21/09/2010

Made in Portugal

O ZÉ, depois de dormir numa almofada de algodão (Made in Egipt), começou o dia bem cedo, acordado pelo despertador (Made in Japan) às 7 da manhã.

Depois de um banho com sabonete (Made in France) e enquanto o café (importado da Colômbia) estava a fazer na máquina (Made in Chech Republic), barbeou-se com a máquina eléctrica (Made in China).

Vestiu uma camisa (Made in Sri Lanka), jeans de marca (Made in Singapure) e um relógio de bolso (Made in Swiss).

Depois de preparar as torradas de trigo (produced in USA) na sua torradeira (Made in Germany) e enquanto tomava o café numa chávena (Made in Spain), pegou na máquina de calcular (Made in Korea) para ver quanto é que poderia gastar nesse dia e consultou a Internet no seu computador (Made in Thailand) para ver as previsões meteorológicas.

Depois de ouvir as notícias pela rádio (Made in India), ainda bebeu um sumo de laranja (produced in Israel), entrou no carro Saab (Made in Sweden) e continuou à procura de emprego.

Ao fim de mais um dia frustrante, com muitos contactos feitos através do seu telemóvel (Made in Finland) e, após comer uma pizza (Made in Italy), o António decidiu relaxar por uns instantes.

Calçou as suas sandálias (Made in Brazil), sentou-se num sofá (Made in Denmark), serviu-se de um copo de vinho (produced in Chile), ligou a TV (Made in Indonésia) e pôs-se a pensar porque é que não conseguia encontrar um emprego em PORTUGAL...

O Ministério da Economia de Espanha estima que se cada espanhol consumir 150€ de  produtos nacionais por ano, a economia cresce acima de todas as estimativas e, ainda por cima, cria postos de trabalho.
Imagem daqui

20/09/2010

Uma geração enganada

Há-de ser duro, aos 50 ou aos 60 anos, ver desmoronar-se o mundo em que se viveu. Mas é talvez ainda mais duro, aos 20 ou aos 30 anos, ver desmoronar-se o mundo em que se ia viver. É o que está a acontecer a muitos dos portugueses mais novos. Esta semana, os sinos oficiais continuaram a dobrar pelo mundo para o qual foram criados e preparados. Era um mundo em que qualquer curso universitário significava um emprego e em que havia empregos vitalícios. Um mundo em que as regalias eram regularmente acrescentadas e em que as reformas vinham cada vez mais cedo. Para os jovens atuais, esse foi o mundo dos avós e dos pais.

Já não vai ser o deles.

Cada novo anúncio das várias comissões de reforma e revisão nomeadas por este Governo faz empalidecer a fotografia da vida como era há cinco ou dez anos. Tudo parece que foi há muito tempo.

Acontece que estas mudanças não chegaram gradualmente ou com aviso prévio. As notícias apareceram em catadupa, de repente, em meados de 2005, depois de garantida a maioria absoluta de José Sócrates. Até aí, o país (lembram-se?) andou convencido de que só tinha um problema, chamado Santana Lopes. Nesses tempos, era preciso ser um leitor fiel de Medina Carreira para perceber que o mal não estava apenas no primeiro-ministro e que a eleição de Fevereiro de 2005 nunca poderia ser o fim de todas as dificuldades. Agora, até os modelos que então nos venderam são vistos a nova luz. Só agora sabemos que, afinal, os escandinavos, os espanhóis e os irlandeses não andam prósperos apenas porque puseram muita gente na escola, mas porque sofreram "ajustamentos" dolorosos há dez ou há vinte anos. Não era isso que nos tinham contado. Não espanta, por isso, que muita gente nas gerações mais novas tenha sido apanhada em contramão, desprevenida, com as qualificações e atitudes desadequadas para o mundo que surgiu em Portugal nos últimos meses.

Essa falta de preparação nota-se, por exemplo, no ensino superior, nessa forma mais benigna de abandono escolar que é a fuga aos cursos "difíceis". Difícil, segundo parece, é por definição todo o curso que tenha a ver com "matemática". Percebe-se porquê: em 2005, os exames de Matemática do 9.º ano produziram 70 por cento de negativas. Em parte por causa disso, as áreas de licenciatura mais produtivas continuam a ser aquelas em que os lamentos sobre a saturação do "mercado" são maiores. Não se trata de um simples caso de imprevidência ou irracionalidade. Os estudantes e as suas famílias reagiram simplesmente aos estímulos que lhes foram administrados. E esses estímulos passaram todos, até há pouco tempo, por um sistema de ensino em que a inclusão era mais importante do que a qualidade, e a auto-estima mais importante do que o esforço disciplinado.

Em poucas áreas os equívocos foram maiores do que no ensino. Em Portugal, inquéritos à origem social dos estudantes e contas sobre o rendimento previsível dos licenciados levaram sistematicamente à ideia de que um diploma era um "privilégio": para os bem-aventurados, era uma forma de se reproduzirem; para os outros, um meio de ascenderem. Era de facto assim.

Mas a partir daí imaginou-se que a questão era expandir esse "privilégio" administrativamente, da maneira mais barata e expedita. A facilidade passou a ser encarada como um princípio de justiça social. A mínima referência à qualidade levava a suspeitas de "elitismo".

Gerações sucessivas atravessaram um sistema de ensino calafetado em geral contra qualquer forma de avaliação externa, onde a aquisição de competências e de conhecimentos foi frequentemente secundária em relação a objectivos de suposta inclusão social. Durante anos, enquanto o Estado, sempre em expansão, absorveu metade dos licenciados, tudo correu mais ou menos bem, por entre discussões inconclusivas acerca das "reformas estruturais". Foi assim quase até ao Verão de 2005. Então, subitamente, o mundo mudou. Agora, talvez demasiados jovens estejam condenados a descobrir que passaram pelo equivalente escolar das fábricas de têxteis e de calçado mais obsoletas. Pedem-lhes agora para competir num "mercado global". Hão-de perceber, da pior maneira, que o sistema de ensino não os habilitou verdadeiramente para nada que não fosse o mundo que acabou. Que vão fazer? Ou antes: que podem fazer?

Houve em Portugal gerações que gozaram a festa. Haverá um dia gerações que já não vão esperar festa nenhuma. Mas há, neste momento, gerações que foram convidadas para uma festa que acabou antes de eles chegarem. Histórias destas nunca terminam bem.

Rui Ramos, Historiador
in «Público» 28.09.2006

19/09/2010

Imprensa angolana amordaçada

MOÇÃO SOBRE A SITUAÇÃO DA IMPRENSA EM ANGOLA
Tendo tomado conhecimento dos últimos desenvolvimentos da situação da Imprensa em Angola onde, apesar das evidentes garantias constitucionais em matéria de Liberdade de Imprensa, se assiste recentemente a desenvolvimentos preocupantes, designadamente:


a) A aquisição dos principais semanários de independência editorial por parte de grupos privados caracterizados pela opacidade relativamente à sua estrutura acionista - que não é revelada - e após sucessivas ações de pressão por via de afogamento da receita publicitária de origem pública ou privada;

b) A implantação nos referidos semanários de ações de censura recorrentes, cujo episódio mais recente foi a queima de edições do semanário angolano A Capital na própria gráfica e confisco posterior arbitrário e ilegal de uma outra em vias de distribuição;

c) O aumento de sinais de intolerância, parcialidade, diminuição do exercício do contraditório e do pluralismo no seio da mídia em geral;

d) As insistentes preocupações manifestadas pelos jornalistas angolanos ao nível sindical e associativo, corroboradas em alguns casos por órgãos de dignidade legal como o Conselho Nacional de Comunicação Social sobre apreensões abusivas de jornais; preocupações essas reiteradas por diversas instituições da sociedade civil, segundo as quais, esses desenvolvimentos configuram um quadro onde, além de sofisticadas iniciativas de silenciamento da Imprensa independente, por via da apropriação privada, o ressurgimento de práticas de intimidação dos jornalistas atentórias à liberdade de Imprensa e de Expressão, contrárias aos preceitos constitucionais da III República de Angola, a Declaração de Windhoek (reconhecida pela Assembleia Geral da ONU, incluindo Angola); a Declaração sobre a Liberdade Expressão em África:

Os jornalistas reunidos por ocasião do 34º.Congresso Nacional dos Jornalistas brasileiros, em Porto Alegre, Brasil decidem:

1. Manifestar a sua apreensão por esses acontecimentos no domínio da mídia angolana, que traduzem claros sinais de retrocesso em matéria de liberdade de Imprensa e de expressão contrários ao estado de direito democrático assegurado pela constituição da III República de Angola, a Declaração de Windhoek, A declaração sobre a Liberdade de Expressão em África, a Declaração Universal dos Direitos Humanos;

2. Apelar às autoridades angolanas urgentes ações no sentido de garantir o livre exercício profissional da atividade jornalística, no quadro do pluralismo de ideias, independência editorial e diversidade dos meios no âmbito das garantias constitucionais do Estado democrático de direito;

3. Manifestar a sua solidariedade para com os jornalistas angolanos nos seus esforços para garantir a sobrevivência da Imprensa independente e de um jornalismo profissional livre, crítico e editorialmente autónomo, como um dos pilares mais importantes capazes de garantir a efetividade da democracia em Angola;

4. Promover ações de denúncia, solidariedade e mobilização de recursos alternativos à escala internacional;

in morrodamaianga, 29.08.2010

17/09/2010

O guarda-costas

Este é, para mim, um título improvável. É verdade que sempre me intrigou o facto de existirem homens, ou mulheres – veja-se o instrutivo exemplo do líder líbio - cuja profissão é expor a sua própria vida para assegurar que outros vivam e durmam descansados. Por isso mesmo e quase sempre, porque essa é a condição, fatalmente destinada a se anular perante aqueles a quem protegem.

