18/05/2010

O défice de liderança política

O PEC foi apoiado no Parlamento pelo PSD de Manuela Ferreira Leite, que não negociou com o Governo. Foi uma decisão pessoal (e pouco consensual no seu partido) da líder cessante.

Nessa altura, não havia no PSD interlocutor capaz de se comprometer para os próximos anos, o que deu ao Governo desculpa para nada negociar. Passos Coelho, candidato à liderança do PSD, dizia-se desobrigado de compromissos com o Governo, sobretudo quanto ao PEC e a impostos.

O CDS e o Bloco de Esquerda tinham entretanto avançado com propostas de alteração ao PEC. O Governo nem as discutiu. E não permitiu adiar o voto parlamentar de apoio ao PEC (adiamento que permitiria ter já em funções o novo líder do PSD). Estranho, quando era necessário um consenso multipartidário credível.

Com Passos Coelho eleito líder, o PSD apresentou propostas para o PEC. Longe de representarem uma alternativa, tais propostas seriam, quando muito, complementos ao PEC do Governo. Mas nada justificava a agressividade com que as recebeu o ministro Vieira da Silva, classificando-as de "encenação" e de "uma mão-cheia de nada". Não havia no Governo vontade de negociar o PEC.

Entretanto, a situação nos mercados agravou-se perigosamente, com a dívida portuguesa a pagar juros cada vez mais altos. O Governo reagiu bramando contra o "ataque especulativo". Dá jeito porque atira as culpas da situação para outros, mas nada resolve.

Perante o deslize para o abismo, Passos Coelho pediu um encontro com Sócrates. A conversa suscitou esperanças de uma base política alargada ao aperto do cinto. Mas logo veio o banho de água fria: o Governo reiterou que iria avançar com as grandes obras públicas.

Com calma e um sentido de Estado que anteriores posições suas não faziam prever, Passos Coelho lamentou a atitude do Governo mas não partiu a loiça. Pouco tempo passou - com o acesso do país ao crédito externo cada vez mais caro e difícil - para o primeiro-ministro, em estado de aflição, ser forçado a recuar pelos nossos parceiros na zona euro. Adiou alguns grandes projetos e comprometeu-se com mais medidas de redução do défice. Para este novo PEC Sócrates solicitou o apoio do PSD.

O PSD acedeu, colocando condições razoáveis, que o Governo em geral aceitou. Ainda bem. Os mercados não confiam em reduções drásticas do défice sem apoio parlamentar maioritário. Pena é que se tenha perdido tanto tempo - e tanto dinheiro.

O comportamento errático do primeiro-ministro, reagindo com atraso e a reboque dos acontecimentos, em vez de os antecipar, tem desde há muito um efeito nefasto na opinião pública. Não lhe transmitindo uma ideia realista da gravidade da situação, não a prepara para os inevitáveis sacrifícios. Falta explicar às pessoas os problemas do país, com verdade e sem cenários cor-de-rosa, ou seja, as autênticas razões da austeridade.

Os mercados também reparam no optimismo de Sócrates. Eles vêm os gregos reagirem violentamente contra a austeridade, em parte porque o seu anterior governo não apenas manipulou as estatísticas enviadas a Bruxelas como enganou o próprio povo, fazendo-o crer que podia viver como se fosse rico, ao mesmo tempo que as exportações gregas perdiam competitividade, estando já excluída a desvalorização da moeda. Tal como cá.

O Governo escondeu a crise estrutural portuguesa, em particular o défice externo (assunto para ele tabu), com a crise internacional, culpa dos outros. Depois, atribuiu as responsabilidades pelo actual aperto aos especuladores, como se não se soubesse que Portugal gasta mais de 10% acima do que produz, pedindo emprestado para cobrir a diferença. Assim, em todo o mundo houve quem apostasse em que não pagaríamos a crescente dívida externa; outros investidores simplesmente tiveram medo e livraram-se dela. Por isso encareceu tanto o crédito a Portugal.

Em 1983, pela segunda vez em cinco anos, o FMI impôs a Portugal grandes sacrifícios como condição para os estrangeiros nos emprestarem dinheiro. Mas o programa de austeridade resultou. Em grande parte por mérito do então primeiro-ministro Mário Soares, que não só deu total apoio ao seu ministro das Finanças, Ernâni Lopes, como falou claro aos portugueses, tornando-os conscientes da situação e das suas exigências. É uma liderança política como essa que agora falta.

Francisco Sarsfield Cabral, Jornalista
in «Público», 17.05.2010

7º lugar na bancarrota

Portugal "sobe" para 7º lugar no clube de bancarrota

A probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) no caso português voltou a ultrapassar os 21% e colocou o país, de novo, no TOP 10 do risco mundial. Portugal já subiu, de novo, para o 7º lugar.

O mercado dos seguros (veículos financeiros conhecidos pelo acrónimo CDS, de credit default swaps) sobre a dívida soberana portuguesa voltou a aquecer.

Depois de quase uma semana de baixa, a tendência inverteu-se na 6ª feira, e hoje o custo dos cds voltou a subir acima dos 280 pontos base (um diferencial de mais de 230 pontos base em relação ao custo dos CDS relativos à dívida alemã).

Esta alta projetou Portugal, de novo, para o "clube" dos 10 de maior risco mundial. A "reentrada" fez-se, logo, diretamente, durante a manhã, para o 8º lugar. À tarde já "subiu" para 7º lugar, agora acima do risco da Letónia, da região da Sicília e do estado da Califórnia, segundo o monitor de risco da CMA Datavision. Portugal é, hoje, o terceiro país com maior aumento diário.

Também a Grécia continua a ver, desde 6ª feira, a sua posição agravar-se. Voltou a subir para o 3º lugar do TOP 10. A Irlanda, também, acompanha este movimento de alta, estando, de novo, acima dos 16% de risco de default. A Espanha subiu acima dos 15%.

Decorrerá, hoje, em Bruxelas uma reunião do Eurogrupo (ministros das Finanças e da Economia dos 16 membros da zona de moeda única). Os pacotes de austeridade de diversos países estarão em apreciação (como no caso do português), bem como o ataque ao euro que tem vindo a desenvolver-se desde Fevereiro.

Jorge Nascimento Rodrigues
in «Expresso», 17.05.2010

Macacos de imitação

Cópia de rapper europeus: "música" com pobreza em tdos os sentidos, sem qualidade sonora, sem estética, com mensagem absurda e errada - um estilo de meninos ricos!

17/05/2010

Dia triste


Intervalo publicitário para assinalar um dia triste para Portugal, vendido como "moderno" e um "avanço civilizacional".

Pobres de espírito!



16/05/2010

TGV Badajoz-Poceirão

Espanha aperta o cinto, isto é, corta na despesa e investimento públicos. Espanha, é governada por uma sucursal da Internacional Socialista e é Zapatero quem apresenta essa receita.

Pela Lusitânia, a sucursal socretina defensora do investimento público como varinha mágica - a receita Keynesiana, dizem os cábulas - tem agora de conviver com o muito provável adiamento da linha TGV Madrid-Badajoz.

Acossados por uma Europa indisponível para pagar os calotes portugueses, a governança lusitana viu-se obrigada a anunciar o congelamento de várias obras públicas e a desmentir-se quanto às garantias de "não subida de impostos".

Na sua miopia idiológica, a sucursal socretina prepara-se para subir IVA e comer (para início) subsídios de Natal em lugar de cortar nos gastos, luxos e mordomias.

