,17 imitações

11/03/2012

Em honra dos socretinos

Agora que Cavaco Silva explicou as golpadas finais do antigo inquilino de S. Bento, importa enviar recomendações à pandilha orientada de Paris:


10/03/2012

Xegaremux a exta perfaisaum?


Maria Clara Assunção,
14 Agosto 2009

O acordo ortográfico e o futuro da língua portuguesa

Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam. Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros.

Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas.
É um fato que não se pronunciam. Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se? O que estão lá a fazer? Aliás, o qe estão lá a fazer? Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade.

Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra.
Porqe é qe “assunção” se escreve com “ç” e “ascensão” se escreve com “s”?
Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuír um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome. Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o “ç”.
Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o “ç” e o substitua por um simples “s” o qual passaria a ter um único som.

Como consequência, também os “ss” deixariam de ser nesesários já qe um “s” se pasará a ler sempre e apenas “s”.

Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, “uzar”, é isso mesmo, se o “s” pasar a ter sempre o som de “s” o som “z” pasará a ser sempre reprezentado por um “z”.
Simples não é? se o som é “s”, escreve-se sempre com s. Se o som é “z” escreve-se sempre com “z”.

Quanto ao “c” (que se diz “cê” mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de “q”) pode, com vantagem, ser substituído pelo “q”. Sou patriota e defendo a língua portugueza, não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nada de “k”.

Não pensem qe me esqesi do som “ch”.
O som “ch” pasa a ser reprezentado pela letra “x”. Alguém dix “csix” para dezinar o “x”? Ninguém, pois não? O “x” xama-se “xis”. Poix é iso mexmo qe fiqa.

Qomo podem ver, já eliminámox o “c”, o “h”, o “p” e o “u” inúteix, a tripla leitura da letra “s” e também a tripla leitura da letra “x”.

Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex. Não, não leiam “simpléqs”, leiam simplex. O som “qs” pasa a ser exqrito “qs” u qe é muito maix qonforme à leitura natural.

No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente.

Vejamox o qaso do som “j”. Umax vezex excrevemox exte som qom “j” outrax vezex qom “g”. Para qê qomplicar?!?
Se uzarmox sempre o “j” para o som “j” não presizamox do “u” a segir à letra “g” poix exta terá, sempre, o som “g” e nunqa o som “j”. Serto? Maix uma letra muda qe eliminamox.

É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem! Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex? Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade?

Outro problema é o dox asentox. Ox asentox só qompliqam!
Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox.

A qextão a qoloqar é: á alternativa? Se não ouver alternativa, pasiênsia.

É o qazo da letra “a”. Umax vezex lê-se “á”, aberto, outrax vezex lê-se “â”, fexado. Nada a fazer.

Max, em outrox qazos, á alternativax.
Vejamox o “o”: umax vezex lê-se “ó”, outrax vezex lê-se “u” e outrax, ainda, lê-se “ô”. Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso! Para qe é qe temux o “u”? Para u uzar, não? Se u som “u” pasar a ser sempre reprezentado pela letra “u” fiqa tudo tão maix fásil! Pur seu lado, u “o” pasa a suar sempre “ó”, tornandu até dexnesesáriu u asentu.

Já nu qazu da letra “e”, também pudemux fazer alguma qoiza: quandu soa “é”, abertu, pudemux usar u “e”. U mexmu para u som “ê”. Max quandu u “e” se lê “i”, deverá ser subxtituídu pelu “i”. I naqelex qazux em qe u “e” se lê “â” deve ser subxtituidu pelu “a”.
Sempre. Simplex i sem qompliqasõex.

Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u “til” subxtituindu, nus ditongux, “ão” pur “aum”, “ães” – ou melhor “ãix” - pur “ainx” i “õix” pur “oinx”.
Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux.

Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu.

Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum?




07/03/2012

O pintinho piu

27/02/2012

Grécia: as consequências da crise

A. Zeus vende o trono para uma multinacional coreana.


B. Aquiles vai tratar o calcanhar na saúde pública.

C. Eros e Pan inauguram prostíbulo.

D. Hércules suspende os 12 trabalhos por falta de pagamento.

E. Narciso vende espelhos para pagar a dívida do cheque especial.

F. O Minotauro puxa carroça para ganhar a vida.

G. Acrópole é vendida e aí é inaugurada uma Igreja Universal do Reino de Zeus.

H. Eurozona rejeita Medusa como negociadora grega: "Ela tem minhocas na cabeça".

I. Sócrates inaugura Cicuta's Bar para ganhar uns trocados.

J. Dionisio vende vinhos à beira da estrada de Marathónas.

K. Hermes entrega currículo para trabalhar nos correios. Especialidade: entrega rápida.

L. Afrodite aceita posar para a Playboy.

M. Sem dinheiro para pagar os salários, Zeus libera as ninfas para trabalharem na Eurozona.

N. Ilha de Lesbos abre resort hétero.

O. Para economizar energia, Diógenes apaga a lanterna.

P. Oráculo de Delfos vaza números do orçamento e provoca pânico nas Bolsas.

Q. Áries, deus da guerra, é pego em flagrante desviando armamento para a guerrilha síria.

R. A caverna de Platão abriga milhares de sem-teto.

S. Descoberto o porquê da crise: os economistas estão falando grego!

25/02/2012

100 anos de moda em 100 segundos

24/02/2012

Adios Nonino. Piazzolla

Esse vídeo é realmente fantástico, um tango maravilhoso tocado por Carel Kraayenhof, e quando a orquestra e o coral entram então é de arrepiar. O casamento é de um príncipe holandês e uma argentina e ela vai às lágrimas com a homenagem à música típica da sua pátria.
A música, Adios Nonino, do mestre Astor Piazolla e Bob Zimmerman. O solista é o alemão Carel Kraayenhof.

Antes uma pequena historinha:

"Em 1959, na República Dominicana, e quando faltavam minutos para começar seu recital, Piazzola ficou sabendo que na Argentina distante seu pai havia morrido. Subiu ao palco em silêncio, tocou com a agonia de sempre e quando tudo terminou voltou para casa, pediu para ficar sozinho e compôs aquele que seria seu tango mais tocado e conhecido: Adiós Nonino. Era assim, em italiano, que Diana e Daniel, filhos de Piazzola chamavam o avô".

(Eric Nepomuceno, no encarte Piazzola: O Homem que reinventou Buenos Aires, que acompanha o CD Arthur Moreira Lima interpreta Piazzola).