Interrogo-me, muitas vezes, se haverá outra motivação por detrás destes seres, desse estranho ofício, além da prosáica preocupação de garantirem a sua própria subsistência.

Confesso que quando vi o filme "The Bodyguard" (1992), de Mick Jackson, que estrelava até aí, não infortunada cantora Whitney Houston e um circunspeto Kevin Costner, senti que uma certa aura de mistério e de providencialismo poderia envolver esses indivíduos, cuja finalidade na vida parece ser unicamente garantir a vida e a segurança alheias. Mais do que uma simples profissão, o que eles fazem mais se assemelha a um sacerdócio.

Bom, mas a que propósito me meti a divagar sobre uma matéria em relação a qual, tenho que admitir, pouco ou quase nada sei senão o que vou ocasionalmente vendo e lendo.

Simplesmente, porque tive a felicidade de, cerca de quarenta anos depois, ter revisitado, há bem poucos dias, a Ilha de Moçambique. Neste caso, graças ao patrocínio da Universidade de Lúrio. Na verdade, a última vez que lá estive, fora no já remoto ano de 1971. Por alguma razão indescortinável, fui sempre protelando o regresso. E foi ao visitar o Museu da Ilha, acompanhando atentamente as competentes explicações do guia, de nome Litos, que tomei conhecimento de uma história que tinha como protagonistas o primeiro presidente de Moçambique, Samora Machel, e o seu guarda-costas. Como acontece com quase todos os guarda-costas, o nome deste permaneceu na obscuridade. Mas o episódio que o envolve faz esquecer o anonimato que o cerca. Quando visitávamos os aposentos reservados aos governadores coloniais, depois de termos passado por vários compartimentos sumptuosos, ricamente mobilados e extraordinariamente conservados, detive-me a observar, de forma inquisitiva, uma cadeira larga, entrançada que, apesar de ter sido consertada, denunciava o golpe que sofrera. Contou-me, pois o jovem guia que durante a sua épica viagem do Rovuma ao Maputo, em 1975, Samora ali pernoitara, tendo se deitado no leito anteriormente reservado ao monarca português. Aconteceu que, no dia seguinte, o seu guarda-costas, imagino-o completamente cabisbaixo e apreensivo, apresentou-se para lhe comunicar que tinha partido a poltrona que se encontrava num dos corredores do majestoso edifício. De imediato, Samora, bem ao jeito que o tornaria célebre, mandou encerrar aquele que era conhecido como O Palácio dos Governadores ou Palácio dos Capitães-Generais, antigo convento jesuíta, e determinou que passasse a ser um museu, hoje Museu da Ilha de Moçambique! Salvava-se, assim, graças ao infortúnio de um guarda-costas presidencial e, sobretudo, graças a uma rara sensibilidade, visão e um sentido de Estado singular, um registo fundamental da história e da cultura deste país. Encontrava-me, pois bem no meio deste artigo, e já de regresso a Maputo, quando se deram os acontecimentos que recentemente paralisaram a cidade e, já agora, o meu texto. Nas leituras que imediatamente se fizeram à tendência, indiscutivelmente legítima, da maioria das pessoas foi de relacionar esses mesmos acontecimentos com o 5 de Fevereiro de 2008.

Apesar das motivações serem outras, contexto diferente, o que me veio à memória foi exatamente o 7 de Setembro de 1974.

Talvez, porque vivia, então, num dos subúrbios da cidade, pude viver e testemunhar algo que me marcaria para o resto da vida e que me ajudaria a perceber quão complexa é a natureza humana e o sentido real da psicologia das multidões. Se é verdade que muita coisa nos separa do que aconteceu nessa altura e do que as pessoas perseguiam, o povo é o mesmo. E é esse povo que invoca os versos do arrebatador poema "Saborosas Tanjarinas d'Inhambane", de José Craveirinha: E nos nossos tímpanos os circunjacentes murmúrios? Não é boa ideologia detectar na génese os indesmentíveis boatos? Uma população que não fala não é um risco?

Aonde se oculta o diapasão da sua voz? […] Quem é o mais super na meteorologia das infaustas notícias? Quem escuta o sinal dos ventos antes da ventania e avisa? Confundir o silêncio das pessoas, os seus murmúrios ou o seu pacifismo com ignorância e conformismo pode desencadear processos de consequências catastróficas. Cada povo tem a sua idiossincrasia. E este tem-no naturalmente. Não reage, acumula: dores, frustrações, humilhações, desconsiderações. Pacientemente, mas não resignadamente. Descobrir onde se esconde o diapasão da sua voz, como canta o poeta é, sem sombra de dúvidas, o desafio que esse mesmo povo coloca a quem o quer realmente perceber, a quem o quer efectivamente governar. Muito já se disse sobre o que aconteceu. E muito se dirá ainda, não tenho dúvidas.

Os balanços apresentam cifras preocupantes. Nas equações entre causas e efeitos, os indicadores acusadores cruzam-se nos ares no inflamado julgamento de quem é, ou não é, culpado. Nunca, como agora, na recente história do país, e tendo obviamente como referência a cidade de Maputo, o pacto entre governados e governantes foi tão posto à prova. Sinais dos tempos. Nada será como dantes, quer-me parecer. E contrariamente ao que se disse, apesar de popular, não foi uma revolta sem rosto. Além do mais, os rostos tinham voz, tinham sangue, tinham nome e tinham alma. Quando observava a indignação e a fúria dos que protestavam para as câmaras das televisões, desafiando quem os quisesse ver e ouvir, vieram-me também à memória, num poema justamente intitulado "Sobre a violência", os penetrantes versos do dramaturgo e poeta alemão, Bertolt Brecht: "Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. / Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem." E, para nossa infelicidade colectiva, teimamos em não aprender da nossa e da história dos outros: a violência gera quase sempre violência. E a violência física, visível e reactiva, raiando a barbárie, não é, e nem necessariamente a pior, nem a que unicamente deve ser condenada.

O poema de Brecht é, nesse capítulo, esclarecedor. No rescaldo de toda esta história, que julgo ser o início de algo que, forçosamente, quem de direito deveria saber ler e interpretar de forma mais sábia, tenho a convicção, mesmo que eivada de algum romantismo, que Samora e o seu guarda-costas teriam feito a diferença. Aquele, armado da sua sensibilidade e clarividência, com todos os defeitos que naturalmente tinha, daí os erros que cometeu e que o faziam humano, demasiado humano, como diria Nietzsche. E o outro mergulhado na humildade que ajudou a salvar a história de um lugar.

Contrariamente ao que aconteceu com ele, hoje, a cadeira também se partiu, mas ninguém quer assumir. E foi tudo isso que faltou decisivamente neste Setembro sangrento: sensibilidade, clarividência e humildade. Muitas civilizações cresceram e ganharam notoriedade e reconhecimento também à luz destes princípios e valores.

P.S. Já tinha terminado este artigo, quando tomei conhecimento que o Governo recuou nas decisões que geraram a revolta popular. Samora e o seu guarda-costas, onde quer que estejam, sorriram certamente.

Francisco Noa
in «O País», 10.09.2010

Imperfeito

A professora pergunta ao Joãozinho:

- Joãozinho, qual é o tempo verbal da frase:

'Isso não podia ter acontecido' ?

- Preservativo imperfeito, professora!

16/09/2010

Gosto dessa maneira de pensar

A professora pergunta aos seus alunos:

- Se existem 5 passarinhos num ramo e vocês atirarem e matarem um, quantos sobram?
- Nenhum - responde o Joãozinho.

A professora fica surpresa com a resposta:

- Nenhum?

- Claro... com o barulho do tiro todos levantam voo!

- Bem, não era essa a resposta que eu esperava, mas gosto da tua maneira de pensar!

- E agora, posso fazer-lhe eu uma pergunta? - Pediu Joãozinho.

- Podes, Joãozinho.

- Estão 3 mulheres sentadas num banco a comer sorvete. Uma está lambendo, outra está chupando e a terceira está mordendo. Qual delas é a casada?