É uma "receita" esmagadora, mortal, para muitas empresas e trabalhadores portugueses.

No fim, restará a excelente ligação ferroviária entre duas capitais europeias: Badajoz-Poceirão.


(fotografia de Märklin)

15/05/2010

Irmãos Dalton

O desgoverno de Portugal começou em 1995 com a praga de ratização.

A lista de personagens que entraram para desempenhar papéis de "maus da fita", é interminável. A cow-boyada, está à vista.

Por ocasião do empréstimo multimilionário à Grécia, este jornal presta homenagem aos nomeados (por falta de espaço, não se referem todos os artistas) para o "Prémio Irmãos Dalton".

14/05/2010

Corrigir o passado

A armadilha do que devíamos ter sido

Essa ideia de que o passado tem de ser revisto e editado à luz do presente gera equívocos e constrangimentos que, quase invariavelmente, recaem sobre aqueles que poucas ou nenhumas responsabilidades tiveram nesse passado.

Só assim se explicam as polémicas que envolvem Manuel Alegre e a implantação de uma estátua dedicada aos soldados mortos no Ultramar, em Santa Comba Dão.

Assim, num país onde elementos das Forças Armadas entregaram informações e armamento a movimentos como o MPLA, a Frelimo ou o PAIGC, e fizeram-no enquanto decorriam as negociações com vista às independências precisamente para que as independências terminassem com esses movimentos no poder; quando nunca foram segredo os telegramas enviados para Lisboa por estruturas militares do MFA, por exemplo de Moçambique, ameaçando render-se caso Portugal não reconhecesse a "Frelimo como único e legítimo representante do povo de Moçambique" e quando se sabe que essas mesmas Forças Armadas deixaram para trás portugueses que tinham sido raptados por esses movimentos às vezes com a própria conivência de militares portugueses, não deixa de ser um pouco desconcertante que um cidadão português, no caso Manuel Alegre, se veja obrigado a esclarecer que cumpriu o serviço militar.

Na mesma linha de paradoxo vem a notícia sobre a decisão da Câmara de Santa Comba Dão de erigir um monumento aos mortos na guerra do Ultramar (e terão sido dezasseis os jovens daquele concelho que aí perderam a vida) no local onde anteriormente se encontrava uma estátua homenageando Salazar.

A estátua de Salazar foi destruída por uma bomba em 1978 e desde então é recorrente a polémica em torno da sua reedifi cação. Alheios a essa polémica deveriam ser os 16 homens mortos na guerra. Salazar é um assunto. Os mortos na guerra - e note-se que Portugal teve também conflitos militares em África antes de 1961, nomeadamente durante a I República - tal como a própria guerra são outro.

Enquanto continuarmos a entender o passado não como a nossa História comum mas sim como algo em que devíamos ter sido o que agora somos então vamos continuar a andar às voltas embaraçados em estátuas aos mortos na guerra e documentos que atestem o cumprimento do serviço militar nessa mesma guerra.

Helena Matos
in «Público», 13.05.2010

Mais Socialismo?

13/05/2010

Os Papas e as esquerdas

João Paulo II lutou contra o totalitarismo comunista da Europa de Leste. Bento XVI luta contra a "esquerda caviar" da Europa ocidental. Bento XVI é mais interessante do que João Paulo II.

I. Tal como afirma o dirctor do i, Bento XVI é mais interessante do que João Paulo II . João Paulo II é, com certeza, uma figura central do século XX. Karel Wojtyla foi uma peça fundamental no derrube do totalitarismo comunista. Mas, vamos lá contextualizar, João Paulo II não estava sozinho no combate à esquerda totalitária. Em grande medida, o Papa-que-fazia-os-800-metros-barreiras-na-boa tinha todos os políticos do Ocidente ao seu lado. A divisão Oeste - Leste era política e estratégica, logo, isso facilitava as coisas para o Vaticano.

II. Ora, o combate de Bento XVI não é político, mas sim intelectual e moral. Bento XVI não está a lutar contra a velha esquerda comunista, mas sim contra o relativismo moral e cultural da esquerda caviar. Este é um combate mais difícil, porque não existe um "inimigo" claro do "outro lado". É um combate puramente intelectual e moral. Era "fácil" atacar a esquerda comunista do outro lado do muro. Não é fácil atacar a esquerda caviar que é a própria essência da Europa Ocidental.

III. João Paulo II era odiado pela extrema-esquerda, aquela coisa que não perdoa a história pela queda do muro de Berlim. Mas Bento XVI é odiado por toda a esquerda europeia, porque este Papa está empenhado na luta contra a essência "progressista" de hoje: o relativismo moral e cultural, a consagração do espírito derrotista e anti-ocidental, a imposição de um vácuo histórico e religioso (vulgo: o politicamente correto) . O combate de João Paulo II pertence ao passado, e está decidido: o comunismo perdeu para sempre. O combate de Bento XVI é actual, e não está decidido. Mais uma razão para considerar Bento XVI, o intelectual poderoso, mais interessante do que João Paulo II, o político atlético.

Henrique Raposo
in «Expresso», 11.05.2010


(selo comemorativo emitido pelos CTT - Correios de Portugal)

12/05/2010

Sua Eminência %$?#&!??!!

É conhecida a difícil convivência socretina com diplomas, títulos e cognomes. É um facto.

Também se aceita que o sectarismo republicano-maçónico dificulte reconhecer títulos de reis, condes e marqueses ou a santidade de autoridades religiosas.

Já é difícil perceber que, qual troca-tintas, se chame "Camarada" ao Rei de Espanha, "Sua Alteza" ao Presidente Lula do Brasil, "Senhor Engenheiro" a um feiticeiro, "Senhor Doutor" a um bancário ou, santa ignorância, "Sua Eminência" ao Papa Bento XVI.

Mas foi isso que se assistiu hoje, quando um governante português, se referiu a "Sua Eminência o Papa".

Em nome da boa educação, seria conveniente que o sujeito soubesse que (universia):

Eminência, do latim eminentĭa, designa pessoa de alta posição social ou reputação; no domínio da anatomia, significa elevação ou saliência, especialmente em osso; é também a forma de tratamento que se usa ao dirigir-se a cardeais;

Sua Santidade, é o pronome de tratamento próprio para líderes religiosos notáveis, com destaque para o Papa;

Não interessa se a entidade é mais ou menos santa. "Santidade" não tem a ver com isso.

Diz-se "Sua Santidade o Papa" e nunca "Sua Eminência o Papa", tal como não se chama "Engenheiro" a um aldrabão qualquer. Ponto!

Bancarrota socretina

Está consumada a bancarrota do Estado que, por pena que vista ainda a cor socratina, é e será português. O que prevenimos, e tantos negaram confiados afinal na irresponsabilidade e satisfação do interesse pessoal do primeiro-ministro e do seu grupo, sucedeu.

Mais tarde falarei sobre as consequências, mas por agora é preciso saber que se aproxima a redução de salários, pensões e subsídios, o pagamento de indemnizações absurdas a construtoras e bancos por obras contratadas nestes últimos dias de socratismo moribundo e que serão adiadas, e a imposição de uma tutela financeira e económica da União Europeia e do FMI sobre Portugal durante uma década. Enquanto não reequilibrar, pela poupança, as contas públicas, Portugal será um protectorado da União Europeia e do FMI, com especial ascendência da Alemanha, o maior credor.