Aqui, em homenagem a uma Mulher e Mãe brilhante

23/02/2012

Stefan Zweig 23 fevereiro

A 23 de fevereiro de 1942 desapareceu Stefan Zweig, o escritor austríaco que importa ler por várias razões, sendo todas elas ligadas aos dias de hoje:

Uma delas, porque, como a grande distância, antecipou o Brasil como País de Futuro, precsiamente num livro com esse nome.

Depois, porque biografou o navegador português Fernão de Magalhães como mais ninguém fez.

E, finalmente, porque deixou registo do suicídio da Europa em duas Guerras Mundiais que viveu, no seu livro "O Mundo de ontem / Die Welt von Gestern" (ed. Assírio Alvim, em Portugal) em cujos traços de época de loucura se vê muita da irracionalidade dos dias de hoje.

Um autor a ler, em edições modernas ou a procurar no alfarrabista.

Stefan-Zweig-Weg, em Munique

20/02/2012

Não ser piegas é...

… jogar bilhar em quaisquer circunstâncias (mesa na província da Zambézia, Moçambique):

19/02/2012

O problema grego não é economia

A Grécia está crescentemente polarizada entre dois "partidos": o do euro e o do regresso à dracma. A mais recente sondagem indica que 79% dos gregos rejeitam o memorando da troika, mas que 70% não aceitam em nenhuma circunstância abandonar a moeda única. Só 15% crêem que a dracma lhes abriria melhores perspetivas.

A linha divisória entre estes dois "partidos" é em parte ideológica: a saída do euro é defendida na extrema-esquerda, em termos anticapitalistas, e na extrema-direita, numa base nacionalista. Mas não só. Os milhares de gregos que colocaram as suas reservas na Suíça apostam num regresso à dracma, denuncia a imprensa. Poderiam então comprar "o património nacional a preço de saldo". Também serão tentados pela dracma muitos lobbies que temem que as reformas impostas pela UE destruam o sistema de clientelismo e a impunidade fiscal em que prosperaram.

Os gregos conhecem o preço da opção. Christophoros Passaridis, o cipriota Nobel da Economia, avisa-os: o eventual regresso à dracma levaria a uma desvalorização monetária na ordem dos 60%, muito mais violenta do que os cortes da troika.

A Grécia não é "a preto e branco". As imagens do fogo em Atenas, transmitidas pela televisão para o mundo inteiro, produzem uma mistificação. A situação social é certamente explosiva. Mas convém lembrar que as vagas de violência em Atenas são sempre promovidas por um ou dois milhares de encapuzados, fardados de negro, que se reclamam do "anarquismo". O problema é que desta vez eram mais do que o costume, o que inquieta os editorialistas.

O jornalista ateniense Nikos Chrysoloras lembra no Guardian que houve 100 mil manifestantes na rua, na maioria pacíficos, e que mais de quatro milhões de atenienses não aderiram ao protesto. Para Chrysoloras, o que seguramente lançaria o caos na Grécia e provocaria uma onda de desestabilização no Mediterrâneo Oriental, com graves consequências para a Europa, seria a sua saída do euro.

Resumi, na semana passada, o olhar que os gregos têm sobre a origem da crise nacional e o seu "irreformável" sistema político, económico e social. Esta semana foi marcada por espetaculares atos de contrição.

No discurso da noite de domingo, antes da votação do memorando, o antigo primeiro-ministro Giorgios Papandreou declarou: "O nosso sistema político é coletivamente responsável por todos os funcionários que nós empregámos por favoritismo, pelos privilégios que nós concedemos por lei, pelas exigências escandalosas que nós satisfizemos, pelos sindicalistas e homens de negócios que nós favorecemos e pelos ladrões que não metemos na cadeia."

Os gregos dizem que não tinham a noção de que viviam acima das posses. Respondendo a esta queixa, escrevia ontem, no diário Ta Nea, o economista Panayotis Ioakeimidis, professor da Universidade de Atenas: "Todos partilhamos a responsabilidade. Mas um reformado que recebe 500 euros por mês não conhecia e não era obrigado a conhecer o montante da dívida na percentagem do PIB, nem a data de vencimento das obrigações, nem o momento em que os mercados financeiros fechariam as portas a um país que despudoradamente não deixava de pedir emprestado."

Quem é responsável? "O problema da Grécia não é económico. É profundamente político e cultural. São o sistema e o mundo políticos que, em primeiro lugar, têm responsabilidade pela crise que assola a Grécia. De resto, todos temos uma parte da responsabilidade, maior ou menor. E a dos economistas é grande."

A dois meses das eleições (29 de Abril ou 6 de Maio), os partidos políticos começam a estilhaçar-se. De momento, a Nova Democracia, de Antonis Samaras, afastada do poder em 2009, beneficia da implosão do Pasok, de Papandreou e de Evangelos Venizelos, atual ministro das Finanças, que surge nas sondagens na casa dos 8% a 12%. Explicou ao Monde o politólogo George Sefertzis: "Há dois partidos em cada um deles: um centrista e um populista. Estão em vias de implosão. A crise enfraquece a classe média e o sistema clientelista que acompanhou a sua progressão." A recomposição do quadro político levará tempo e é uma incógnita. O jornal To Vima teme a depressão do centro moderado e o reforço dos pólos, "a direita popular" e a "esquerda populista".

O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, tem razão em dizer que o seu país não está disposto a meter mais dinheiro "num poço sem fundo". Mas não pode, por exemplo, insinuar a vontade de fazer adiar as eleções na Grécia. Entre gregos e alemães houve dois anos de jogo perverso. Berlim demorou a agir, seguindo a vontade alemã de punir os gregos, e permitiu que a crise se generalizasse à zona euro. Para evitar a bancarrota, Atenas aprovou acordos que não tencionava cumprir. E, de facto, dado o "sistema grego", os políticos dificilmente poderiam fazer reformas, sob pena de harakiri eleitoral. Assiste-se hoje - talvez demasiado tarde - a um vislumbre de mudança na Grécia, graças à percepção da iminente falência.

A semana foi também marcada por uma escalada verbal entre Berlim e Atenas. Os gregos dizem-se insultados por declarações alemãs e ameaçados pela suposta vontade de Berlim os afastar do euro. "Não humilhem os gregos", apela no New York Times o jornalista Alexis Papahelas, director do Kathimerini. Sobretudo quando a Grécia percebeu que tem de mudar.