A professora fica vermelha, mas responde, timidamente:
- A que está chupando?

- Não, a casada é a que tem a aliança no dedo, mas eu também gosto da sua maneira de pensar...

15/09/2010

AEG na Suíça

Apertado pelos acontecimento de Setembro, em Maputo, o Grande Armando parte para uma visita "istoupidir" à Suíça.

Numa reunião com o Presidente da Suíça, o presidente moçambicano Armando Emílio Guebuza “AEG” apresentou-lhe os seus ministros:

- Este é o ministro da Saúde, este é o ministro dos Negócios Estrangeiros, esta é a ministra da Educação, este é o ministro da Justiça, este é o ministro das Finanças... etc...etc...etc...

Chegou a vez do Presidente da Suíça:

- Este é o Ministro da Saúde, este é o Ministro dos Desportos, este é o da Educação, este o da Marinha ...

Nessa altura, com ar emproado, Armando Guebuza, começou a rir:

- Ha! Ha! Ha!.... Para que é que vocês têm um Ministro da Marinha se o vosso País não tem mar?

O Presidente da Suíça, com o ser ar digno, respondeu:

- Não seja inconveniente. Quando você apresentou os seus ministros da Educação, da Justiça, da Saúde e das Finanças, eu também não me ri.

14/09/2010

O que pensa Prakash Ratilal

Ponto de vista do economista Prakash Ratilal (*) em exclusivo ao “Notícias” de Maputo
suplemento "Economia e Negócios" de 10 Setembro de 2010

Ganhou-se um espaço para restabelecer a vida

1 - Quais os impactos das medidas do Governo, vistas do lado do sistema financeiro
      Prakash Ratilal (PR) - Não possuo instrumentos para, em tão pouco tempo, avaliar os impactos destas medidas de emergência no sistema financeiro, em resposta a acontecimentos de elevada gravidade social e política. Depois de mortes e feridos, destruição de activos privados e bens públicos, o Governo reconsiderou algumas medidas que, se tivessem sido implementadas como preconizadas, iriam prejudicar a já depauperada vida das populações mais vulneráveis. Pela reacção das pessoas e dos media parece ser consensual que as medidas anunciadas pelo Governo no dia 7 de Setembro trouxeram algum alívio imediato para toda a sociedade, mesmo que transitório. Ganhou-se um espaço de tranquilidade para restabelecer a normalidade da vida. Isso facilita a busca de soluções para os sérios problemas que o País enfrenta.

Estas são algumas das disfunções que carateriza o nosso País. Isto não é novo, nem surgiu nos últimos anos. O diagnóstico já foi feito há muitos anos. A agravar esta situação, o pouco que se produz, não é distribuido equitativamente. As desigualdades, principalmente nas cidades, cresceram de forma alarmante. Não havendo mecanismos de prevenção, o nosso Pais que é admirado no mundo inteiro como caso de sucesso contínuo, e as estatísticas assim o demonstravam, de um dia para outro descambou! E a violência ressurgiu.
Na minha opinião, os problemas que o País enfrenta são de natureza estrutural: (i) todos os anos registamos défices substanciais na balança de pagamentos, o que significa que o País importa muito mais do que exporta e (ii) as despesas do Estado são sistematicamente superiores `as receitas próprias. É conhecido o facto de que cerca de metade das despesas do Estado é paga pelos parceiros internacionais, muitos dos quais vivem a sua própria crise – alguns deles apertaram de tal forma os respectivos cintos que poderá suceder que não consigam continuar a dar o seu apoio solidário ao nosso País.
Alguns governos europeus deliberaram que os seus membros de Governo circulem nos transportes públicos e viagem na classe económica. No nosso País, estes desequilíbrios sucedem-se ao longo dos anos porque o sector produtivo está a produzir muito pouco. De facto, o nosso País está a consumir mais do que efectivamente está a ser produzido. Apesar de recursos naturais que possui, a economia é caracterizada por comércio que importa grande parte do que consome. Ao consumirmos de outros países contribuímos objectivamente para a geração de emprego noutros Países.

      As estatísticas que são essenciais aos diversos instrumentos de análise, muitas vezes são enganadoras. Com efeito, a média estatística de 2 pessoas que comem 2 pães por dia, dá um pão per capita, ou seja, em média cada um come um pão por dia. Se um deles come 1 pão e meio, o outro come apenas meio pão, mas a média estatística continua a dizer que cada um come um pão por dia. E, se um deles comer um pão e três quartos, o outro apenas come um quarto de pão, mas a estatística continua a registar que em média cada um come um pão por dia. Não é difícil imaginar o que sucederá num ambiente de ganância extrema e de falta de moderação, quando um deles come 2 pães.... A estatística continua certa, não está errada, mas a sua interpretação indevida pode conduzir a situações graves como aquela que sucedeu na semana passada.

      Alguns, menos precavidos, sem se certificarem se os indicadores reflectiam a dinâmica da sociedade, usaram e abusaram destas estatísticas e divulgaram os resultados médios como constituindo sucesso inquestionável, que se iria repetir indefinidamente. Ora, por detrás das estatísticas, há as pessoas, há os activos, há os actores económicos, sociais e culturais, há os interesses diversos, por vezes contraditórios, há os constrangimentos, há as limitações, há a dinâmica de grupos e a da sociedade. Ora, perante o excessivo aperto, os mais frágeis, os que nada tinham a perder, elevaram bem alto o seu grito, reagindo contra a subida do preço dos bens essenciais. E reclamaram contra a subida de 1 metical por pão. Isso corresponde a menos de 3 cêntimos do dólar, um montante certamente desprezível nos padrões ocidentais, mas no nosso País é a dimensão real da nossa pobreza, da nossa fragilidade, é o limiar da nossa vulnerabilidade.

De forma recorrente, muitos economistas, diversos empresários e outros profissionais têm-se referido a estes desequilíbrios estruturais na economia, que aflige a todos. Esta situação foi profundamente debatida e tratada na Agenda 2025 que, infelizmente, foi relegada para terceiro plano. Na minha opinião, o que se passou agora e anteriormente em 5 de Fevereiro, exige uma reflexão profunda e um amplo consenso sobre os caminhos a seguir. Na sequência, será necessária uma forte intervenção do Estado como indutor do desenvolvimento, principalmente no fomento da produção, da produtividade e da melhoria da circulação de bens. Naturalmente que, para assegurar o equilíbrio e a coesão social, a partir de agora, para além de anunciar as variações do PIB e de outras grandezas macroeconómicas é imperativo analisar com regularidade a estrutura do Rendimento Nacional, ou seja como se forma e como se distribui o rendimento nacional pelas empresas, pelas famílias ....  pelos cidadãos.

Sabe-se que o busílis está na microeconomia que está a funcionar com imensas dificuldades e inúmeros constrangimentos, externos e internos. E, ao longo dos anos, não se têm visto resultados palpáveis neste segmento. Daí o crescimento espectacular do sector informal, que ao não pagar impostos, atrofia ainda mais o funcionamento da economia. Sei que, ao defender maior papel interventor do Estado na superação das falhas do mercado, e como promotor do desenvolvimento, estou a remar contra alguns que defendem as ideias do neoliberalismo, puro e duro. A verdade é que as suas receitas neoliberais falharam redondamente em Moçambique, e também em muitíssimos outros países. Daí que depois de muitos bilhões de dólares injectados na economia moçambicana, esta continua atolada com os desequilíbrios referidos. Todos estamos de acordo com as regras de disciplina e controle orçamental, dos câmbios flexíveis, do controle da emissão monetária e de outros elementos essenciais que sustentam os fundamentos de uma economia. Contudo, os desafios presentes exigem que tenhamos coragem para irmos mais longe. Juntos podemos encontrar novos caminhos que promovam maior sustentabilidade ao nosso País, que sabemos possuir imensos recursos.

Dadas as condições históricas em que vivemos e a realidade presente, em minha opinião, devemos buscar novos caminhos de desenvolvimento. Caminhos estratégicos, que sejam o mais possível consensual, abrangente e inclusivo. Mas isso implica maior diálogo, diálogo competente, diálogo efectivo que produza resultados. Isso requer juntar muitas cabeças válidas que também amam Moçambique. E os parceiros de desenvolvimento devem apoiar estas mudanças que a economia requer e que nos conduzam a gradualmente superar estes desequilíbrios estruturais.