Não adianta agora o primeiro-ministro comprometer-se na dura reunião do Eurogrupo de 07.05.2010, que afinal vai baixar agora o défice em mais 1% e não apenas nas calendas gregas, para onde atirou a austeridade.

Pode prometer o céu aos parceiros europeus e, finalmente, a terra aos portugueses: ninguém acredita mais nele. Os parceiros europeus, a União Europeia e o FMI, sabem muito bem que promete uma coisa e faz outra: promete conter o défice e celebra à pressa, no dia da subida exponencial dos juros e da queda da bolsa, um contrato de 1,244 mil milhões de euros da concessão rodoviária do Pinhal Interior ao consórcio Mota/Engil-BES (para construção das absolutamente indispensáveis estradas do IC3 - Tomar/Coimbra (IP3/IC2), incluindo ligação a Condeixa; IC8 - Proença-a-Nova/Perdigão (A23); EN236-1 - Variante do Troviscal; ER238 - Cernache do Bonjardim/Sertã (IC8); EN238 - Sertã/Oleiros; e EN342 - Lousã/Góis/Arganil/Côja, incluindo ligação ao IC6; e requalificação e exploração de outras estradas nessa zona).

Os parceiros europeus e as instituições financeiras internacionais sabem que no dia seguinte ao compromisso de reduzir o défice em 1%, celebrou, neste sábado, 8-5-2010, o contrato de construção do TGV do Poceirão ao Caia, para o qual acredito que tenha pedido, na sexta, 07.05.2010, o apoio de Sarkozy, numa cimeira de motivo real disfarçado (a inovação energética...), prometendo encomenda de equipamento francês, naquele que é o seu último grande negócio.... O TGV do Poceirão!... Sócrates pode não ter dinheiro para pagar salários, pensões e subsídios de desemprego, mas à beira da bancarrota, o Estado gasta o que não tem no TGV do Poceirão e na variante do Troviscal!...

Questionado sobre o assunto na visita ao extraordinário exemplo do Parque Tecnológico de Óbidos, focado nas indústrias criativas, no sábado 08.05.2010, o Presidente da República pediu confiança no... Ministro das Finanças e revelou que o primeiro-ministro de nada o informou e que o primeiro-ministro não falou com ele nos últimos dias!...

Foi a declaração mais dura do Prof. Cavaco Silva sobre José Sócrates, desde que tomou posse: reduziu Sócrates à irresponsabilidade e inutilidade. Sócrates não informou o Presidente da República de que comprometeu o Governo a reduzir o défice do Estado, de que Cavaco Silva é presidente, em mais 1%!... Mas telefonou ao líder da oposição!... Será que reuniu o Conselho de Ministros para definir esse compromisso do Estado português?... Um Governo sem rei - Sócrates parece um D. Afonso VI, na fase pré-clausura - e sem roque - Teixeira dos Santos assemelha-se agora ao caído em desgraça Conde de Castelo... mas Pior.

Mas insisto que de nada adianta o que Sócrates prometa: porque ninguém acredita e porque é tarde. Não adiantava correr mais do que o urso, adiantava correr mais do que os outros que fugiam do pânico, como fez a Irlanda, quando estabeleceu um programa férreo de austeridade na despesa pública e assim ganhou credibilidade dos mercados.

Mais: depois da Grécia, é Sócrates com a sua política despesista que afunda não apenas o seu país, mas também o dos outros, quando se recusou, na prática, a prevenir o contágio do pânico.

A passagem da barreira dos 7% (a cotação fechou na sexta a 7,05%) do juro da dívida do Estado português a dez anos, na sexta-feira, dia 07.05.2010, representa a confirmação da inevitabilidade da bancarrota de Portugal. Agora mesmo, o juro da dívida soberana portuguesa  a dez anos já vai em 7,32%...

Quando passou a barreira psicológica dos 5%, em 23 de Abril de 2010, há duas semanas, como aqui assinalei, logo se percebeu que a marcha do País para uma segunda tragédia grega era inevitável.

Confirma-se agora.

Mais ainda, como muito bem acentuava o Jornal de Negócios, os juros da dívida de curto prazo (dois e três anos) são agora mais caros, desde sexta-feira, do que os da dívida de longo-prazo (dez anos), o que significa que os investidores desconfiam mais da capacidade de Portugal lhes pagar no curto prazo. De acordo com a a consulta que fiz agora no sítio do «Wall Street Journal», antes da abertura dos mercados de segunda-feira, 10-5-2010, o juro da dívida do Estado português a dois anos já vai nos 8,78%!...

Tenho insistido que importa perceber a noção de bancarrota. Um país da Zona Euro não deixa de pagar (não chega ao default) porque beneficia da proteção das instâncias comunitárias, dos outros países do euro e do FMI, pois se essas instâncias deixassem que isso acontecesse, era o próprio euro e o sistema monetário internacional que ficavam em causa.

Não haverá, portanto, aqui uma Argentina que na ressaca da dolarização da sua economia, decretou uma moratória no pagamento da dívida e limitou os levantamentos bancários a 700 dólares. Bancarrota é Portugal declarar a sua incapacidade à União Europeia e ao FMI de cumprir o pagamento da dívida se não beneficiar da caridade deles com empréstimos de favor. É essa declaração formal que eu creio que o primeiro-ministro fez aos seus colegas da União Europeia durante este fim de semana.

Nas circunstâncias aflitivas do défice e da dívida pública portugueses (que ninguém acredita tenham o valor que o Governo indica), o Estado não tem condição de suportar o pagamento deste nível de juros, e dos juros que aí vêm, pois cada vez mais os investidores reclamarão um juro maior para emprestarem dinheiro a Portugal. E, de acordo com informação de 14 de Abril de 2010, o Estado português precisa de cerca de 20 mil milhões de euros até final do ano para pagar juros e cupões de obrigações.

Este é o diagnóstico da situação actual. Nem é preciso vir o Prof. Paul Krugman explicar no seu post, de 07.05.2010, "O Nao" (sic) - citado pelo Jornal de Negócios: "Portugal não está bem: as taxas de juro estão onde a Grécia estava apenas há poucas semanas".

O fim da Economia da Mezinha, uma adaptação socratina da voodoo economics.

A bancarrota.

António Balbino Caldeira
in «Do Portugal Profundo», 09.05.2010

Irena Sendler, uma heroína

A polaca Irena Sendler, que salvou cerca de 2500 crianças de serem encaminhadas para campos de concentração nazi, faleceu exatamente há dois anos a 12.05.2008 num hospital de Varsóvia e estaria com 100 anos.

Sendler foi considerada como uma das grandes heroínas da resistência polaca ao nazismo, tendo estado nomeada para o Prémio Nobel da Paz.

Sendler organizou a saída de cerca de 2500 crianças do Gueto de Varsóvia durante a violenta ocupação alemã, na Segunda Guerra Mundial. Ela - que trabalhava como assistente social - e a sua equipa de 20 colaboradores salvaram as crianças entre Outubro de 1940 e Abril de 1943, quando os nazis deitaram fogo ao Gueto, matando os seus ocupantes ou mandando-os para os campos de concentração.

Durante dois anos e meio, Irena Sendler conseguiu ludibriar os nazis e fazer sair do Gueto adolescentes, crianças e bebés - muitos deles disfarçados sob a forma de pacotes - e enviá-los para o seio de famílias católicas, para orfanatos, conventos ou fábricas.

Em Varsóvia viviam 400 mil dos 3,5 milhões de judeus que habitavam a Polónia.