Não é apenas a crise do euro ou a queda da Grécia que estão em cima da mesa. Está em gestação uma crise política à escala europeia, entre soberanias nacionais e decisões comunitárias. Os mecanismos democráticos funcionam a nível nacional e não a nível comunitário. Em épocas de expansão, é fácil conciliar as decisões democráticas nacionais e as decisões intergovernamentais da UE. Em épocas de crise, o risco de conflito é muito elevado. Os políticos, tanto nos "países do Sul" como nos "países AAA", estão sob crescente pressão das opiniões públicas, logo dos eleitorados. Às reacções antigregas e anti-Sul, pode suceder-se uma vaga de reacções anti-alemãs. Seria a mais rápida via de desagregação da UE.

O primeiro-ministro italiano, Mario Monti, e uma eurodeputada francesa, Sylvie Goulard, escreveram há dias: "Entre as questões que a crise actual suscitou, nenhuma é mais importante e nenhuma é menos debatida do que a democracia na Europa." É o recado da semana.


Jorge Almeida Fernandes
in «Público» 18.02.2012

17/02/2012

Movimento perpétuo

Extremo ocidental
Os "direitos adquiridos" dos "cavaquistas anónimos"

Há um politicamente correto que só subsiste porque em Portugal se fala muito e se pensa pouco

A física dos direitos adquiridos

Noronha do Nascimento é um homem antigo. Nota-se na pompa, na pose, no discurso. Como homem antigo, o nosso presidente do Supremo Tribunal de Justiça é também alguém formado no tempo das "duas culturas", a científica e a humanística, e, por isso, se sabe citar Camilo, tem mais dificuldades com a segunda lei da termodinâmica. Não fosse isso e certamente não teria falado como falou de "direitos adquiridos" no seu discurso de abertura do ano judicial.

Bem sei que esta lei é uma das mais difíceis de entender da física, pois não é intuitivo que, em todos os sistemas fechados, exista uma tendência para a entropia subir. No entanto, é esta lei que explica por que razão não é possível construir uma máquina de movimento perpétuo. Se a transpusermos para a vida do dia-a-dia, ela também nos ajuda a perceber porque é que uma casa se desarruma, mesmo que não a desarrumemos deliberadamente. Assim, se a única forma de manter uma máquina a trabalhar é nunca deixar de adicionar energia, só a "energia" de uma dona de casa mantém o lar arrumado.

Na vida das sociedades, na economia, o equivalente ao movimento perpétuo é o progresso inelutável: um como o outro correspondem a utopias irrealizáveis. A história da humanidade está cheia de episódios de civilizações que entraram em colapso, existindo até algumas que desapareceram, quando desapareceu a sua fonte de energia - um caso bem interessante é o do fim da civilização da ilha da Páscoa, provocado pelo consumo das suas florestas até à última árvore. Muitos dos problemas que vivemos hoje no Ocidente também podem ser relacionados com a diminuição de algumas das suas "fontes de energia". Basta pensar na crise demográfica ou na dificuldade em fazer funcionares dos motores da inovação, sobretudo na Europa.

Quando chegam a estes pontos críticos - e nós, em Portugal e na União Europeia, estamos num ponto crítico -, as sociedades, se continuam a viver como antes viviam, não se regeneram, antes entram em colapso. Para os habitantes da ilha da Páscoa abater as árvores das suas florestas era o que estavam habituadas a viver - era um hábito adquirido... -, pelo que as abateram até não restar mais nenhuma. Para venerandas figuras a chegarem ao momento de se tornarem pensionistas (mesmo se abastados pensionistas), a ideia de que não receberão as reformas tal e qual como esperavam receber deve ser tão estranha como teria sido a de procurar fontes de energia alternativas às florestas em via de desaparecimento. Por isso chamam às suas expetativas "direitos adquiridos" e enroupam-nas com argumentos sibilinos.

Como num sistema fechado a tender para a máxima entropia, para a morte térmica, as sociedades em que vivemos deixaram de ter energia suficiente para acrescentarem a riqueza necessária à consagração dessas expectativas. Não é um mal temporário e passageiro, é um mal profundo e há muito diagnosticado, um mal fatal, se tudo continuar como dantes. Daí que seja uma falácia tomar como "adquiridos" direitos que só seriam sustentáveis, se a nossa máquina económica continuasse a trabalhar com o vigor de há algumas décadas. A actual crise só precipitou essas evidências.

O tremendismo apocalítico

Como homem antigo, Noronha do Nascimento cita Rousseau. Cita mal. Duplamente mal. Primeiro porque o seu "contrato social" não vem na linha dos propostos por Hobbes e Locke, como sugere, antes se lhes opõe. Depois porque, para Rousseau, a sociedade ideal é governada não democraticamente, antes por uma suprema "vontade geral" - "cada um de nós coloca na comunidade a sua pessoa e todos os seus poderes, sob a direcção suprema da vontade geral" -, o que implica abdicar de todos direitos individuais (e não apenas dos "adquiridos") - "a total alienação por cada associado de ele próprio e de todos os direitos, para toda a comunidade".

O princípio das sociedades democráticas é diferente. Baseia-se na ideia de que os homens são imperfeitos, o governo deve ter poderes limitados e é natural a existência de conflitos. Não há pois, ao contrário do que sugere o presidente do Supremo, qualquer "noção subliminar do contrato tacitamente aceite pelo povo", um povo que só aceitaria o governo, se este cumprisse certas "prestações contratuais". Esta curiosa forma de raciocinar leva-o a descrever para Portugal uma situação pré-revolucionária, tipo vésperas da Revolução Francesa - diagnóstico que, porém, não parece colar à realidade, como ainda ontem se viu com o relativo fracasso da greve dos transportes.

O que nos leva ao tremendismo da sua anunciada "caixa de Pandora" capaz de nos levar ao "Inverno (ou ao Inferno) do nosso descontentamento". Aqui Noronha não está sozinho. Não têm faltado porta-vozes desse povo que, para surpresa geral, ainda não assaltou a nossa Bastilha, fosse ela qual fosse. Maria José Morgado até já vê magistrados a passar fome (porventura fome dos brioches de Maria Antonieta...). E os "cavaquistas anónimos" que, este fim-de-semana, irromperam na cena política, dizem-se prontos a marchar contra o ministro das Finanças.