Se o setor privado é a força principal para estas mudanças então que esta seja apoiada substantivamente, sem complexos e com base nas competências e no mérito. Se a prioridade é a agricultura e dentro desta a produção de alimentos, então que seja este sector a receber amplos recursos financeiros e capacidades disponíveis. Se o crédito bancário para o sector agrícola decresceu drasticamente e apenas corresponde a 9% do crédito total, os recursos financeiros disponíveis para este sector têm que ser incrementados substancialmente. Se os bancos não podem fazer melhor devido aos riscos associados à produção agrária, é preciso encontrar a solução. Continuo a não entender porque não se estudam as vantagens e os inconvenientes de se implantar um banco de desenvolvimento, gerido profissionalmente e sem interferência política, com foco na alavancagem do processo produtivo e na modernização das pequenas e médias empresas. Estes bancos de desenvolvimento, operando através de bancos comerciais e de outros agentes financeiros, são a base do sucesso do Brasil, da África do Sul, da Malásia, da Indonésia e de tantos outros países. Este instrumento, a par de outros de requisitos institucionais e de políticas públicas associadas parecem-me centrais no sucesso da microeconomia.

2 - Que resultados se podem esperar do lado das empresas neste conjunto de medidas. Por exemplo empresas de produção alimentar, por um lado e, por outro lado, empresas produtoras de diversos bens e serviços?
PR. Tanto quanto percebi, as medidas anunciadas não se traduzem em acções que, por si só, irão vitalizar a produção de alimentos. Anteriormente, referi que a economia moçambicana enfrenta sérios desequilíbrios estruturais que nem a implementação, em anos sucessivos, das políticas sugeridas pelo FMI e pelo Banco Mundial conseguiram reverter.

Ora, problemas estruturais requerem soluções estruturais. A situação é tão difícil que não me parece que haja remédios milagrosos. O petróleo no mercado internacional apesar de estabilizado no patamar à volta dos US$ 70 por barril ainda é bastante alto para as capacidades financeiras do nosso País, e o preço do petróleo pode voltar a subir ainda mais. Igualmente, não possuímos controle do preço do trigo nem do arroz, nem dos diversos produtos que importamos.

Eu poderia ser simpático e colorir a situação, mas sendo honesto acho que não se deve escamotear. A situação real é difícil. A saída dela requer esforço conjunto e exige diagnóstico fiável. Por isso, falar verdade é uma exigência, para o bem de todos, para o bem do nosso País. As soluções para os problemas imediatos passam por serem tomadas medidas políticas e institucionais concretas e adequadas, conducentes ao crescimento da produção e da produtividade.

Na minha opinião, e já tenho dito e escrito reiteradas vezes, a luta contra a pobreza não deve continuar exclusivamente a ser feita através da distribuição gratuita de bens sociais por via da educação e da saúde e dos serviços sociais. Para ser sustentável, creio que a luta contra a pobreza tem que ser efectuada em simultâneo com a geração da riqueza, da criação do emprego e do auto-emprego. Há um ditado que diz: “não dê peixe, dê cana e ensine a pescar”.

A manutenção do emprego e a geração de novos empregos é também o maior problema de hoje da Administração Obama nos EUA e nos países europeus. Nos EUA assiste-se a um crescimento, embora modesto, mas o desemprego não tem diminuído, permanece a patamares elevadíssimos superiores a 15%. O controle do défice público e  criação de emprego constituem a prioridade maior da sua política económica. Idem para a Europa.

Criar mais emprego e auto-emprego parece-me ser o único caminho para tornar o nosso País sustentável, para gradualmente reduzirmos a excessiva dependência que temos de donativos que generosamente nos são oferecidos pela comunidade internacional. Por isso, trata-se de ajustar o modelo económico para suprir o que ainda não se efectua. E isso, levará tempo a maturar e a gerar resultados palpáveis. É evidente que não se trata de começar do zero. O País existe, há progresso visível em muitas áreas particularmente nas infraestruturas e nos grandes projectos de desenvolvimento no sector da energia e de minas. O futuro de longo prazo é certamente promissor, é brilhante. Mas, para as famílias e para os agentes económicos o que mais conta é o dia-a-dia e o curto prazo.

Pode-se estimar que ao longo de um período transitório mais ou menos longo, poderão eventualmente ocorrer outras convulsões sociais, na medida em que não parece possível, no curto prazo, reverter a pobreza e satisfazer as necessidades crescentes da população. Quaisquer medidas, mesmo se implementadas nos próximos meses, só irão gerar efeitos e resultados concretos, a médio e a longo prazo. Creio que todos devemos assumir esta realidade. Apesar desta possibilidade sombria ainda pairar sobre nós é preciso agir com determinação para reverter a situação.

Neste quadro, ao eliminar o espetro de uma crise social e política aguda, o  Governo passou a ser percebido como estando a defender o interesse público e o interesse nacional.

Ao conter as regalias dos dirigentes superiores do Estado, ao dar sinais de que se pretende eliminar o fausto e o supérfluo, o Governo assumiu compromissos de praticar a austeridade e a poupança o que é fundamental neste tempo de ´vacas magras´. Embora o corte nas mordomias e de outras despesas faustosas do Estado não contribuam significativamente para a alteração qualitativa da vida das populações, constitui um exemplo de moralização do poder, de maior responsabilidade e rigor no uso de fundos do orçamento de Estado, parte dos quais são provenientes do exterior. Efectivamente um poder austero engrandece os seus titulares e facilita o diálogo com os demais actores sociais e económicos que enfrentam carências.

O povo moçambicano, nos sucessivos anos da guerra, na época do carapau e da couve, enfrentou imensas carências e aceitou fazer imensos sacrifícios. Mas vigorava um ambiente de menor desigualdade social, havia uma percepção generalizada de que os dirigentes e os demais representantes do Estado eram impolutos e se preocupavam com as condições de vida das populações. Na minha óptica, o exemplo agora demonstrado pelo nosso Governo, que é de louvar e de incentivar que se continue, fortalece o poder dos representantes do Estado, e é fundamental para atravessarmos este período de transição até que os resultados de uma acção profunda e concertada gerem resultados abrangentes. Resultados palpáveis no sector produtivo, em particular na produção alimentar competitiva. Enfatizo a palavra competitiva, pois não devemos produzir a preços e qualidade muito diferente daqueles que o mercado mundial nos fornece, em condições de mercados cada vez mais abertos à escala mundial.

3 - Influentes círculos de opinião advogam estarmos em presença de medidas não sustentáveis e de fórum eminentemente políticas. Onde o Governo vai buscar o dinheiro para cobrir subsídios?
PR: Ninguém possui uma varinha mágica. Nem o Estado possui recursos excedentários. Alguns projectos irão sofrer atrasos na sua implementação, os seus fundos serão desviados para se acorrer a estes subsídios. Ou o Estado poderá recorrer a empréstimos para custear o défice público, Cada ano, os custos de juros irão aumentar, reduzindo ainda mais a capacidade de o Estado realizar despesas para sectores como educação e a saúde. Se o preço do petróleo subir demasiadamente à escala mundial (e isso vai acontecer logo que se verificar a retoma da economia mundial) admito que o orçamento do nosso Estado poderá não ter fundos para subsidiar os preços internos.

Nestas condições o que fazer? Será forçoso aumentar os preços internos e provavelmente sem subsídios. Qual então a saída? Só vejo uma: agir para fazer crescer a produção e a produtividade. E porque é que esta não cresce apesar de apelos constantes neste sentido? É porque há imensos obstáculos técnicos, institucionais, incoerência nas políticas e regulamentos, há imensa burocracia, há elevados custos de transação que encarecem a acção produtiva, os processos judiciais são longos. Isso tudo impede que a produção aconteça no tempo e na qualidade requerida. Mas, apesar de não haver produção interna, o consumo interno não deixa de se realizar. Como consequência, aumenta a aquisição de bens no estrangeiro. Ao sermos consumidores de produtos estrangeiros, estamos a contribuir para criar emprego noutros países. O que fazer, então, para se produzir internamente e se criar emprego no País? Não possuo respostas sozinho. Não creio que alguém por si só tenha respostas para superar a presente situação e criar condições de sustentabilidade social e económica.

As medidas recentes do Governo criaram um espaço de tranquilidade e de relativa paz social que permite uma reflexão alargada e para a busca de soluções. O sentido de Estado e a humildade com que o Governo anunciou as medidas que o Povo aclamou, faz-me crer que se vai prosseguir no sentido de se ampliar o debate interno, principalmente no plano científico, técnico e profissional, para juntos  encontrarmos os caminhos a serem trilhados.

A direção parece clara: continuar a cortar nas mordomias e noutras despesas faustosas do Estado e investir nos motores do desenvolvimento: a ciência, a tecnologia e a inovação e estímulos para criação de mais competências, infraestruturas comerciais e gerar produção competitiva (capazes de produzirem mais do que custam), concentrar acções nos sectores que criam mais emprego e aumentam as exportações. Parece-me claro que os recursos e o esforço essencial deve ser canalizado para viabilizar a produção competitiva: conceber programas de apoio às acções de empreendedorismo e de auto-emprego, criar incubadoras para novas empresas saberem lidar com o mercado, conceder incentivos fiscais, assegurar flexibilidade laboral, estímulos para ensino técnico-profissional e formação e mais formação como nunca.