"Fui educada na ideia de que é preciso salvar qualquer pessoa [que se afoga], sem ter em conta a sua religião ou notoriedade", dizia Irena Sendler.

Nascida a 15 de Fevereiro de 1910, a figura de Irena Sendler permaneceu relativamente desconhecida na Polónia, à imagem de Oskar Schindler, que morreu na pobreza, mas que viria a ser imortalizado no cinema pelo realizador Steven Spielberg na película "A Lista de Schindler".

Só em Março de 2007 a polaca foi homenageada de forma solene no seu país, tendo o seu nome sido proposto para o Prémio Nobel da Paz. Em 1965, porém, o memorial israelita Yad Vashem tinha já atribuído a Sendler o título de "Justo Entre as Nações", reservado aos não-judeus que salvaram judeus.

in «Público», 12.05.2008

11/05/2010

Celibato e padres

10/05/2010

Madrilenos na Caparica

Milhões para alguns

Há poucos dias Portugal foi alvo de ataque nos mercados internacionais com as agências internacionais de notação financeira a baixarem a classificação do risco que atribuem à dívida do Estado português. Isto traduz-se em juros mais altos para o financiamento do Estado nos mercados internacionais. Por outras palavras, vamos ter de trabalhar mais para pagar apenas os juros da dívida, que se subtraem assim à riqueza produzida no país.

Mas esta explicação, de que tudo é culpa de terceiros, é por si só demasiado simplista. Porque é que atacaram Portugal e não a Holanda ou a Suécia? Pela simples razão de que Portugal se pôs a jeito. Estamos demasiado endividados e com dificuldades em pagar os juros das nossas dívidas e esses países não. Isto não é sustentável: o leitor ponha-se na posição de quem nos empresta dinheiro e olha para nós como um país que não produz o que gasta, que se endivida descontroladamente vivendo à custa do trabalho dos outros, e que nem os juros da dívida parece ser capaz de pagar. Continuaria a emprestar dinheiro a um país ou uma pessoa assim?

Se nada de substancial se alterar, o que vai acontecer quando do estrangeiro deixarem de nos emprestar dinheiro? Nessa situação de colapso económico, será que deixaremos de poder comprar produtos que não produzimos e que são essenciais ao funcionamento da economia, como o petróleo, ou à vida das pessoas, como comida ou medicamentos? Ou para evitar isso o Estado baixará os salários e as pensões para pagar as dívidas? Ou seremos expulsos do euro, o que provavelmente trará uma inflação galopante que destruirá as poupanças e o poder de compra dos salários e das pensões? Perante esta situação, o que faz o Governo? Como o nosso problema é a dimensão da dívida, arranja ainda mais dívidas. Ainda agora foi anunciado mais um contrato de concessão de auto-estradas (Pinhal Interior), em que o Estado presta garantias (quase equivalentes a dívida, a pagar pelos contribuintes) de milhares de milhões de euros. As estradas não deveriam ser a prioridades nos investimentos em infra-estruturas de transportes, pois (i) a actual predominância da rodovia sobre a ferrovia é insustentável por razões ambientais e energéticas, logo a quota de mercado da rodovia tende a reduzir-se, (ii) a rede de estradas e auto-estradas já é bastante boa, e (iii) há debilidades gritantes em outros sectores importantes para a sustentabilidade e competitividade económica, como a ferrovia e os portos.

Por isso na situação actual este contrato obviamente não é do interesse do país. Segundo o PÚBLICO de 28 de Abril, uma fonte do consórcio que ganhou a concessão "sublinhou como positivo o facto de o contrato ter sido assinado já depois de as agências de notação financeira internacional terem baixado em dois níveis a análise de risco da dívida soberana do país". Não tenho dúvidas de que foi positivo para o consórcio, mas é extremamente negativo para os contribuintes que ficam com a responsabilidade de garantir o pagamento de milhares de milhões de euros, que se somarão a uma dívida sufocante com taxas de juro cada vez mais elevadas, sem que destas obras resultem benefícios relevantes para a economia e que ajudem a pagar a dívida. E o Governo já reafirmou que vai continuar a endividar o país para financiar as suas grandes obras, que, se forem analisadas com detalhe, se constata que são injustificáveis com base no interesse do país.

Vejam-se os seguintes exemplos:
1) a nova Linha Lisboa-Porto que não permite o tráfego de comboios de mercadorias, cuja melhoria neste momento é muito mais importante para a economia do que o de passageiros;
2) a ponte Chelas-Barreiro, a construir no local errado, pois aumenta em 40% a distância de Lisboa ao novo aeroporto relativamente à alternativa Beato-Montijo, não permite a passagem das linhas de alta velocidade no aeroporto em plena via, sacrificando assim a qualidade dos acessos a muitas cidades, destrói metade do porto de Lisboa, pondo em causa empresas e empregos, é mais cara que a alternativa, etc.;
3) outras auto-estradas;
4) o terminal de contentores de Alcântara, uma obra provisória com grandes inconvenientes para a cidade de Lisboa, quando o porto se poderia expandir para a Margem Sul para locais que possibilitam um porto com futuro e muito maior qualidade e competitividade (fundamentação mais detalhada destas questões pode ser consultada em http://www.adfer.pt/).

Concluindo, o Governo, que já começou a impor fortes sacrifícios aos portugueses (basta ver o PEC) vai agravar ainda mais a situação económica do país, o que levará ao colapso económico ou, para o evitar, obrigará a agravar os sacrifícios no futuro. Creio que os portugueses aceitariam sacrifícios se estes fossem justos e para benefício de todos, mas não é esse o caso: que autoridade moral tem este Governo para impor sacrifícios ao povo, se a necessidade de os fazer em grande parte é consequência de dívidas que o próprio Governo fez e tenciona continuar a fazer para benefício de alguns e não para o desenvolvimento do país?.

Mário Lopes
Professor do Dept. de Eng.ª Civil do Instituto Superior Técnico
Membro da Direcção da ADFER-SIT (Associação para o Desenvolvimento de Sistemas Integrados de Transportes)
in «Público», 10.05.2010


A farsa socrática: vamos ter meio TGV

I. Meio TGV, eis a herança da modernidade socrática. E este meio TGV ainda é uma migalha desnecessária da velha teimosia de José Sócrates: o TGV até ao Poceirão também deveria ter sido suspenso. Porque é um pouco patético esta coisa de Portugal ter um TGV que não chega a Lisboa. José Sócrates não quis admitir que estava 100% errado. Com este semi TGV, quis mostrar que, vá, estava errado apenas a 70%.

II. José Sócrates fez uma campanha eleitoral assente numa mentira económica. As eleições de Setembro foram uma pequena farsa: a realidade era negra, mas José Sócrates navegou na falácia rosa. Depois das eleições, José Sócrates teve vários meses para admitir o erro. Mas nada mudou naqueça cabeça. Ainda na semana passada, o primeiro-ministro recusava qualquer desvio no seu caminho czarista. Foi preciso um puxão de orelhas das autoridades europeias para José Sócrates admitir, finalmente, que estava errado. Como diz Martim Silva, José Sócrates foi mesmo o último a perceber o óbvio. E, agora, no final desta farsa, José Sócrates deixa-nos com esta situação que parece saída de uma anedota: meio TGV. Para que serve um TGV que pára no Poceirão? Custava assim tanto suspender a obra por completo?

III. Alguns meninos do PS parece que estão zangados com José Sócrates. Estes meninos queriam que o primeiro-ministro continuasse na fantasia. A realidade, essa entidade suja, é coisa para a direita. A esquerda, essa senhora excelsa, apenas pode habitar a fantasia. Os outros que apaguem a luz, não é?