Tudo isto de pouco valeria, se não tivesse recebido algum gás vindo de Belém, onde afinal mora um Cavaco Silva que também é, à sua maneira, um homem antigo. Só assim se compreende o seu evidente mal-estar - o seu desastroso mal-estar - com as pensões que recebe. É que se tivesse hoje 40 ou 50 anos saberia, como sabem todos os que andam por essas idades, que no futuro nunca haverá dinheiro para pagar reformas semelhantes àquelas de que ainda beneficia a sua própria geração. E, no entanto, todos os que têm 40 ou 50 anos "descontaram toda a vida", talvez até mais do que descontou Cavaco Silva. O sistema de Segurança Social do seu tempo acabou, e ele é apenas a menor das vítimas, algo que tem a obrigação de saber.

Os cavaquistas clandestinos

Não deixa também ser curioso - mas não é surpreendente - que os nossos "cavaquistas anónimos" tenham adotado parte da linguagem política da oposição.

(Breve nota: como é possível que, em democracia, com uma imprensa livre, se aceite que alguém se proteja com o anonimato para proferir opiniões? Que regras são estas? Que escrutínio podem ter tais afirmações? O que é que isso revela de doentio e obscuro na relação com a opinião pública?)

O Expresso anunciava, por exemplo, que o Presidente estaria contra o "Estado mínimo". Estado mínimo? Saberá o Expresso (saberá o Presidente) que o Estado gasta, em Portugal, metade da riqueza do país? Será razoável considerar que teremos um "Estado mínimo", se se cumprir o prometido por este Governo, isto é, uma redução, em 2015, para 43,5% do peso das despesas públicas no PIB. 43,5% de toda riqueza produzida em Portugal vai para o Estado e ainda falamos de "Estado mínimo"? O que será então o Estado máximo?

O PÚBLICO dava mais um passo: anunciava que um número indefinido de "cavaquistas anónimos" considerava Vítor Gaspar um "ultraliberal". Não chegava liberal, ou mesmo neoliberal - o insulto preferido por estes dias -, era preciso dar o salto para "ultraliberal". Saberá o PÚBLICO (saberão os "cavaquistas anónimos") o que é um ultraliberal? Como classificariam então Ron Paul, candidato nos EUA à nomeação pelo Partido Republicano? Como extraterrestre?

Infelizmente todo este non senseé revelador. Traduz a incapacidade de discutir políticas sem ser no quadro de referências que, mesmo sendo muito marcadas ideologicamente, se pretendem apresentar como neutras. É uma lógica que tem de ser quebrada, pois o verdadeiro "fanatismo ideológico", tão criticado por alguns, não está em quem tenta apagar o fogo da dívida e do défice, mas em quem insiste em que se deixe arder em nome de valores ditos superiores. É que esses supostos valores, ou dos chamados "avanços civilizacionais irreversíveis", muitos propalados apenas em nome da manutenção de inconfessáveis direitos adquiridos, são na prática tão utópicos, irrealistas e autodestrutivos como a convicção de que haveria sempre árvores para cortar na ilha da Páscoa.

Os "cavaquistas anónimos" apenas vieram dar força a este politicamente correcto, que só subsiste porque em Portugal se fala muito e se pensa pouco.

 
José Manuel Fernandes, Jornalista
in «Público»

16/02/2012

Encurtamento da Páscoa

O Governo prepara encurtamento da Páscoa: Jesus Cristo morre crucificado e ressuscita no mesmo dia.

Depois de ter acabado com o Corpo de Deus, o 15 de Agosto, o 5 de Outubro, o 1 de Dezembro e de não ter dado tolerância de ponto aos funcionários públicos no Carnaval, Passos Coelho prepara uma pequena  alteração ao ano litúrgico, nomeadamente a Semana Santa, de forma a obter uma versão da Páscoa mais adaptada a um país que quer ser mais competitivo.

"A Última Ceia a uma quinta-feira é coisa de garoto mimado e irresponsável que chula os pais e o Estado.

Acabou-se a Sexta-Feira Santa e a Última Ceia passa a lanche ajantarado no sábado até às 23 horas, no máximo.

Domingo de Páscoa passa a ser o dia do julgamento, paixão, crucificação, morte, sepultura e ressurreição.

Também Jesus Cristo tem de deixar de ser piegas!",  revelou Passos Coelho.

13/02/2012

Acordo ortográfico moçambicano

«Eh Oena, Nós aqui em Moçambique sabemos que os mulungos de Lisboa fizeram um acordo ortográfico com aquele tocolocha do Brasil que tem nome de peixe. A minha resposta é: naila.
Os mulungos não pensem que chegam aqui e buissa saguate sem milando, porque pensam que o moçambicano é bongolo. O moçambicano não é bongolo não; o moçambicano estiva xilande.
Essa bula bula de acordo ortográfico é como babalaza de chope: quando a gente acorda manguana, se vai ticumzar a mamana já não tem estaleca e nem sequer sabe onde é o xitombo, e a gente arranja timaca com a nossa família.

E como pode o mufana moçambicano falar com um madala? Em português, naturalmente. A língua portuguesa é de todos, incluindo o mulato, o balabasso e os baneanes. Por exemplo: em Portugal dizem "autocarro" e está no dicionário; no Brasil falam "bus" e está no dicionário; aqui em Moçambique falamos "machimbombo" e não está no dicionário. Porquê?

O moçambicano é machimba? Machimba é aquele congoaca do Coelho que pensa que é chibante junto com o chiconhoca ministro da economia de Lisboa. O Coelho não pensa, só faz tchócótchá com o th'xouco dele e aquilo que sai é só matope.

Este acordo ortográfico é canganhiça, chicuembo chanhaca! Aqui na minha terra a gente fez uma banja e decidiu que não podemos aceitar.

Bayete Moçambique!
Hambanine.»

Assina: Zé Macaneta
TRADUÇÃO LIGEIRA
MULUNGO = BRANCO 
TOCOLOCHA = MACACO
BUISSA SAGUATE = DAR GORJETA
MILANDO = PROBLEMA
BONGOLO = BURRO
TICUMZAR = RECUSAMO-NOS A TRADUZIR (%&%;+$#&«p;a<;%*!§)

NR: este texto é uma merecida homenagem ao poeta Vasco Graça Moura pelo seu papel de irredutível lusitano para os lados de Belém

12/02/2012

Tempestade sobre Maputo

Tempestade impressionante sobre a cidade de Maputo, a 11/02/2012 (filme concentrado em 2 minutos).