Creio que se deve assumir que qualquer acção profunda que seja empreendida a partir de agora só irá gerar resultados essencialmente a médio e longo prazos. Com a globalização fica cada vez mais claro que nenhum governo pode enfrentar sozinho os desafios que se colocam à sua frente. Precisa de fazer alianças e construir parcerias com os vários segmentos da sociedade, designadamente com os institutos de investigação, com a sociedade civil, com os intelectuais, com os media, com as associações socioprofissionais e com todos os outros que, sendo nacionais, contribuam para traçar os passos seguintes nos caminhos do progresso. Reflectir sobre a superação dos obstáculos ao crescimento da produção requer envolvimento de muitos para gerar competência específica. Amplo consenso pode não resolver todos os problemas, mas pelo menos haverá muito mais gente a contribuir para concretizar os caminhos traçados de forma inclusiva, e com maior competência nacional. Estou a ler um livro que refere que o presidente Sarkozy da França designou uma Comissão presidida por Jacques Attali (ex-Conselheiro do Presidente Miterrand) para apresentar propostas que eliminem os obstáculos ao crescimento económico. Ora, isto sucede na 4ª ou a 5ª economia mundo...

Na minha modesta opinião, parece-me fundamental juntar o máximo possível das competências nacionais. Por isso, acho oportuno e pertinente que as melhores cabeças moçambicanas, os institutos de pesquisa, pessoas experimentadas e credíveis, sejam convocadas no âmbito nacional para juntos produzirem as ideias que seriam transformadas em políticas e projectos de acção imediata para impulsionar a microeconomia. Não se trata de elaborar teses ou tratados de economia. Trata-se de canalizar ideias, iniciativas e projectos que, devidamente harmonizadas pelo Governo, sirvam de alavanca para um salto qualitativo na produção e produtividade no nosso País.

A qualidade técnica e profissional da liderança deste grupo e seu peso na sociedade moçambicana, trabalhando em estreita coordenação com o Governo, certamente que iria prestar um contributo inestimável ao País porque as suas recomendações terão efeitos em anos vindouros.

E, com devido respeito aos especialistas das instituições respeitáveis de Bretton Woods, e aos diversos centros de cooperação dos doadores/parceiros da cooperação, cuja atitude é muito generosa e de grande utilidade, isso em si não significa, substituir-se aos moçambicanos. Acho que os nossos parceiros devem dar espaço maior aos especialistas e técnicos moçambicanos, que conhecem o País, possuem experiências e saberes e que, mesmo plano internacional, demonstram possuir elevado gabarito.

4 - O Dr. tem se pronunciado várias vezes e publicamente sobre a crise financeira internacional. O que pesa mais na presente situação de Moçambique. Serão factores internos ou externos? Não terão sido subestimados os efeitos da crise?
PR: O que se está a passar ao nível mundial é extremamente grave. A crise internacional iniciada nos finais de 2008, gerou efeitos directos na inflação e nas taxas de câmbio à escala mundial, e no crescimento económico dos países. Moçambique não escapou da crise: o efeito mais pernicioso foi o da deterioração do défice da balança comercial e de transacções correntes em 2009, por via da redução das exportações, por causa da queda importante nos preços do mercado internacional, e da sua procura em quantidade; outro efeito negativo, a queda dos fluxos de capitais privados estrangeiros, apenas seguiu a tendência iniciada no ano anterior, em 2008.

O Dr. Dipac Jaiantilal, na sua entrevista ao Savana na semana passada, refere que “há efeitos importantes da crise internacional nas nossas exportações, mas a recente alta de preços e desvalorização rápida não se devem a essencialmente aos efeitos desta crise. Pelo contrário, o pressuposto para as mudanças recentes de política macroeconómica pelas autoridades e o FMI foi precisamente que a crise internacional já estaria a passar”.

Nem todos os economistas à escala mundial estão de acordo que estamos no fim da crise internacional. P. Krugman e J. Stiglitz ambos prémios Nobel de economia e outros economistas de renome prevêem cenários internacionais de curto prazo de tipo W, ou de dupla recessão, intermediadas por melhorias temporárias, e provavelmente uma sequência de múltiplas recessões.

Assistem-se sinais de sérias perturbações no mercado imobiliário americano e no mercado laboral no qual o desemprego não está a decrescer apesar das centenas de biliões de dólares injectados na economia. Os EUA reviram em baixa o crescimento do último trimestre para 1.6%, o que é insuficiente para reduzir o desemprego que continuava em dois dígitos. Na tentativa de defender a zona do Euro, economistas divergem quanto às políticas de rigor e disciplina orçamental, de redução da dívida pública interna que os países Europeus estão a levar a cabo e que podem agravar a crise. Outros economistas defendem que não se deve continuar a manter indefinidamente as politicas expansionistas da administração americana, por isso gerar o crescimento insustentável da dívida pública interna e consequentemente maiores recursos financeiros para gastos públicos e menos para a produção. Países da União Europeia vivem momentos difíceis, em particular nos chamados PIIGS – Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. O Japão continua estagnado. Única excepção é o que esta a acontecer nos países “emergentes” como a China, Índia e o Brasil que mantêm elevadas taxas de crescimento e possuem excedentes consideráveis nas suas balanças de pagamento.

Enquanto não se verificar a retoma nesses países industrializados, que geram repercussões no resto das economias do mundo, economistas moçambicanos abalizados veem com muita apreensão o cenário de curto e médio prazo da economia moçambicana, não apenas pelos efeitos nefastos do prolongar da crise mundial como também pela excessiva depreciação da moeda nacional, sem que haja recursos alternativos. Isso é agravado pelo ambiente de crispação que ainda se sente com os principais doadores e financiadores da nossa economia.

Na saída da nossa crise, é fundamental restabelecer a confiança na moeda nacional através da sua rápida estabilização. Medidas monetárias e cambiais descontextualizadas e não acompanhadas por medidas na economia real poderão gerar efeitos distorcidos. A aposta continua a ser na estruturação e apoio contínuo e consistente aos diversos sectores produtivos. As micro, pequenas e médias empresas possuem imensas reservas para sustentar o rápido crescimento da produção nacional e das exportações. Sem crescimento das empresas nacionais será difícil sustentar o tecido económico do País e assegurar o emprego de forma crescente. O ímpeto da juventude deve ser canalizado para actividades produtivas, para a geração do emprego e do auto-emprego.

No plano regional devemos, em minha opinião, acelerar os passos para uma maior integração regional, em condições de interdependência, assegurar maior circulação de capitais, maior facilidade de circulação de pessoas e bens. Isso também faz crescer a produção. Não sei se não seria altura oportuna para relançar o debate sobre o apoio aos nossos emigrantes (há países cujas receitas principais em divisas provêm dos seus cidadãos residentes no estrangeiro) e o debate acerca de uma política selectiva de imigração. Tudo isto e muito mais coisas que não cabem nesta entrevista, contribui para o aumento da produção e da produtividade.

Assim, a responsabilidade para assegurar a  paz e a tranquilidade social no nosso País  compete ao Governo, aos partidos e à sociedade civil , em diálogo permanente e efectivo e ampla consulta às respectivas constituências. Estas organizações e cada um de nós têm um papel central na educação civica e patriótica, no respeito dos bens públicos e privados, que garantem adequada convivência e harmonia social.

(*) empresário e banqueiro do MozaBanco, antigo presidente de bancos do Estado moçambicano e simpatizante do MRPP antes do 25 de Abril

13/09/2010

Primeiro dia de aulas

Hoje, é primeiro dia dia de aulas em muitas escolas de Portugal.

A professora, faz a chamada:

- Mustafá El-Ekhseri ?????.???             - Presente!
- Obamba Moluni ??????...?.....              - Presente!
- Achmed El-Cabul ????.?.??.                - Presente!
- Evo Menchú ???????..?.?..                   - Presente!
- Yao Ming Chao ????????...                  - Presente!
- Al Ber Tomar Tinsdi-As ??? ........         Ninguém responde
- Al Ber Tomar Tinsdi-As...., volta a repetir a professora algo aborrecida..


........... Ninguém responde.

- Pela última vez: Al Ber Tomar Tinsdi-As",diz a professora bastante exaltada.

De repente levanta-se um miúdo e diz:
"Devo ser eu professora, mas pronuncia-se: Alberto Martins Dias"
 

12/09/2010

O povo está zangado

A jornalista Sofia Lorena, do jornal português «Público», tem feito excelentes reportagens sobre a revolta popular em Maputo, Moçambique, que explodiu a 1 de Setembro.

A edição de 12 de Setembro é acompanhada da revista «Pública» na qual, mais uma vez, há um excelente artigo sobre o evidente "divórcio" entre a população e a camarilha guebuzina.