IV. É evidente que Teixeira dos Santos é o novo primeiro-ministro de Portugal. Graças a deus.

Henrique Raposo
in «Expresso», 10.05.2010


Volta, Lino!

Ainda não estou seguro de obter uma resposta para as dúvidas que me afligem: afinal, vêm ou não os madrilenos a banhos à Costa da Caparica?

De facto, tudo está por definir. De um lado, os que advogam a ponderação de gastos numa altura em que as finanças ameaçam falência. Do outro, os adeptos do gastar a qualquer preço, que a vida são dois dias e o de hoje já vai na conta.

Não se sabe, portanto, quem ganha. Apenas se sabe quem já perdeu: os portugueses, para não variar.

Num breve instante de bom senso, o ministro das Finanças chegou a defender a revisão das grandes obras. Mas logo o ministro Mendonça ("Também sou economista, sabe?"), apoiado na teimosia de Sócrates, virou o caso do avesso: comprometa-se o futuro, que o presente já não tem conserto.

É claro que há uma extensa lista de culpados. À partida, os especuladores: bem avisados temos sido contra eles pelos beneméritos progressistas, à frente dos quais o putativo sucessor de Sócrates, refugiado no sorvedouro do Município lisboeta.

Mas não é possível absolver a negligência da senhora Merkel, que ainda não enviou (como era seu estrito dever) o dinheirinho dos alemães para que possamos brincar aos comboios e aos aeroportos.

Entretanto, fica a petulância do actual "Jamé". Com fina elegância verbal, trata os ministros de Soares, de Cavaco, de Guterres, de Barroso e de… Sócrates por "homens do passado".

Volta, Lino, estás perdoado!

António Freitas Cruz
in «Jornal de Notícias», 09.05.2010

Born Free por M.I.A.

M.I.A é uma cantora de ascendência tamil, sempre muito polémica.
Romain Gavras, filho do conhecido realizador franco-grego Costa-Gavras, garante confusão e escândalo.

Como era desejado, uma combinação explosiva, Born Free, logo retirado do Youtube, mas disponível no site oficial da cantora.


M.I.A, Born Free from ROMAIN-GAVRAS on Vimeo.

09/05/2010

Campeões

Com a ajuda divina (Jesus como treinador), o Sport Lisboa e Benfica ganhou o campeonato de futebol de Portugal, na época 2009-2010.

Um estremecimento de entusiasmo cobre as cidades e aldeias lusitanas, os núcleos de emigrantes na Europa, na América e os milhões de simpatizantes em África.

08/05/2010

Aprender grego

Ponto de Vista

A Grécia está aturdida.
A Europa agita-se: "Uma crise num pequeno país pode provocar uma tempestade global." Enervam-se a Ásia e Wall Street.

Uma semana depois da "salvação da Grécia", os países do euro enfrentam as suas "crises gregas", encavalitadas no endividamento resultante da crise financeira. Disparam os alarmes.

As "crises gregas" vão alterar as agendas políticas e as regras da zona euro. Estão em jogo não apenas a economia mas a arquitectura política do continente.

Na linha de fogo não estão apenas Portugal e Espanha.
A Itália teme vivamente o contágio. A agência Reuters Breakingviews lança um "alerta vermelho" sobre as finanças públicas britânicas. A França congela as despesas do Estado: "Estamos encostados à parede." Merkel fala num "combate entre políticos e mercados".

A mudança de clima nos mercados dos "títulos soberanos" gera perdas no sistema bancário de toda a UE, o que se traduz em dinheiro mais caro, anula a melhoria das contas públicas e torna mais difícil o relançamento económico. A Comissão Europeia prevê um crescimento mínimo em 2010-11, frisando que o relançamento é ameaçado pelos défices públicos.

O Parlamento grego aprovou o plano de austeridade do primeiro-ministro Giorgios Papandreou, ditado pela UE e pelo FMI. O clima é de depressão moral. Estas conjunturas não são "revolucionárias". Se podem levar a motins, produzem sobretudo fatalismo. "Os gregos já não sabem em quem acreditar", diz um analista. "Suspeitam de que não há alternativa ao plano governamental."

A violência na manifestação de quarta-feira em Atenas revelou impotência. O protesto mobilizou entre 20 mil e 50 mil pessoas, numa cidade de mais de quatro milhões.

O presidente da confederação sindical do sector privado (CSEE), Yiannis Panagopoulos, fez uma confissão de desespero e derrota. "Estamos a tentar recuperar do choque. (...) Os trabalhadores estão gelados, não confiam em ninguém, seguem as suas opções pessoais; a ruptura entre os do sector público e os do privado é completa e a violência cega atrai algumas pessoas."

Os funcionários servem de bode expiatório e os trabalhadores do privado não se condoem com a sua "punição". Os comerciantes juntaram-se à greve, sabendo que muitos vão fechar a porta.

O tipo de sindicalismo grego, puramente reivindicativo, obtém resultados nas fases de expansão, mas torna-se impotente quando a crise estala. Mais grave é que funcionou como dissuasor de quaisquer reformas estruturais, contribuindo para a explosão, que no fim recai sobre o mundo do trabalho. Na generalidade, o sindicalismo português não é muito diferente.

Papandreou pouco tem a temer da oposição, já que o anterior Governo da Nova Democracia é visto como o "culpado" da crise. A ameaça é outra. "Em Atenas, sopra um vento de antipolítica", escreve, da capital grega, o jornalista italiano Vittorio da Rold.

A antipolítica tem um intérprete, Andreas Vganopoulos, grande empresário e presidente do Panathinaikos, o clube de futebol de Atenas. Não é um Berlusconi grego. É um "justiceiro". Pede contas aos políticos, exige-lhes as declarações de rendimentos, à entrada e à saída dos cargos. "Para onde foram os dinheiros da UE?" É um ataque às dinastias políticas: os Caramanlis, os Papandreou, os Mitsotakis e as suas clientelas.

Numa entrevista à televisão, Vganopoulos explicou em linguagem comum como se podia ter evitado a crise financeira. Disse que "as pessoas querem caras novas na política" e que o sistema está a chegar ao fim. A sua popularidade é alta.

A maior inquietação é a ressaca económica. A Grécia não tinha escolha perante o draconiano plano da UE e do FMI porque, em caso de cessação de pagamentos, o sistema bancário desmoronar-se-ia, explicou Martin Wolf no Financial Times. "Mas entrará provavelmente em prolongada recessão."

A prazo, corre o risco de não gerar fundos para pagar o serviço da dívida, apesar das novas linhas de crédito. O plano de austeridade parece eficaz para reduzir o défice, mas o controlo da dívida é uma imensa incógnita. As altas taxas de juro são um peso insuportável para um país com a perspectiva de crescimento negativo, augurando uma contracção e não a expansão da economia.

Muitos consideram inevitável a reestruturação da dívida. Mas isto afetaria os bancos europeus, designadamente franceses e alemães, titulares de 70 por cento da dívida grega. O plano evitou a ruptura. Mas a "missão" do FMI é salvar o euro, não a Grécia.

A crise grega, dizem analistas da Reuters Breakingviews, revelou as debilidades da zona euro e será a oportunidade de a salvar, começando por obrigar os países da Europa do Sul a enfrentar as suas fraquezas estruturais, condição para a disciplina financeira.