Raios e coriscos sobre Guebuza!

11/02/2012

Grécia

Entre o póquer e a tragédia

A crise grega aproxima-se de um desenlace. Cresce o número dos que, na Europa, passaram a apostar numa falência da Grécia, porque não faz as reformas exigidas, e daqueles que, na Grécia, estão persuadidos de que os europeus serão obrigados a pagar, façam eles o que fizerem. Este resumo, feito por um diplomata, indica que estamos num momento de fronteira. Para Bruxelas, a falência da Grécia é um pesadelo, pelo risco de efeito em cadeia sobre os países do euro, a começar por Portugal e Espanha. Para os gregos, que repudiam a austeridade mas querem permanecer no euro, a rutura significaria uma catástrofe. Joga-se póquer.

Para lá dos muitos erros e hesitações, a UE queima as derradeiras ilusões de controlar a situação grega. É simples: os governos gregos não querem, e talvez não possam, fazer a maioria das reformas exigidas. A questão excede os interesses eleitorais dos partidos - eleições em Abril - ou a exasperação social: após drásticos sacrifícios, os gregos não vêem perspetiva de saída da crise. O problema excede também o debate sobre a bondade ou a perversão das receitas de austeridade impostas a Atenas. O centro do problema é outro: diz respeito ao Estado, é eminentemente político.

Para que a Grécia se salve, será necessário reformar de alto a baixo o Estado e os "pactos" em que economia e sociedade assentam. O ultimato europeu sobre as reformas, que será debatido amanhã no Parlamento grego, significa fazer explodir o sistema político grego. Nada mais, nada menos.

É inevitável uma passagem pela História. O Estado grego não funciona como os outros. Estigmatizar os gregos é um exercício mistificador. O problema está nas instituições. O Estado, que por vezes foi autoritário, é ao mesmo tempo tentacular e débil.

Após a emancipação do Império Otomano, em 1829, o Estado foi formalmente construído por funcionários alemães que acompanharam o príncipe bávaro Otão. A Grécia era um mosaico populacional e territorial, unido pela religião e pela língua. "A centralização foi imposta por um exército de mercenários europeus contra a resistência de uma sociedade que vivia num quadro político, institucional e cultural otomano, ou seja, fragmentado e reticular", lembra Georges Prevelakis, especialista em geopolítica balcânica.

Ao longo dos séculos XIX e XX, esse Estado foi sendo construído, com avanços e regressões, na base de um compromisso. Prossegue Prevelakis: "O poder serviu-se do aparelho de Estado não apenas como instrumento de repressão mas também como um sistema de distribuição de uma espécie de renda ou tributo. A principal moeda de troca foi o emprego pelo Estado. Um lugar na administração traduzia-se num primeiro tempo em submissão e, depois, em votos".

"O princípio central da sociedade grega foi sempre o clientelismo político, um sistema em que o apoio político é concedido em troca de vantagens materiais", escreve o jornalista Takis Michas. "Neste contexto, é primordial o papel do Estado enquanto principal fornecedor de prestações a grupos e indivíduos." Corrobora o economista Kostas Vergopoulos: "Desde meados do século XIX que nada se pode fazer na Grécia sem passar obrigatoriamente pela máquina do Estado."

Para distribuir uma renda às clientelas, o Estado foi forçado a elevar a carga fiscal sobre a economia, suscitando uma cultura de fraude fiscal; e a recorrer ao empréstimo estrangeiro, o que gerou colapsos das finanças públicas. Atenas esteve sob tutela de uma comissão financeira internacional entre 1897 e 1936, para garantir o pagamento do serviço da dívida aos credores.

Após a queda da "Ditadura dos Coronéis", em 1974, o sistema não mudou, foi modernizado e alargado. Os dois partidos dominantes, o Pasok (social-democrata) e a Nova Democracia (conservador), reorganizaram as redes de patrocínio, graças à adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1981. Sobretudo o Pasok, liderado por Andreas Papandreou (pai do ex-primeiro-ministro), promoveu um generoso welfare state assente numa lógica eleitoralista e não numa racionalidade económica, sublinha o politólogo Christos Lyrintsis.

As empresas públicas são a extensão do tentacular Estado clientelar. Os sindicatos, designadamente os do funcionalismo e do sector público, são parte activa deste sistema.

A adesão ao euro resolveu o impasse em que o sistema se encontrava em meados dos anos 1990. Abriu a torneira dos mercados financeiros. Atenas não reunia condições para entrar na moeda única. Deve-o - ironicamente - a Paris e Berlim, guiados por interesses geoestratégicos - estabilizar os Balcãs e o Mediterrâneo Oriental. A Grécia era um pequeno país cuja eventual bancarrota não assustava a próspera UE.

Havia outro factor: "A Grécia ocupa um lugar central no imaginário europeu." A própria criação do Estado grego moderno foi "um grande empreendimento identitário europeu". A Grécia Antiga era a raiz da sua cultura.

Como reformar o Estado clientelar? "A classe política recusa o questionamento da sua política estatista, pois ela permite-lhe constituir clientelas políticas. Na Grécia não se vota por ideologias, vota-se por quem nos ajuda materialmente", diz ao Libération o historiador Nicolas Bloudanis. A tragédia grega é que o seu sistema político impede os seus governos de enfrentar a crise da dívida. Resta a experiência da arriscada explosão do sistema.

Ontem, Atenas parecia estar "a ferro e fogo" e o Governo ameaçava desfazer-se. Sob impulso da Alemanha, e empurrada por opiniões públicas crescentemente hostis à ajuda a Atenas, a UE lançou um ultimato, visando desta vez promover uma espécie de "state building" dentro da própria União. É um jogo de alto risco, que poderá despertar o latente anti-ocidentalismo grego.