Vejamo o que escreve sobre Azagaia:
"É com a sua camisola de malha e riscas claras, calças bege e ténis Converse pretos que conta a sua aventura angolana em Dezembro, quando 6000 pessoas gritaram Zedu, a abreviatura de José Eduardo dos Santos, no meio das suas letras de crítica social. “A música Combatentes da Fortuna tem um coro que só faço ao vivo, onde pergunto ‘Quem vendeu a minha pátria?’ E no meio, eles respondiam ‘Zedu, Zedu’. A seguir cantei A Marcha, que diz ‘Ladrões fora, corruptos fora, assassinos fora’, enquanto eles diziam ‘Zedu fora, Zedu fora, Zedu fora’.


Percebe-se, então, que o povo moçambicano quer dizer "AEG fora, AEG rua" (a abreviatura para o Grande Armando).

Excelente reportagem, portanto! E a não perder (aqui).

O Mundo, conforme Casciari

Li uma vez que a Argentina não é nem melhor, nem pior que a Espanha, só que mais jovem. Gostei dessa teoria e aí inventei um truque para descobrir a idade dos países baseando-me no 'sistema cão'. Desde meninos nos explicam que para saber se um cão é jovem ou velho, deveríamos multiplicar a sua idade biológica por 7.

No caso de países temos que dividir a sua idade histórica por 14 para conhecer a sua correspondência humana. Confuso? Neste artigo exponho alguns exemplares reveladores.

A Argentina nasceu em 1816, assim sendo, já tem 190 anos. Se dividimos estes anos por 14, a Argentina tem 'humanamente' cerca de 13 anos e meio, ou seja, está na pré-adolescência. É rebelde, se masturba, não tem memória, responde sem pensar e está cheia de acne.

Quase todos os países da América Latina têm a mesma idade, e como acontece nesses casos, eles formam gangues. A gangue do Mercosul é formada por quatro adolescentes que tem um conjunto de rock. Ensaiam em uma garagem, fazem muito barulho, e jamais gravaram um disco.

A Venezuela, que já tem peitinhos, está querendo unir-se a eles para fazer o coro. Em realidade, como a maioria das mocinhas da sua idade, quer é sexo, neste caso com Brasil que tem 14 anos e um membro grande.

O México também é adolescente, mas com ascendente indígena. Por isso, ri pouco e não fuma nem um inofensivo baseado, como o resto dos seus amiguinhos. Mastiga coca, e se junta com os Estados Unidos, um retardado mental de 17 anos, que se dedica a atacar os meninos famintos de 6 anos em outros continentes.

No outro extremo, está a China milenária. Se dividirmos os seus 1.200 anos por 14 obtemos uma senhora de 85, conservadora, com cheiro a xixi de gato, que passa o dia comendo arroz porque não tem - ainda - dinheiro para comprar uma dentadura postiça. A China tem um neto de 8 anos, Taiwan, que lhe faz a vida impossível. Está divorciada faz tempo de Japão, um velho chato, que se juntou às Filipinas, uma jovem pirada, que sempre está disposta a qualquer aberração em troca de grana.

Depois, estão os países que são maiores de idade e saem com o BMW do pai.

Por exemplo, Austrália e Canadá. Típicos países que cresceram ao amparo de papai Inglaterra e mamãe França, tiveram uma educação restrita e antiquada e agora se fingem de loucos.

A Austrália é uma babaca de pouco mais de 18 anos, que faz topless e sexo com a África do Sul. O Canadá é um mocinho gay emancipado, que a qualquer momento pode adoptar o bébé da Groenlândia para formar uma dessas famílias alternativas que estão de moda.

A França é uma separada de 36 anos, mais puta que uma galinha, mas muito respeitada no âmbito profissional. Tem um filho de apenas 6 anos: Mónaco, que vai acabar virando puto ou bailarino... ou ambas coisas. É a amante esporádica da Alemanha, um caminhoneiro rico que está casado com a Áustria, que sabe que é chifruda, mas que não se importa.

A Itália é viúva faz muito tempo. Vive cuidando de São Marino e do Vaticano, dois filhos católicos gémeos idênticos. Esteve casada em segundas núpcias com Alemanha (por pouco tempo e tiveram a Suíça), mas agora não quer saber mais de homens. A Itália gostaria de ser uma mulher como a Bélgica: advogada, executiva independente, que usa calças e fala de política de igual para igual com os homens (a Bélgica também fantasia de vez em quando que sabe preparar esparguete).

A Espanha é a mulher mais linda de Europa (possivelmente a França se iguale a ela, mas perde espontaneidade por usar tanto perfume). É muito tetuda e quase sempre está bêbada. Geralmente se deixa foder pela Inglaterra e depois a denuncia. A Espanha tem filhos por todas as partes (quase todos de 13 anos), que moram longe. Gosta muito deles, mas a perturbam quando têm fome, passam uma temporada na sua casa e assaltam sua geladeira.

Outro que tem filhos espalhados no mundo é a Inglaterra. Sai de barco de noite, transa com alguns babacas e nove meses depois, aparece uma nova ilha em alguma parte do mundo. Mas não fica de mal com ela. Em geral, as ilhas vivem com a mãe, mas a Inglaterra as alimenta.

A Escócia e a Irlanda, os irmãos da Inglaterra que moram no andar de cima, passam a vida inteira bêbados e nem sequer sabem jogar futebol. São a vergonha da família.

A Suécia e a Noruega são duas lésbicas de quase 40 anos, que estão bem de corpo, apesar da idade, mas não ligam para ninguém. Transam e trabalham, pois são formadas em alguma coisa. Às vezes, fazem trio com a Holanda (quando necessitam maconha, haxixe e heroína); outras vezes cutucam a Finlândia, que é um cara meio andrógino de 30 anos, que vive só em um apartamento sem mobília e passa o tempo falando pelo celular com Coreia.

A Coreia (a do sul) vive de olho na sua irmã esquizóide. São gémeas, mas a do Norte tomou líquido amniótico quando saiu do útero e ficou estúpida. Passou a infância usando pistolas e agora, que vive só, é capaz de qualquer coisa. Estados Unidos, o retardadinho de 17 anos, a vigia muito, não por medo, mas porque quer pegar as suas pistolas.

Irão e Iraque eram dois primos de 16 que roubavam motos e vendiam as peças, até que um dia roubaram uma peça da motoca dos Estados Unidos e acabou o negócio para eles. Agora estão comendo lixo. O mundo estava bem assim até que, um dia, a Rússia se juntou (sem casar) com a Perestroika e tiveram uma dúzia e meia de filhos. Todos esquisitos, alguns mongolóides, outros esquizofrénicos.

Faz uma semana, e por causa de um conflito com tiros e mortos, os habitantes sérios do mundo descobriram que tem um país que se chama Kabardino-Balkaria. É um país com bandeira, presidente, hino, flora, fauna... e até gente! Eu fico com medo quando aparecem países de pouca idade, assim de repente. Que saibamos deles por ter ouvido falar e ainda temos que fingir que sabíamos, para não passarmos por ignorantes.

Mas aí, eu pergunto: por que continuam nascendo países, se os que já existem ainda não funcionam?

Hernán Casciari
Hernán Casciari nasceu em Mercedes (Buenos Aires), a 16 de Março de 1971. Escritor e jornalista Argentino. É conhecido por seu trabalho ficcional na Internet, onde tem trabalhado na união entre literatura e blog, destacado na blognovela. Sua obra mais conhecida na rede, 'Weblog de una mujer gorda', foi editada em papel, com o título: 'Más - respeto, que soy tu madre'.

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11/09/2010

Dicionário

Michaëlis: Ultra-Moderno Dicionário da Língua Portuguesa

So.cra.te.ar

elem comp (lat solu + gr -kratés + ear) 1. Ocultar ou encobrir com astúcia e má-fé; disfarçar com cinismo. 2. Não dar a perceber, esconder, calar. 3. Fingir, simular inocência. 4. Usar a dissimulação; proceder com fingimento, hipocrisia. 5. Desviar o assunto; fugir das responsabilidades. 6. Fazer recair as culpas nos amigos (mesmo que familiares) mais próximos. 7. Negar despudoradamente as evidências. 8. Defraudar, iludir; praticar técnicas de banha-da-cobra. 9. Afirmar coisa que sabe ser contrária à verdade, fazendo crer que os fins justificam os meios. 10. coloquial : sacanear.

10/09/2010

Frente e verso

Para alívio do governo português, o campeonato de futebol - a liga -  já começou.

O fanatismo está de regresso e os incendiários mudaram de zona de atuação: agora, nos campos (de batalha) de futebol.

09/09/2010

Ainda vi outro caracol mas ele fugiu

Não só a educação é injusta como a justiça tem falta de educação. Esta semana tem sido quente (politicamente) com notícias, que a todos surpreendem, tanto na educação como na justiça.

Não leio folhetins nem vejo telenovelas. Por isso, não sei o que se passa no caso Casa Pia nem na confusão do Freeport. Nunca li nada sobre esses assuntos, para além de cabeçalhos, porque sabia que seria apenas uma parte da verdade, na melhor das hipóteses.