Merkel atrasou a ajuda à Grécia, agravando a factura e abrindo uma crise no euro. Foi um cálculo frio, dizem os mesmos analistas. "Para que uma crise tenha efeito salutar, é preciso submeter o doente ao máximo de dor que possa suportar. Merkel aplicou a receita à letra. (...) Portugal e Espanha apanharam um susto." É bom saber com o que se conta.

A crise portuguesa é distinta da espanhola, mas com um ponto de partida mais grave. Se um país não faz a sua própria terapia, condena-se à "intervenção cirúrgica". As regras do jogo estão a mudar desde 2008. Os "mercados" não têm sentimentos mas só ferem quem se coloca nas suas mãos. No fim, serão os nossos parceiros "centrais" da eurozona a impor o diktat.

É interessante observar que, em Portugal, a questão das grandes obras públicas - nuns casos manifestos "elefantes brancos", noutros corretas apostas estratégicas - foi transformada num simulacro de debate ideológico sobre o investimento público e a intervenção do Estado, o que é uma denegação da realidade: esconder o horror do desastre e liquidar o que resta de soberania nacional. Irresponsabilidade política: Après moi, le déluge.

Ao contrário dos "ricos", o problema de Portugal não deriva da crise financeira mas de continuar a "divergir" da média da União, o que frustra os cidadãos e cria um círculo vicioso. A fuga para o endividamento exponencial, em lugar de promover expansão, estrangula a procura e a capacidade de investimento, público e privado.

Que aconselharia um marciano acabado de aterrar em Lisboa? Convidaria os portugueses a aprender grego - se não querem "ser Grécia".

Jorge Almeida Fernandes
in «Público», 08.05.2010
 
NR: a cambada socretina assinou mais um cheque careca para endividamento de Portugal com a estúpida e inoportuna adjudicação do TGV). Portugal vai pagar cara esta bebedeira.
 
(imagem de «The Miami Herald»)

Cliente seguinte, por favor...

A Grécia vive tempos de grande sofrimento.

Poucos meses atrás, confrontados com qualquer sacrifício, por menor que fosse, os gregos teriam recusado: teriam invocado direitos adquiridos, promessas eleitorais e coisas do género.

Hoje, preparam-se para perder dois dos catorze meses de salário anual; congelaram os salários da função pública e as pensões de toda a gente até 2012; aumentaram a idade de reforma de 53 para 65 anos; vão subir o IVA para 23%; vão extinguir 800 entidades públicas e privatizar várias empresas públicas.

De forma menos planeada, o caos em que caiu a situação financeira do país, com as taxas de juro a subirem e com o crédito cortado, farão fechar muitas empresas, destruirão muitos postos de trabalho, obrigarão à falência de bancos e reduzirão a pó muitos depósitos bancários, porão muita gente na miséria. A Bolsa de Valores de Atenas não pára de descer. Podem protestar o que quiserem na certeza de que, quanto mais protestarem, pior.

O inacreditável é que tudo isto poderia ter sido evitado, com um pouco de responsabilidade e de bom senso. Tem responsáveis, sim, aos olhos de toda a gente, por mais que a auto-estima os reconforte.

E não venham dizer que a culpa é dos credores, das agências de rating ou da senhora Merkel. Para males destes, não pode haver perdão.

Daniel Bessa
in «Expresso», 08.05.2010

(imagem «The Economist»)

Opinião ocidental

A escritora Isabel Allende faz aqui, uma destemida intervenção política:

(selecionar "subtitles" para a língua para legendas)

07/05/2010

A sociedade num azulejo

Segundo um azulejo espanhol, a sociedade está organizada segundo regras bem conhecidas:

06/05/2010

Fascistas vermelhos

I. É sempre assim: quando grupos de fascistas vermelhos provocaram violência urbana, os media portugueses usam eufemismos para mascarar a realidade. Agora, na Grécia, os grupos de anarquistas e comunistas que andam a destruir Atenas são descritos como "manifestantes anti-crise". Mas o que é isso? O que é um "manifestante anti-crise"?

II. Ontem, grupos de anarquistas incendiaram um banco, e acabaram por assassinar três pessoas. Aquelas pessoas não morreram num acidente qualquer. Aquelas três pessoas morreram porque grupos radicais incendiaram o seu local de trabalho. É bom que se perceba isto: a extrema-esquerda é tão perigosa como a extrema-direita. O fascismo também se veste de vermelho. Anarquistas e comunistas também usam a violência como ferramenta política. Esta gente não pode ser desculpabilizada, esta gente não pode ser suavizada com eufemismos.

Henrique Raposo
in «Expresso», 06.05.2010

Disse "deputado" ou de-puta-do?

Por quanto mais tempo o Parlamento português aloja exemplares com tão vasto curriculum?
O mínimo que se poderia esperar era a demissão depois de mais uma história:

O deputado do PS estava a dar uma entrevista à revista «Sábado» e o jornalista questionou-o acerca da sua ligação, como advogado, a um caso de burla e falsificação de documentos, nos Açores, bem como a questões relacionadas com a sua demissão, em 2003, do Governo Regional dos Açores.

À data, Rodrigues era secretário regional. Devido a rumores que vieram a público que o ligavam a um escândalo de pedofilia, o atual deputado demitiu-se.

Na sequência das perguntas «incómodas», o deputado levantou-se e retirou, discretamente o gravador dos jornalistas e saiu da sala.

A revista Sábado apresentou queixa no DIAP de Lisboa, por furto e atentado contra a liberdade de imprensa e de informação.

Era esperar muito...


Pontes e companhia

O projeto socratina para a terceira Ponte sobre o Tejo, em Lisboa, e a que conta dar o nome de "Mário Soares":

(projeto da Simons & Piña)

05/05/2010

Transportes públicos

Cabras e mais cabras.

Uma ponte em Moçambique e uma estrada na Califórnia:

04/05/2010

Luta greco-lusitana

A crise grega é explicada, na edição de 29 de Abril, pelo «Economist» e em "quadradinhos".

E, Portugal, a despeito do estado de negação socretina, continua a afundar-se a ser encarado como a próxima bancarrota.

Plano \nclinado

Contra o "eduquês", a praga que contaminou a Educação e que afunda Portugal no pântano de ignorância e da incompetência.

Uma desmontagem indispensável.

Mário Eyjafjallajökull Soares

Agora, a nuvem de cinza trouxe-nos um desses profetas de volta.

Mário Soares é o mesmo venerando ancião a pregar a mesma catilinária. Só não é escanzelado. Mas a forma ameaçadora com que nos avisa que a erupção do vulcão se deve à nossa má vida ambiental assusta. Eu, que ontem deitei por engano uma embalagem de plástico no caixote de lixo para cartão, não consegui segurar duas ou três pinguinhas de urina devido ao medo.

Será que Mário Soares acha que a nuvem de pó foi causada por todas as empregadas domésticas do mundo terem resolvido sacudir tapetes na rua ao mesmo tempo? Mais do que ecologista histérico e convicto, é preciso ser-se muito narcisista para achar que se pode ter causado uma erupção vulcânica. É possível que, aquando do furacão Katrina, Mário Soares tenha ficado a pensar que não devia ter aberto a janela e a porta cozinha ao mesmo tempo, que aquela corrente de ar é que lixou tudo em Nova Orleães.

A Mário Soares não basta ser pai da democracia portuguesa, também quer perfilhar um fenómeno geológico. Agora percebo melhor o ateísmo de Mário Soares. É natural que ele não acredite em Deus, uma vez que acha que os verdadeiros deuses omnipotentes são os homens.