A Grécia tem pela frente a escolha entre "ser Europa" ou "regressar aos Balcãs". Mas também é complicada a escolha da UE. Pensando em geopolítica, avisa Prevelakis: "Uma eventual saída da UE, ou mesmo da zona euro, transformaria de novo a Grécia num campo de batalha entre interesses ingleses, alemães, franceses, americanos, russos e chineses." Humilharia e enfraqueceria a Europa, que se quer modelar e "seria obrigada a confessar o fracasso em "europeizar" um Estado, membro há 30 anos e que considera o berço da democracia"

Jorge Almeida Fernandes
in «Público», 11.02.2012

07/02/2012

Primavera árabe

Um árabe cheio de sede atravessava o deserto há várias horas quando ao longe vislumbrou uma banca.
Na esperança de lá ter água, acelerou o passo. Uma hora depois chega finalmente e aproxima-se:
- Boa tarde, tem água?
- Não, a única coisa que tenho são gravatas para venda.
- Gravatas? Quem é que compra isso no deserto??
- Olhe que estão em promoção, cinco euros cada uma. Quer comprar?
- Claro que não! Estou cheio de sede e o que eu queria era água!
- Tenho aqui umas que combinam com a sua túnica...
- Não quero nada disso, já disse! Quero é matar a sede.
- Ok. Mas olhe, depois daquela duna ali, se virar para Oeste encontra um oásis a cerca de 4km.
- A sério?!
- Garantido!
- Então vou-me pôr a caminho.
Passadas cinco horas e já rente à noitinha, o árabe volta ao local da banca das gravatas:
- Então, encontrou o oásis?
- Encontrei.
- E?
- O cabr** do porteiro diz que não se pode entrar sem gravata ....

05/02/2012

Pão e circo

Chama-se "Agora é que conta", passa na TVI" e é apresentado por Fátima Lopes.

O programa começa com dezenas de pessoas a agitar uns papéis. E os papéis são contas por pagar. Reparações em casa, prestações do carro, contas da eletricidade ou de telefone. A maioria dos concorrentes parece ter, por o que diz, muito pouca folga financeira.

E a simpática Fátima, sempre pronta a ajudar em troca de umas figuras mais ou menos patéticas para o País poder acompanhar, presta-se a pagar duzentos ou trezentos euros de dívida. "Nos tempos que correm", como diz a apresentadora - e "os tempos que correm" quer sempre dizer crise - , a coisa sabe bem.

No entretenimento televisivo, o grotesco é quase sempre transvestido de boas intenções.

Os concorrentes prestam-se a dar comida à boca a familiares enquanto a cadeira onde estão sentados agita, rebolam no chão dentro de espumas enormes ou tentam apanhar bolas de ping-pong no ar. Apesar da indigência absoluta do programa, nada disto é novo. O que é realmente novo são as contas por pagar transformadas num concurso "divertido".

Ao ver aquela triste imagem e a forma como as televisões conseguem transformar a tristeza em entretenimento, não conseguimos deixar de sentir que esta é a "beleza" televisiva onde tudo se vende, até as pequenas desgraças quotidianas de quem não consegue comprar o que se vende.

Houve um tempo em que gente corajosa se juntava para lutar por uma vida melhor e combater quem os queria na miséria. E ainda há muitos que não desistiram. Mas a televisão conseguiu de uma forma extraordinariamente eficaz o que os séculos de repressão nem sonharam: pôr a maioria a entreter-se com a sua própria desgraça. E o canal ainda ganha uns cobres com isso. Diz-se que esta caixa mudou o Mundo.


Entretanto a apresentadora recebe 40.000 euros por mês. Foi o valor da transferência da SIC para a TVI. Uma proposta irrecusável segundo palavras da própria.

A pobre da Fátima Lopes só ganha 1290 euros por dia. Brincando com miséria dos miseravelmente felizes.



01/02/2012

Perspicácia

Momento de reflexão feminina:"Fui ao Pingo Doce, e levava isto no carrinho:
      
1 litro de leite
1 caixa de ovos
1 pacote de sumo de laranja
1 embalagem de fiambre
1 alface
1 pacote de café
      
Estava a colocar as compras no tapete rolante da caixa e atrás de mim estava um fulano perdido de bêbado a observar enquanto a funcionária fazia os registos.
      
Quando ela terminou, ele disse:

- "Deves ser solteira...".

Fiquei admirada com este comentário, mas curiosa porque de facto sou solteira.
Olhei para os seis artigos que tinha acabado de comprar e não achei que houvesse nada que pudesse denunciar o meu estado civil.

Sem conseguir conter-me de curiosidade, disse: "Você está absolutamente certo. Mas como é que chegou a essa conclusão?"

O bêbado respondeu: "Porque és feia como a merda!!!"


31/01/2012

Esquerda X Direita

Um texto de Mário de Carvalho, do tempo em que as galinhas tinham dentes e voavam sobre a Coreia do Norte:

"Não sei como se pode ser de direita. É viver e pensar entre zinabres, bolores e cotões. A direita não tem, nem nunca teve, princípios: tem preconceitos.

A direita não tem, nem nunca teve, propostas: tem slogans. A direita não defende nem nunca defendeu causas: mas interesses. A direita não cria ideias: inventa pretextos. A direita não expressa razões: faz propaganda. A direita é a imagem do nosso atraso, responsável e promotora do que há de mais boçal, retrógrado e deprimente na sociedade portuguesa.

Quando alguém se proclama de direita (e é de ressalvar que, individualmente falando, há na direita gente estimável e e respeitável a muitos títulos) assume um lastro de opressão, violência, ignomínia, mentira, obscurantismo, que pesa através dos séculos e que nos vem diminuindo e amesquinhando até aos nossos dias."


in DN, 10.11.2006, pág. 3

30/01/2012

Sem palavras

27/01/2012

Cartazes

"Antigamente, os cartazes nas ruas com fotos de criminosos ofereciam recompensas, hoje em dia, pedem votos."

Juntos, enterraram Portugal!


25/01/2012

Turismo

Porque os moçambicanos não têm culpa da cambada que os (des)governa, aqui fica uma sugestão de turismo:

22/01/2012

Falando de socretinos

Os portugueses, governados nos últimos anos por políticos sem densidade cultural, licenciados tardiamente por universidades de segunda, têm com a política uma relação cada vez mais distante, desde o desprezo à crítica fácil.

Os debates políticos não interessam (quem não está farto de "politólogos" a desfiar banalidades?) e os telespetadores parecem conformados com uma programação em que já nem o entretenimento tem qualidade, e onde a devassa de uma pobre intimidade e o futebol ganham as audiências.

Daniel Sampaio
in «Pública», 15.01.2012

19/01/2012

Elis Regina

Foi há 30 anos que a língia portuguesa perdeu uma estrela.

Aqui:

17/01/2012

Maputo 17 de janeiro

Bem podem os holandeses pagar obras de hidráulica, é o guebuzismo no seu melhor:

11/01/2012

Aumentos

O jovem empregado vai à sala do patrão:
- Senhor diretor, vim aqui para lhe pedir um aumento. E adianto já que há quatro empresas atrás de mim.