Mas, como estamos no Verão, desta vez li os resumos da imprensa sobre a decisão no caso Freeport. E lembrei-me de uma história de infância que rezava assim: uma mãe manda o seu filho, que era muito preguiçoso, apanhar caracóis. Ao fim da tarde ele aparece com apenas dois caracóis. Só dois!, disse a mãe. Ao que o filho replicou, eu ainda vi outro mas ele fugiu. Esta história lembra a decisão da Procuradoria sobre a falta de tempo para fazer perguntas a políticos. É assim que o povo a vê. Estou certo que as pessoas envolvidas estão acima de qualquer suspeita, mas o prestígio da justiça deu mais um trambolhão aos olhos de todos. E eu a pensar que tal seria impossível.

Há cerca de um ano a SEDES fez uma avaliação da qualidade da democracia e, para minha surpresa e angústia, a imagem da justiça parecia não poder ser pior. Uma justiça desprestigiada é sempre uma má justiça. Porque se não acreditamos na independência política dos seus agentes, se não acreditamos que ela é independente de interesses e se não acreditamos que a justiça é igual para ricos e pobres ou poderosos e fracos, então, está em causa o simples exercício da cidadania, é a vida democrática que é afectada. E os exemplos são sintomáticos.

É desumano deixar uma pessoa durante anos num limbo de culpabilidade sem nada acontecer. Se é um político, ainda tem algum benefício da dúvida perante a opinião dos amigos e conhecidos. Há sempre a ideia de que interesses partidários estão envolvidos. Mas ao simples cidadão tal pode acontecer, sem apoios de um partido político e sem dinheiro para se defender; e é uma verdadeira tortura psicológica durante anos. É infame.

Saberemos que a justiça em Portugal um dia funciona, se ninguém se lembrar do nome do procurador. Enquanto tal não acontecer, significa que a justiça não é justa.

A educação - outro problema calamitoso - também não deu boas notícias com a perspetiva do fim das reprovações. Há uns meses, numa conferência em S. Francisco na Califórnia, um professor americano já reformado, que escreveu muito sobre Espanha e também sobre Portugal, perguntou-me qual a razão dos maus resultados do ensino nacional. Depois de uma longa conversa em que mostrei que os recursos financeiros, humanos e materiais eram dos melhores da Europa, os resultados brilhavam pela ausência. A finalizar disse-lhe que boa parte da culpa também era deles, americanos. Perante a surpresa expliquei-lhe que no final dos anos sessenta (ou princípios de setenta) um ministro da Educação tivera a ingenuidade de mandar umas dezenas de pessoas estudar "ciências da educação" nos Estados Unidos. Ele interrompeu-me perguntando: não me diga que foram para Boston. Exatamente, disse-lhe. O meu amigo respirou fundo e calmamente concluiu: então, o caso é mesmo muito grave.

E é, de facto, muito grave. A filosofia das escolas de educação está patente há muitos anos na abordagem ao ensino em Portugal e os resultados estão à vista. Estou certo que a intenção da ministra é a melhor; li a sua entrevista e ouvi atentamente muitas das explicações que se lhe seguiram e não advogou (explicitamente) o fim administrativo dos chumbos. Desejou apenas pôr à discussão; aqui fica o meu contributo.

As reprovações são necessárias e não se avaliam, principalmente, pelos efeitos que têm nos alunos que chumbam. As reprovações são úteis para os alunos que passam porque estudaram. É o prémio; é para evitar a vergonha da reprovação que os alunos se aplicam mais. Qualquer um de nós (incluindo eu próprio) se lembra que esteve, normalmente pelos 14 anos, à beira de chumbar e só não terá acontecido pelo esforço final para evitar o vexame. É a cultura de responsabilidade que está em causa.

Educar é preparar para a vida. Não conheço melhor definição de educação. Essa preparação é não só técnica e científica, mas também ética e cívica. É ser capaz de lidar com o stress, com a pressão temporal e até com a injustiça. É ser capaz de definir objectivos, trabalhar por eles e alcançá-los. E esperar o reconhecimento por isso. Os exames e os resultados com aprovações, reprovações e com notas de zero a vinte foram necessários e são importantes. Aguentar a pressão de um exame faz também parte da aprendizagem.

Na vida estamos sempre a aprender e estamos sempre a ser avaliados. Tal como devia ser na escola. Há duas grandes diferenças entre a escola e a vida. Na escola, primeiro temos a lição e depois o exame. Na vida primeiro temos o exame e só depois temos a lição se percebermos onde errámos. Em segundo lugar, na escola aprendemos à custa da experiência de outros; na vida aprendemos à nossa custa, à custa dos nossos erros. Por tudo isto é que a escola é o meio mais eficiente para nos preparar para a vida.

Nós, que somos pais, várias vezes ouvimos os nossos filhos queixarem-se da injustiça de uma avaliação. A minha resposta era sempre a mesma: fala com o professor e tenta apresentar as tuas queixas, mas se no fim ficar tudo na mesma, aprendeste que a injustiça existe e vais vê-la todos os dias no resto da tua vida. Aprendeste mais uma coisa.

Sem justiça não há cidadania nem vida democrática. Sem uma boa escola não há justiça social.

Hoje temos um ensino, porque laxista, mais injusto do que há 40 anos: os filhos dos mais pobres ficam condenados a serem pobres. Não sou especialista em educação e sei ainda menos de justiça. Mas sei ver os resultados. Da mesma forma que não sei cozinhar decentemente, mas sei apreciar uma boa refeição.

Luís Campos e Cunha, Professor universitário
in «Público», 06.08.2010


08/09/2010

Só vai à Lambada

Esta música continua a fazer sucesso e a trazer recordações do Verão.

07/09/2010

7 de Setembro

Há 36 anos, em 7 de Setembro de 1974, foi assinado o Acordo de Lusaka com o qual Portugal iniciou oficialmente a descolonização de Moçambique.

O processo não constituiu a "descolonização exemplar" que o MFA propagandeou. Na verdade, as Forças Armadas Portuguesas roçaram uma verdadeira traição que só é entendível à luz da estupidez salazarista-marcelista.

O MFA, Salazar e Caetano, conduziram Portugal ao abismo, à "grande bronca".

À época, o advogado Neves Anacleto, residente em Lourenço Marques, um dos mais ativos oposicionistas da ditadura, tornou-se igualmente um vivo denunciante da ditadura frelimista que se anunciava e que, mais tarde, esteve na origem da destrutiva guerra civil que se abateu sobre Moçambique. A denúncia está disponível aqui.

Na combinação do período 1974-75 e 1975-1992, morreram milhões de inocentes portugueses e moçambicanos.

Depois dos recentes acontecimentos dramáticos de 1 de Setembro, com intervenientes diferentes, há nítidas semelhanças das cenas, do caos, das vítimas. E a Frelimo a provar o mesmo veneno de que então se serviu!

Por mera curiosidade, destaque-se que António Neves Anacleto era o avô materno de Francisco Anacleto Louçã, trotskista, o mais oposto possível ao pensamento do seu avô.

06/09/2010

A prova que faltava

Que material irá neste camião da "Transkona Logistik"? Será isto uma evidência de tráfego de carne?

Seja o que for, uma prova obtida na Áustria.

05/09/2010

O fim do terror?

É preciso desconfiar sempre dos terroristas. E estes, são tenebrosos, fanáticos, terroristas puros.

Em todo o caso, a ETA sofreu um duro golpe com a prisão dos seus principais cabecilhas pelo que, pelo menos, haverá alguma esperança de que seja o fim do martírio dos bascos e dos espanhóis em geral.

Hoje, anunciou que não levará a cabo mais "ações armadas" na sua campanha pela independência para - esta é de rir - "pôr em marcha um processo democrático".

O Algarve sempre em obras

O calor de Verão aperta. A fome aperta. O trabalho aperta. A estupidez fica à sombra.

03/09/2010

O dia em que Portugal foi "notícia"

O juiz decide...

Foram dados como provados os crimes de todos os sete arguidos do processo Casa Pia. O facto destes crimes terem sido dados como provados não quer dizer que haja pena de prisão. Só no final da leitura do acórdão é que serão conhecidas as penas.

O arguido Carlos Silvino tem vários crimes já dados como provados relativos a oito jovens, tal como Carlos Cruz (três jovens), Hugo Marçal, Jorge Ritto (um jovem), Gertrudes Nunes, Ferreira Dinis (quatro jovens) e Manuel Abrantes (dois jovens). Os factos provados ocorreram em várias casas, incluindo a casa de Elvas e das Forças Armadas.

Entretanto, cai a acusação do crime de peculato relacionado com o arguido Manuel Abrantes, na altura dos factos provedor-adjunto da Casa Pia. Em relação a Hugo Marçal, não foram dados como provados crimes de abuso sexual de menores, apenas crimes de lenocínio.