José Diogo Quintela
in «Pública», 02.05.2010

Soares para Primeiro-Ministro... já


O homem (Mário Soares) que nunca percebeu de Matemática, de Economia e de outras ciências exatas, vem aqui explicar porque decidiu retirar o décimo terceiro mês quando foi primeiro-ministro (1983).

E esclarece que, foi graças a isso que se deu o posterior boom económico português.

Na vida real, uma praga... nunca vem só.

03/05/2010

Documentário fantástico sobre Portugal

Há um documentário incrível, feito pela televisão espanhola (TVE), sobre Portugal. Tem imagens fantásticas, esplendorosas, magníficas.

Deixam-nos plenos de orgulho por um país tão bonito.

O documentário tem 56 minutos e começa no Algarve. Segue para o Norte, Alentejo, Centro e Lisboa (os minutos por localidades estão mais em baixo).

Nunca se viu um trabalho tão fenomenal na televisão portuguesa.

Ponte Lima 9,00 / Douro 13 / Porto 15 / Alentejo 22 / Évora 22,41 / Marvão 25,57 / Castelo de Vide 26,55 / Costa Alentejana 28 / Alcácer do Sal 29 / Aveiro 30 / Viseu 33 / Museu Grão Vasco 34 / Coimbra 35,50 / Termas de Monfortinho 40,47 / Monsanto 41,57 / Penha Garcia 42,45 / Batalha 44,26 / Sintra 46 / Torre de Belém 48,16 / Pastéis de Belém 53,15 / Bairro Alto 53,58 / Cabo da Roca 56, 07

in «TVE»

As três gerações

O objectivo das três gerações


Está lançado um aceso e fervoroso debate, na imprensa, em torno do slogan “Três Gerações, Um Povo, Uma Só Nação”. Incompreensivelmente, este slogan que vai orientar a celebração dos 35 anos da maior e mais importante conquista do Povo moçambicano, a Independência Nacional, defende que os moçambicanos devem estar segmentados em “gerações”.


Na essência, esta ideia não passa de uma empreitada política, aliás de uma politiquice elaborada – e muito mal elaborada, se diga – por um punhado de gente favorecida e que se acomoda no status quo!


Esta ideia é mais um instrumento forjado para tentar distrair os poucos moçambicanos atentos, que reivindicam igualdade de direitos neste Moçambique que, a passos largos, caminha para um triste cenário de segmentação social, semelhante ao sistema de castas da sociedade Hindu.


Já li e escutei muitos discursos dos defensores desta segmentação do Povo moçambicano em castas, a partir do próprio presidente da República, Armando Guebuza, até ao mais bajulador jovem da OJM, que cegamente apoia as políticas obscenas de exclusão social hoje implantadas no país, em troca de um promessa de emprego num ministério, ou de uma entrada direta para a universidade pública – sem necessitar de passar no exame de admissão.


Nenhum dos discursos dos apologistas das tais “gerações” me consegue convencer da necessidade de os moçambicanos estarem segmentados em “gerações” para se tornarem “num Povo, numa Nação”.


Sobre a geração “25 de Setembro”, diz-se que esta merece ser a “casta” dos governantes e empresários, porque libertou o País. É preciso clarificar este conceito de “libertar o Povo”, e é imperioso que se diga como foi esta libertação.


De facto, eles lutaram pela Independência Nacional. Mas é preciso analisar a própria conjuntura do sistema internacional do momento, que facilitou, senão possibilitou, essa luta.


Será mera coincidência que a maioria das independências em África tenha tido lugar num espaço de duas décadas – entre 1960 e 1980? É bom que se diga também, que todas as ex-colónias portuguesas em África, com excepção da Guiné-Bissau, tenham alcançado as suas independências no mesmo ano: 1975. Linda coincidência!


Não estou a duvidar do papel dos antigos combatentes para o alcance da independência nacional, estou apenas a fazer um exercício de “advogado do diabo” para a autenticidade da canonização dos tais da “geração 25 de Setembro”.


É bom que se saiba que houve factores endógenos que favoreceram, senão determinaram, as independências nacionais, nomeadamente a nossa. Portanto, no momento da canonização é importante que isto se diga, principalmente, quando os libertadores tendem a se transformarem em novos colonizadores.


E sobre a “geração de 8 de Março”, o que de anormal fez? É preciso não conhecer a história do momento para dizer que eles foram excepcionais. Estes são canonizados porque deixaram a escola para serem dirigentes? Quem se recusaria a fazê-lo? E ainda sob ordens de um chefe do Estado, no contexto que se vivia na época?


Imaginemos mesmo no contexto actual do País. Que estudante de Direito não abandonaria a formação ao meio para trabalhar como economista? Que estudante de Ciência Política não desistiria da faculdade para trabalhar como gestor de recursos humanos? Que estudante do curso médio de Contabilidade não deixaria o Instituto Industrial ou Comercial para trabalhar como gestor de companhias agrícolas?


A “geração de 8 de Março” respondeu ao chamamento da nação, sim, mas todos cidadãos o fariam em função das circunstâncias, portanto, quanto a esta geração, é bom que se diga que a resposta ao seu chamamento, não foi algo excepcional, mas antes uma reacção óbvia a uma oportunidade inédita de ganhar emprego, mesmo sem formação específica. Ou existe alguém em Moçambique que estuda pelo mero prazer, sem estar a pensar no emprego?


E a resposta a essa oportunidade trouxe os frutos que hoje são visíveis. Todos os da “geração 8 de Março”, hoje são empresários, ministros, vice-ministros, deputados, diretores de faculdades!


Sobre a dita “geração da viragem” pouco há por se dizer. Pior: é uma utopia. Se as anteriores “gerações” são fruto de alguma ação palpável, independentemente de ter havido mérito ou não, a “geração da viragem” não passa de uma teorização mal formulada para entreter os jovens.


Essa invenção de “geração da viragem” visa abafar as reivindicações dos jovens que continuam a ser marginalizados pelo poder político, principalmente aqueles jovens que, não sendo filhos, cunhados, sobrinhos, enteados, de antigos combatentes ou dos ditos da “geração 8 de Março” combatem dia-a-dia pela vida, enfrentando barreiras políticas nas universidades e nas instituições públicas, quando buscam formação e emprego.


Estes jovens, que o poder político quer acomodar na “geração da viragem”, na sua maioria são vítimas do passado dos seus pais que não transitaram de antigos combatentes para dirigentes do Estado. Estão a pagar pela culpa dos seus pais que não tiveram a oportunidade de integrar “a geração 8 de Março”.


Entre estes jovens, há preguiçosos e empenhados. Os primeiros andam atrás de cartões coloridos e optam por bajular os dirigentes do Estado para ganhar emprego, enquanto os últimos lutam contra todos os obstáculos naturais e artificiais para ganharem a vida com esforço próprio e justiça.


Borges Nhamirre
in «Canalmoz», 29.04.2010

02/05/2010

FCP-SLB campeonato da "porrada"

Na imagem, um selvagem portista cabeça-rapada lança uma bola de golfe à cabeça de Jesus, treinador benfiquista (episódio captado durante o jogo Porto-Benfica de 2 de Maio de 2010).

Para um um jogo anunciado com de "alto risco", pode-se dizer que a PSP andou a dormir e não fez uso adequado de casse-tête.

Aguardam-se os próximos capítulos e insultos.