O patrão, com medo de perder o talento promissor, dobra-lhe o salário. As empresas só valorizam os funcionários quando eles recebem outras propostas...

- Mas mate-me uma curiosidade, meu rapaz. Pode dizer-me quais são essas quatro empresas?

- Sim, senhor. A de luz, água, telefone e o meu banco...

10/01/2012

Paganini, Il carnevale di Venezia

Uma atuação imperdível:

09/01/2012

Mr. Guebusine$$

The tentacles of Mozambican President Armando Emilio Guebuza's huge family business empire make Zuma Incorporated look like a spaza-shop operation.

Guebuza has wide-ranging Mozambican interests in the banking, telecommunications, fisheries, transport, mining and property sectors, among others. Critics complain that, as president, he makes critical decisions about economic matters that have a direct bearing on his business activities.

Already a wealthy businessperson when he became president in 2005, Guebuza has steadily expanded his interests, drawing in more and more members of his family. His children Valentina, Armando, Ndambi, Norah and Mussumbuluko, nephews Miguel and Daude, brother-in-law and former defence minister Tobias Dai, Dai's cousin José Eduardo Dai and sister-in-law Maria da Luz Guebuza now share in the spoils.

Known in Mozambique as "Mr Guebusiness", he has also entered into lucrative partnerships with Indian, Chinese, Dutch and Bermuda-registered companies. His most important South African connection is an interest in Trans African Concessions, the company that operates the crucial N4 toll route between Pretoria and Maputo.

Guebuza is on the board of Cornelder, the company that manages the Beira and Quelimane ports. He is also a shareholder in South African cellphone company Vodacom's Mozambique subsidiary through Intelec Holdings, a sprawling group that administers the president's investments.

With interests in electricity transmission and equipment, telecommunications, gas, consulting, cement, tourism, construction, Tata vehicles and fishing, Intelec holds 5% of Vodacom Moçambique, the private cellphone company that competes with the state operator, Cornelder de Moçambique.

Intelec, chaired by the former head of Mozambique's employer body, Confederação das Associações Económicas, also has a stake in Moçambique Capitais, which recently launched the bank Moza Banco in partnership with Macau magnate Stanley Ho's Geocapital.

The group has started a consulting company called Intelec Business Advisory and Consulting, in which a Mozambican resident of Cape Town, Tania Romana Matsinhe, has a 35% stake and serves as chief executive. Among its other shareholders is Guebuza's son, Armando, with a 12.5% stake. Matsinhe served as economic adviser to the Mozambique minister of planning and development and also sits on the board of 1Time airline.

One of Guebuza's business front-men, Intelec director Salimo Amad Abdula, has links to chalk-mining operations in Mozambique and picked up a 15% stake in Elephant Cement Moçambique in May last year. This makes him a partner of Indian cement manufacturer Shree Cement, which holds the rest of the shares in Elephant Cement.

The family member with the widest range of business interests is Guebuza's youngest daughter, 31-year-old Valentina, who already has several directorships under her belt and a growing list of companies linked to her name.

In 2001 Valentina became a shareholder in the family's holding company, Focus 21 Management and Development Limited, with her brothers Armando and Mussumbuluko. In 2007 she took a giant step when she became a shareholder in Beira Grain Terminal, which operates the bulk grain terminal in the Mozambican port.

Valentina has a 2.5% stake in the consortium, the three main shareholders of which are Bermuda-registered company Seaboard Moz Ltd (32.5%), state-owned port and railway company Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (15%) and Cornelder de Moçambique (15%). She is also believed to be a shareholder in Cornelder.

The network of family members that dominates the Guebuza empire also includes José Eduardo Dai, who has partnered Valentina in a range of enterprises. In 2008 the pair joined forces with Carlos Salvador, a Mozambican businessperson with interests in South Africa, in launching computing and telecommunications firm Orbttelcom.

In the same year José Eduardo Dai, Valentina and Mussumbuluko created mining company Dai Servicon Limited. In 2009 they featured as directors in the newly formed import-export company Mozambique Investment and Development Limited, again after its rules were structured to accommodate the two members of the president's family.

Valentina is also joint owner of Imogrupo, which has interests in real estate, engineering, construction, hospitality and tourism. She has an interest in Maputo's Tunduro Botanical Gardens, which are being rehabilitated with municipal funds.

Valentina is chief executive of Chinese-owned TV company StarTimes, which has a joint undertaking with the Guebuza-owned Focus 21 to digitise public broadcasting. There was no public tender for the contract.

Guebuza's oldest son, Armando, has a degree in architecture from a South African university. His name appears among the directors of seven registered companies in Mozambique. With South African and Angolan partners, he registered a company last year called Billion Group Moçambique, which has interests in mining, energy, construction and public works. It appears to be part of the Bongani Investment Holdings empire -- a Christian business network that has close links with South African President Jacob Zuma. Its chief executive, Alph Lukau, is the pastor who officiated at the lavish wedding of Zuma's daughter Duduzane last year.

Guebuza's other son, Mussumbuluko, with siblings Armando and Valentina, is the Maputo representative of Christian Bonja, a Lebanese company owned by Michal Mansou, who is well known in the Middle East and Europe for handmade Lebanese jewellery and Swiss watches.

Linked to four undertakings by the companies register, Mussumbuluko is on the board of Intelec.

Guebuza's oldest daughter, Norah, has also entered the field after her father again amended company rules in 2005 to allow her to become a Focus 21 director. She joined forces with Zimbabwean and Mozambican partners to launch the firm MBT Construçoes Lda, specialising in construction and public works, at the beginning of last year.

Guebuza's nephew, Miguel, launched his business career in 1993 by partnering Guebuza in a furniture and import-export company, Venturin. Miguel is a director in the construction consulting company Englob-Consultores Lda, in which one of his partners is Tendai Mavhunga, Guebuza's son-in-law.

Miguel was recently appointed to the board of newly formed Mozambique Power Industries, a South African-based concern that plans to manufacture and market electrical transformers. Its shareholders include South Africans Wilhelm François Jacobs and Christoffel Cornelius Koch. He is also a shareholder in Vodacom Moçambique.

In 2005 he partnered Dimitrios Perrevos, who has business interests in South Africa, in launching an electrical undertaking called Luminoc. Perrevos, who appears to be Angolan, was a shareholder in the ill-fated Angolan diamond-mining interests pursued by the late Brett Kebble.

The other Guebuza nephew, Daude, has interests in the property, construction, hotel, heavy sand and oil sectors, among others. In 2000, with Guebuza, he launched courier company New Express.

Daude is a partner with another South African, Oded Besserglik, in a waste-disposal company, Wasteman Mozambique. Besserglik, an Israeli who moved to South Africa during the apartheid era, has more recently had several business connections with Zulu King Goodwill Zwelethini and members of his family.

Catching the early bus
The dangers inherent in President Armando Emilio Guebuza holding the reins of government while presiding over a private business empire were thrown into harsh relief by a public-transport contract of the Mozambican government.

In July last year the weekly newspaper Canal de Moçambique reported that the Mozambican government had bought 150 gas-powered buses through a state investment corporation, the Transport and Communications Development Fund, for the use of the Maputo municipality. The trouble is that the buses were manufactured by the Indian group Tata and supplied by its local subsidiary, Tata Mozambique, in which Guebuza has a 25% stake.

According to fund executive director Luis Mula, the transaction was worth R161.4-million.

Canal de Moçambique reported that the contract did not go out to international tender, which is a requirement of Mozambique's procurement law.

From September 29 to October 4 2010 Guebuza travelled to India on a state visit. His delegation included Mozambique's ministers of foreign affairs, interior, mineral resources and transport and communications.

In 2003 he visited India as minister of transport and communications.

08/01/2012

Socretino no armário

Há um cientista que anda atrasado e, sem ter o cuidado de se assumir como um socretino desfasado, tem o desplante de não ver para dentro do ninho de víboras em que está metido.

Como muito descaramento, faz através do «Público» uma pergunta ao primeiro-ministro Passos Coelho que devia ter feito, 9 meses antes, ao anterior ocupante de São Bento: "É possível confiar num Estado onde, além da promiscuidade entre política e negócios, há também conúbio entre serviços secretos, maçonaria e empresas privadas?"

Oh André: sai do armário e assume-te como socretino! E não faças perguntas parvas. O José foi para Paris e deixou tudo arruinado.

07/01/2012

Pingo Doce

03/01/2012

Finanças Públicas 55 AC



29/12/2011

Egito

Isto é no Egito e não se pinta o dedo. Neste caso, a votante não é identificável e não comprova que só vota uma vez.

Tem que dar trapalhada... um sistema à moda dos socialistas do Porto!

28/12/2011

Sous la mer, comme si tu y étais ...

Para um ser em especial:


26/12/2011

Margaret Thatcher

O último grande líder político que não tinha medo de assumir que, nas contas públicas, se devia ter o mesmo tipo de preocupação de uma dona de casa foi — poderia deixar de ser? — uma mulher.

Margaret Thatcher, é claro.

Logo na primeira campanha eleitoral em que participou, em 1949, trinta anos antes de chegar a primeira-ministra, recomendou às suas eleitoras que "não se assustassem com a linguagem complicada dos economistas e dos ministros, antes pensassem na política tal como pensam nos seus problemas domésticos". Isso para defender que não se deve gastar para além do que se ganha — em casa ou no país.





25/12/2011

Natal é quando se quer

Porque hoje é dia de Natal, para crentes, descrentes, não-crentes ou doutras crenças:


23/12/2011

Lá vai ele tão (in)seguro!

Não é surpresa para ninguém que o largo do Rato é um covil! De há muito que os camaradas se mordem e esfaqueiam uns aos outros. Está-lhes na natureza.

Supresa será a baixaria de que já é alvo o recente, ambicioso mas inseguro secretário-geral, o Tozé para os amigos.

Tudo bem destilado e vomitado a partir do caixote que dá pelo nome de «Aspirina B» e que não se coíbe de usar liguagem das docas - é certo, hoje muito comum como muleta linguística, quiçá uma das mais visíveis conquistas de abril e das "aprendizagens" na Educação!

O certo é que o jovem está rodeado de múmias socretinas que, a todo o tempo, lhe passam rasteiras. Ele é zorrada para aqui, costada para ali. O homenzito não tem tempo e nem testículos para se impor à tralha de que está cercado.

Oh homem, dê um murro na mesa, parta a loiça, não durma, que lhe fazem a cama! O outro está em Paris mas deixou raizes daninhas! São batoteiros e não pagam contas, como sabe...











18/12/2011

Perdemos uma fonte muito camarada

Segundo fontes confidenciais do paraíso do socialismo, o nosso amado correspondente em Pyongyang, 金正日; 김정일, também conhecido por Yuri Irsenovich Kim ou ainda por Kim Jong-Il, não acordou da viagem de trabalho incansável que ontem fazia.

Supõe-se que partiu diretamente para junto do pai!
Vamos, portanto, lamentar o desaparecimento deste amigo do camarada Bernardino e do impagável PCP!

Rei morto, rei posto, supomos... e teremos lágrimas infindas lá de dentro desta prisão.

17/12/2011

Saodade num dia triste

Esta amiga vai-nos fazer muita falta. Era uma das maiores da lusofonia!

Estamos de luto por Cesária Évora.

16/12/2011

Está quente, está quente!

O excelente «The Delagoa Bay» (14.12.2011) faz um interessante comentário ao nosso artigo de 23.10.2011, o dia em que se assinalou o fim do samorismo.

A ele acrescenta uma nota de "possivelmente plausível"!

Pois não só é plausível como verdade, como inside information explica o que se publica.

Além disso, a 25.06.1975, o fotógrafo estava ali (chamava-se Av. do Brasil, um nome "colonial" que agora daria jeito).

Está quente, está quente mas, o resto, é segredo do negócio...

14/12/2011

Jovens tenores no país do "bello canto"

12/12/2011

A GNR no Alentejo

Dois GNR na berma de uma estrada no distrito de Beja vêem passar um carro a mais de 160 km/h.
Diz um para o outro:
- Aquele não é o gajo a quem apreendemos a carta a semana passada por excesso de velocidade?

- Era pois!! - respondeu o segundo.
- Vamos caçá-lo!

Uns Kms mais adiante, já com o carro parado, um dos GNR chega-se ao pé dele e pergunta-lhe:

-A sua Carta de Condução?....
-Mau!!! - responde o condutor - Atão perderam-na??!!!

11/12/2011

Hoje: uma homenagem à vida...

.. de quem tanto fez para a merecer:

05/12/2011

The Orchestrated Heist