O arguido Carlos Cruz continua sem querer prestar declarações e remete para uma conferência de imprensa num hotel de Lisboa.

in «RR», 03.09.2010

Socialismo Científico Marrabenta

Com Governo de Guebuza a vida dos moçambicanos tornou-se um mar de espinhos

A vida para a maioria esmagadora dos moçambicanos nunca foi um ‘mar de rosas’, mas agora é, seguramente, um ‘mar de espinhos’. Tudo subiu, menos o poder de compra. E, sem comida, o que se pode esperar de quem não tem nada a perder? O que se pode esperar de quem acreditou que se estava realmente a ‘combater a pobreza absoluta’ e agora viu que afinal ainda havia mais pobreza para além da que já sentia antes?

Evidentemente que só bom senso nos pode salvar. Mas, nesta altura, em que o “vinho já vai para vinagre, não retrocede o caminho; só por obra de milagre pode de novo ser vinho”, disse um dia o poeta português analfabeto, António Aleixo, em dias que em Portugal, o seu País, também governavam semelhantes autoproclamados insubstituíveis.

Do Governo em funções só podemos esperar mais asneiras. Umas atrás das outras que já vimos, foram suficientes para agora o país estar de rastos. Começou pelos combustíveis e vai agora em alta velocidade a caminhar para as obrigações de tesouro com o Estado já de calças rotas. Os próprios bancos não tardarão, a não emprestar dinheiro aos privados porque já emprestaram tudo ao Estado.

O cenário que nos envolve é esclarecedor. Tudo a subir de preço e cada vez menos dinheiro para comprar. Pior: as empresas de tão depauperadas estão sem maneira de pagar melhor. O pão subiu. O gasóleo ainda só está a dois cêntimos de 31 meticais o litro, em Maputo, Beira e Nacala. Em todo o país a promessa do governo aos transportadores, há muito que foi violada. Em Inhambane, por exemplo, um litro de gasóleo já está a 34,30 MT o litro. As moedas em que importamos as mercadorias valem hoje cerca de 40% mais, no caso do dólar americano, e mais de 100% mais, no caso do Rand. Por outras palavras o Metical vale menos 40% em relação ao dólar e vale metade em relação ao Rand comparativamente com o ano passado. Onde vão as promessas de Guebuza durante as eleições de 2009?

O país importa mais do que produz. Cada vez produz menos. As indústrias fecham umas atrás das outras. Os governantes estão mais virados para os seus negócios privados do que para governar. No Estado imputam os custos. Os familiares dão os seus nomes aos negócios encobertos dos ministros e até do presidente. Os lucros metem na algibeira. Sociedades do lado de lá da fronteira é negócio chorudo. Vida mais cara do lado de cá significa mais ‘mola’ do lado de onde se importam os produtos que não produzimos.

Para nos continuarem a enganar querem iludir-nos com ordens a proibirem o uso de moedas externas nos preços de referência das clínicas, mas veja-se como andam os stocks de medicamentos. Arrasados completamente.

Em meticais só se vai sentir os preços a subirem todos os dias. Querem obrigar, entretanto, a que só se mexa nos preços dos serviços uma vez por ano. O resultado vai ser vermos tudo a fechar como no tempo do dito ‘socialismo científico’.

Pode-se faturar em meticais, mas obviamente que se indexarão os preços ao USD ou ao Rand e todos os dias em meticais vamos ser surpreendidos com novos preços de mercadorias e serviços. Se isto for proibido como acaba de anunciar o ministro da Saúde, em mais uma das suas tiradas populistas, vamos voltar aos tempos do ‘não há’. Há gente, de facto que tem a cabeça dura…

O governo continua a gastar à farta. Aí ninguém quer mexer. Cortar na despesa pública, não querem. A senhora presidente da Assembleia da República acaba de receber, à custa do erário público, uma nova frota de viaturas de luxo de alta gama. O senhor primeiro-ministro, também.

Nos que governam já não se pode acreditar.

“Falas bem, mas antes queria que soubesses proceder menos em desarmonia com o que sabes dizer”, voltaria hoje a afirmar o tal poeta. Ser analfabeto não significa ser tapado…

Quando, dos países que ajudaram Moçambique a ressuscitar das cinzas de uma Guerra Civil sangrenta e altamente destruidora, nos chegavam avisos de crise económica e financeira sem precedentes nos últimos oitenta anos, os senhores que por cá, do seu ‘alto império’, sempre prometeram um futuro melhor e o fim da pobreza absoluta, foram espalhando a sua arrogância discursiva garantindo aos cidadãos que mal pior não nos afetaria.

Continuaram vivendo rodeados de luxo, à custa dos contribuintes que afinal somos todos, os que pagam impostos e outras contribuições diretas e todos os outros que pensam que estão livres delas embora paguem também, e bem, muito, impostos indiretos.

Depois de tanta ‘esperança’ anunciarem e de acusarem de serem ‘profetas da desgraça’, quem alertava para o que poderia chegar-nos se não arredassem de nos levar para o abismo, foi para esta situação dramática que o governo nos trouxe.

Os que avisavam que vinham aí dias muito maus se os governantes moçambicanos continuassem a ignorar o momento tremendo por que estava a passar a economia mundial, foram chamados de ‘viperinos’. Era de esperar que esses mesmos senhores no Poder assegurassem aos moçambicanos, o mínimo. Mas o que hoje vemos é que mesmo quem comia já anda a fazer cortes tremendos no seu cabaz para os alimentos chegarem ao fim de cada mês. Os que já eram muito pobres já nem uma refeição por dia comem. Quem se ia safando começa a deitar as mãos à cabeça.

No dia 1 de Setembro de 2010, os “chapas” em Maputo poderiam subir o preço da rota para 10 meticais. Não subiram porque deixaram de circular.

Será um aumento de mais de 30 porcento. Dirão aqueles que pensam que o País termina no quilómetro catorze, junto ao Estádio Nacional do Zimpeto, que o diesel ainda não está a 31 meticais o litro. Mas os pneus também são precisos para as viaturas andarem. As peças sobressalentes, idem. Um pneu que custasse mil meticais quando o dólar se comprava por 25 meticais, como o USD agora custa cerca de 39,00 MT, certamente que tem de custar mais. Mil meticais eram quarenta dólares. Agora custando os mesmos 40 dólares em meticais o pneu terá de custar 1560,00 MT. Tudo isto porque o metical desvalorizou. E desvalorizou porque não produzimos, porque o governo está cheio de corruptos que se metem em trapalhadas como no caso da Semlex, empresa emissora dos Bilhetes de Identidade, Passaportes, DIREs e Vistos de entrada.

Vemos os parentes de quem governa a fazerem as negociatas mais corruptas deste mundo só não vendo quem não quer que aparecem a coberto dos seus progenitores.

Os polícias já se matam uns aos outros. Agora são mandados matar o povo. Até já as forças armadas.

Os funcionários públicos cobram por fora o que o governo não lhes paga. Salva-se assim quem pode.

Os ditos sindicalistas feitos com os governantes corruptos e tão corruptos uns como outros, já nada podem de tão enfraquecida que está a economia.

Os juízes a serem nomeados para altas funções em empresas depois de bons serviços prestados à máfia, ajudam a descredibilizar ainda mais o Estado.

É tudo isto e o que mais não dissemos que destrói o metical.

São os assaltos ao património do Estado como o que se quis levar a cabo na Beira com os edifícios da Administração Município. É o assalto ao Museu da Revolução. Primeiro põe-se o Estado a pagar as reparações e depois passa para cá que isso é meu porque eu lutei para este país ser livre…Que digam os Desmobilizados de Guerra se eles também não lutaram para este País ser livre…Depois querem prendê-los!...

São disparates atrás de disparates. É o senhor presidente da República a andar montado numa frota de helicópteros pagos com dinheiros públicos sem que tenha havido concurso público. É o mau exemplo a vir de cima. São os senhores do país da marrabenta no auge da arrogância. Gastam que se fartam. Pagamos nós.

Um dia o Povo farta-se e depois surpreendemo-nos com as consequências, dizíamos nós desde há muito. A resposta está aí. Maputo e Matola, duas cidades sitiadas. “Os pobres sentem-se bem com mais pão e luxo a menos”, meus senhores.

in «Canal de Moçambique», 03.09.2010

O juiz decide, está decidido

A leitura da sentença sobre o "Escândalo da Casa Pia" é esperada para hoje.

Em entrevista dada (jornal i, 28.08.2010), um dos principais arguidos que sempre se declarou inocente, anunciou que colocará no seu site o nome de outros envolvidos no mesmo processo, não ligados ao PS, mas que não foram investigados.

Ora, a surpresa é só esta: estando totalmente inocente, por que razão precisa de envolver outros? E porque não os do PS? Para dizer o quê, precisamente?

Aguardemos pela leitura do tribunal para entender a ameaça...