Certificados de Aforro

Uma demonstração evidente dos erros de política económica da dupla "José Sócrates - Teixeira dos Santos" é a machadada que foi dada nos Certificados de Aforro.

Como é sabido, os Certificados de Aforro são emissões de dívida pública reservada a particulares (vedados a empresas) e, no passado, tiveram sempre interessantes taxas de juro, isto é, mais favoráveis do que os depósitos a prazo dos bancos.

Com a sua emissão, eram assegurados dois objetivos:
1. instrumento de poupança para particulares;
2. financiamento da dívida pública do Estado com recursos nacionais;

Em 2009, a dupla socretina fez cair a taxa de juro dos Certificados de Aforro, destruindo-os como produto de poupança. Os resgates não se fizeram esperar e os fundos foram transferidos, pelos seus donos, para os bancos.

Em 2010, o Estado português financia-se no mercado europeu (em euros) à taxa de juro de 5% ou mais ao mesmo tempo que paga menos de 0,8% pelos Certificados de Aforro.

Alguém anda a fazer o jogo da banca. Ou, é incompetência pura e dura.

(artigo do «Sol», 30.04.2010, faz a mesma acusação)

Crise grega

O primeiro-ministro grego, Giorgios Papandreou, apresentou às confederações sindicais e patronais a "fatura social" negociada com a UE e o FMI. Prevê a supressão dos 13.º e 14.º meses no salário dos funcionários públicos e em todas as pensões de reforma; no setor privado, propõe que os dois meses suplementares sejam pagos a título de prémio, não contando para a reforma; a idade de reforma seria elevada para os 67 anos; seguem-se o aumento do IVA e revisão da lei dos despedimentos.

No dia 4 de Outubro, o PASOK (social-democrata), de Papandreou, venceu as legislativas antecipadas, tomou posse e descobriu que o défice público era de 12,7 por cento do PIB - e não seis, como tinha anunciado o governo conservador da Nova Democracia, de Kostas Karamanlis. A Grécia entrou na espiral da crise.

Entre gregos - e não só - não é com discursos de Cassandra que se ganham eleições. Karamanlis convocara eleições antecipadas para responder à contestação social, avisando que a crise financeira colocava a Grécia em situação difícil. Propunha uma "austeridade temporária", com o congelamento dos salários e das pensões por um ano. Estava sob forte pressão da UE para reduzir o défice e a mais elevada dívida pública da zona euro.

Inversamente, Papandreou fez um discurso otimista, apostando no "crescimento verde" e num ambicioso plano de investimento nas energias renováveis. Prometeu subir salários e pensões. Era a música que os eleitores queriam ouvir.

Hoje, as sondagens indicam que 70 por cento dos gregos se resignam à austeridade, embora opondo-se à "humilhação" do recurso ao FMI. O novo líder conservador, Antonis Samaras, denuncia a intervenção do FMI, que coloca o país "sob dependência", enquanto os comunistas a qualificam como "triunfo da plutocracia". No entanto, Papandreou continua a ter uma boa cota de popularidade, enquanto a Nova Democracia estagna nos 21 por cento.

O jornal «I Kathimerini» (conservador) adverte a oposição: recusar o controlo internacional significaria "a falência total"; um "populismo barato abriria caminho ao desmantelamento do nosso sistema político".

De quem é a culpa? Há uma teoria da conspiração: os especuladores estrangeiros e as agências de notação têm o euro como alvo e atacam a Grécia como elo mais fraco. Nos últimos 30 anos, todos os partidos gregos abusaram da retórica "anti-imperialista" para explicar os desastres da Grécia pelas "maquinações neoliberais" ou dos "americanos", escreve o «Eleftherotypia» (próximo do PASOK).

"Os gregos só se podem queixar de si mesmos", sublinha o diário de referência «To Vima». "E mais precisamente do governo anterior, que está na origem dos problemas financeiros de hoje. Clientelismo, despesa excessiva, débil fiscalidade, contas do Estado falsificadas, subvenções agrícolas europeias distribuídas sem critério."

O número de funcionários cresceu 10 por cento, os salários e reformas 30. Mas, "a um nível mais profundo, as "raízes estruturais" da crise encontram-se na natureza clientelista da política na Grécia", insiste o «Eleftherotypia».

Pior: a Grécia mentiu sobre as contas públicas. "A falsificação das estatísticas é uma longa tradição grega", diz George Bitros, da Universidade de Atenas. "É um fracasso imenso e sistémico e que tem as raízes na falência do sistema político, na estrutura e na falta de transparência do setor público."

A falsificação não é apenas grega. A UE sabia, os "mercados" sabiam, Atenas reconheceu-o em 2004. O resto é hipocrisia. A UE paga a sua parte de irresponsabilidade.

Papandreou reconhece agora que é preciso refazer tudo "de alto a baixo". Após o "milagre económico" que se seguiu à entrada no euro e culminou nos triunfais (e ruinosos) Jogos Olímpicos de 2004, o problema vai muito para lá do défice.

A economia grega deixou de ser competitiva e pouco exporta, o que agrava a pressão sobre a dívida. A questão fiscal é aguda. Por tradição histórica, as receitas do Estado sempre assentaram nos impostos indirectos. A fuga ao fisco é generalizada. A corrupção política, patente nos anteriores governos do PASOK, subiu exponencialmente com Karamanlis. A economia subterrânea vale de 30 a 40 por cento do PIB. Serve de amortecedor social, mas à custa das finanças públicas. Os armadores gregos têm a primeira frota mundial, ganham fortunas com as mercadorias chinesas, mas a sua sede fiscal não é em Atenas.

Após a ocupação alemã (1941-44) e a guerra civil que se lhe seguiu, a Grécia foi dos maiores beneficiários do Plano Marshall, o que lhe permitiu um primeiro surto económico. Com o fim da "ditadura dos coronéis" em 1974, a CEE apostou na sua integração para consolidar a democracia e por interesse estratégico. Começa então a ascensão da dívida. Nos anos 80, Andreas Papandreou (pai do actual primeiro-ministro) optou por redistribuir grande parte dos maciços fundos europeus sob forma de poder de compra.

"A Grécia está à beira da falência, mas os gregos são ricos" e é esta uma das chaves de leitura da crise, escreve o geógrafo francês Guy Bugel, estudioso da Grécia. A rapidez da passagem do subdesenvolvimento à prosperidade favoreceu a manutenção de um Estado "impotente e venal", uma sociedade em que "vale tudo para enriquecer" e há pouco sentido da "coisa pública".

A grande dimensão da crise não é grega, é europeia. A questão é saber até que ponto fraturou a UE e a zona euro, saber se o "vírus" vai continuar em expansão ameaçando outros Estados de falência. A única coisa segura é que deixaram de poder viver - e endividar-se - como antes da crise financeira. As regras mudaram. Os efeitos políticos não se farão esperar.

Neste contexto, o problema de Atenas é o mais simples. Papandreou apela a que os gregos façam em três anos o que não fizeram em 30. A ironia é que outros, "que não são Grécia", vão ter de seguir o conselho.

Jorge Almeida Fernandes
in «Público», 01.05.2010
 
O vaso grego, no séc. XXI, visto pelo «The Globe and Mail» de Toronto, Canadá

01/05/2010

Primeiro de Maio

Para quem já se esqueceu ou nunca soube o que era a ditadura social-fascista dos camaradas comunistas da Albânia, a cauda da Europa.

Um postal para os camaradas da CGTP de Portugal, da CUT do Brasil e da OTM de Moçambique: