04/04/2010

Guiné-Bissau, droga-se?

O PAIGC, as Forças Armadas e os dirigentes da Guiné-Bissau há muito que deixaram de honrar a melhor memória de Amílcar Cabral. Pelo contrário, desonram.


Por motivos fúteis, por corrupção, por tribalismo, por vinganças olho-por-olho, por disputas de rotas de droga, homens fardados e armados, desencadeiam desordens, fazem golpes de Estado - se se pode chamar Estado a tal coisa. O país é considerado um Estado falhado e não parece poder sair do buraco em que está metido.


São antigos combatentes, ditos generais, e jovens seguidores alinhados por tribo e por caminhos da cocaína sul-americana que, há muito domina a Guiné-Bissau. Os dirigentes são genericamente corruptos. Os que resistem, para lá caminham ou vão para o cemitério...


Enquanto Malam Bacai Sanhá, que pensa que é o presidente, e Carlos Gomes Júnior, que pensa é o primeiro-ministro, procuram minimizar a importância das recentes movimentações militares, a CPLP considera os aconetecimentos muito graves e que muito está ainda por explicar.

É legítimo perguntar, até quando pensam andar de mão estendida a pedir?
E se foi para isto que substituiram o regime colonial?

As amantes do papá

A poligamia é culturalmente intrínseca às sociedades africanas. Pode discutir-se e considerar-se que é ou não um sinal de atraso social mas, é um dado adquirido, existe.

O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, é um destacado praticante desta forma de casamento. Em todo o caso, tem a seu favor o facto de assumir publicamente as suas escolhas. A seu desfavor, fazer filhos fora dessa sua família alargada e, além disso, pôr os contribuintes a pagar as mordomias.
Mas, reconheçamos, à luz de padrões "mais modernos", tem amantes reconhecidas como parte da família e, à conta disso, desincentivadas as "facadas". Em teoria, pelo menos!

Já em Moçambique, onde a poligamia foi recuperada em nome do anticolonialismo e depois da feroz perseguição frelimista (até ao IV congresso, o da recuperação dos regulados), não seria de esperar que dirigentes da geração do 25 de Setembro - impolutos e moralmente superiores - tivessem amantes não assumidas.

Não seria de esperar que à luz da apregoada igualdade da mulher, enganassem a legítima. É certo que dá status ter várias mulheres. E não há ministro, governador, empresário que ao sinal de gordo e anafado deixe de juntar umas tantas amantes.

Afinal, ser gordo e ter várias mulheres é sinal de riqueza. Afinal, era o colono que tinha uma legítima e fazia mulatos com outras.

E, tendo como alternativa a miséria, para muita mulher, arranjar marido ou amante serve para ter emprego, subir na vida, ser secretária, diretora ou ministra.

E a legítima aceita que o marido tenha amantes, se conhecidas, em lugar de andar com vintinhas. E sempre pode dizer para o arredondado esposo: a nossa amante é melhor do que a de fulano.

Ora, o que não seria de esperar é que papá que apregoa "decisão tomada decisão cumprida" e se apresente como marido exemplar e pai babado, faça escolhas políticas com base em paixões abaixo da cintura. Seja ela uma Helena, uma Rita, uma Maria..., ministras ou ajudantes.

É que, assim, em nome da tradição, melhor faria se seguisse o famigerado Zuma e assumisse a poligamia.

03/04/2010

Parabéns Helmut Kohl

Helmut Kohl, o antigo Chanceler da República Federal da Alemanha, entre 1 de Outubro de 1982 e 27 de Outubro de 1998, faz 80 anos, hoje 3 de Abril de 2010.

Trata-se do mais importante político europeu da última metade do séc. XX, foi o obreiro da reunificação alemã em 1990 que conduziu com pleno sucesso à integração da antiga República Democrática Alemã na República Federal da Alemanha.

Kohl, visionário, aproveitou uma oportunidade única e soube dobrar e conjugar vontades de Mikhail Gorbachev, Ronald Regan, George Bush, Margaret Thatcher e François Mitterand como parte do processo que resultou da queda do vergonhoso Muro de Berlim (9 de Outubro de 1989) e que acelerou o fim da União Soviética.

A Alemanha, a Europa e a União Europeia devem-lhe muito e sobretudo a Liberdade.

Parabéns. Obrigado, Dank Helmut!


02/04/2010

Bento XVI pode ser parte da solução

Não sou crente. Educado na fé católica, passei pelo ateísmo militante e hoje defino-me como agnóstico. Talvez não devesse, por isso, pôr-me a discutir os chamados "escândalos de pedofilia" na Igreja Católica. Até porque não sei se, como escreveu António Marujo neste jornal - no texto mais informado publicado sobre o tema em jornais portugueses -, estamos ou não perante "A maior crise da Igreja Católica dos últimos 100 anos".

Tendo porém a concordar com um outro agnóstico, Marcello Pera, filósofo e membro do Senado italiano, que escreveu no «Corriere della Sera» que se, sob o comunismo e o nazismo, "a destruição da religião comportou a destruição da razão", a guerra hoje aberta visa de novo a destruição da religião e isso "não significará o triunfo da razão laica, mas uma nova barbárie". Por isso acho importante contrariar muitas das ideias feitas que têm marcado um debate inquinado por muita informação errada ou manipulada.

Vale por isso a pena começar por tentar saber se o problema da pedofilia e dos abusos sexuais - um problema cuja gravidade ninguém contesta, ocorram num colégio católico, na Casa Pia ou na residência de um embaixador - tem uma incidência especial em instituições da Igreja Católica. Os dados disponíveis não indicam que tenha: de acordo com os dados recolhidos por Thomas Plante, professor nas universidades de Stanford e Santa Clara, a ocorrência de relações sexuais com menores de 18 anos entre o clero do sexo masculino é, em proporção, metade da registada entre os homens adultos. É mesmo assim um crime imenso, pois não deveria existir um só caso, mas permite perceber que o problema não só não é mais frequente nas instituições católicas, como até é menos comum. Tem é muito mais visibilidade ao atingir instituições católicas.

Uma segunda questão muito discutida é a de saber se existe uma relação entre o celibato e a ocorrência de abusos sexuais. Também aqui não só a evidência é a contrária - a esmagadora maioria dos abusos é praticada por familiares próximos das vítimas - como o tema do celibato é, antes do mais, um tema da Igreja e de quem o escolhe. Não existiu sempre como norma na Igreja de Roma e hoje esta aceita exceções (no clero do Oriente e entre os anglicanos convertidos). Pode ser que a norma mude um dia, mas provavelmente ninguém melhor do que o actual Papa para avaliar se esse momento é chegado - até porque talvez ninguém, no seio da Igreja Católica, tenha dedicado tanta atenção ao tema dos abusos sexuais e feito mudar tanta coisa como Bento XVI.

Se algo choca na forma como têm vindo a ser noticiados estes "escândalos" é o modo como, incluindo no «New York Times», se tem procurado atingir o Papa. Não tenho espaço, nem é relevante para esta discussão, para explicar as múltiplas deturpações e/ou omissões que têm permitido dirigir as setas das críticas contra Bento XVI, mas não posso deixar de recordar o que ele, primeiro como cardeal Ratzinger e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, depois como sucessor de João Paulo II, já fez neste domínio.

Até ao final do século XX o Vaticano não tinha qualquer responsabilidade no julgamento e punição dos padres acusados de abusos sexuais (e não apenas de pedofilia). A partir de 2001, por influência de Ratzinger, o Papa João Paulo II assinou um decreto - Motu proprio Sacramentorum Sanctitatis Tutela - de acordo com o qual todos os casos detetados passaram a ter de ser comunicados à Congregação para a Doutrina da Fé. Ratzinger enfrentou então muitas oposições, pois passou a tratar de forma muito mais expedita casos que, de acordo com instruções datadas de 1962, exigiam processos muito morosos. A nova política da Congregação para a Doutrina da Fé passou a ser a de considerar que era mais importante agir rapidamente do que preservar os formalismos legais da Igreja, o que lhe permitiu encerrar administrativamente 60 por cento dos casos e adoptar uma linha de "tolerância zero".

Depois, mal foi eleito Papa, Bento XVI continuou a agir com rapidez e, entre as suas primeiras decisões, há que assinalar a tomada de medidas disciplinares contra dois altos responsáveis que, há décadas, as conseguiam iludir por terem "protetores" nas altas esferas do Vaticano. A seguir escolheu os Estados Unidos - um dos países onde os casos de abusos cometidos por padres haviam atingido maiores proporções - para uma das suas primeiras deslocações ao estrangeiro e, aí (tal como, depois, na Austrália), tornou-se no primeiro chefe da Igreja de Roma a receber pessoalmente vítimas de abusos sexuais. Nessa visita não evitou o tema e referiu-se-lhe cinco vezes nas suas diferentes orações e discursos.

Agora, na carta que escreveu aos cristãos irlandeses, não só não se limitou a pedir perdão, como definiu claramente o comportamento dos abusadores como "um crime" e não apenas como "um pecado", ao contrário do que alguns têm escrito por Portugal. Ao aceitar a resignação do máximo responsável pela Igreja da Irlanda também deu outro importante sinal: a dureza com que o antigo responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé passou a tratar os abusadores tem agora correspondência na dureza com que o Papa trata a hierarquia que não soube tratar do problema e pôr cobro aos crimes.

De facto - e este aspecto é muito importante - a ocorrência destes casos de abusos sexuais obriga à tomada de medidas pelos diferentes episcopados. Quando isso acontece, a situação muda radicalmente. Nos Estados Unidos, país onde primeiro se conheceu a dimensão do problema, a Conferência de Dallas de 2002 adoptou uma "Carta para a Protcção de Menores de Abuso Sexual" que levaria à expulsão de 700 padres. No Reino Unido, na sequência do Relatório Nolan (2001), acabou-se de vez com a prática de tratar estes assuntos apenas no interior da Igreja, passando a ser obrigatório dar deles conta às autoridades judiciais. A partir de então, como notava esta semana, no «The Times», William Rees-Mogg, a Igreja de Inglaterra e de Gales "optou pela reforma, pela abertura e pela perseguição dos abusadores em vez de persistir no segredo, na ocultação e na transferência de paróquia dos incriminados".

Bento XVI, que não despertou para este problema nas últimas semanas, não deverá precipitar decisões por causa desta polémica. No passado domingo, durante as cerimónias do Domingo de Ramos, pediu aos crentes para não se deixarem intimidar pelos "murmúrios da opinião dominante", e é natural que o tenha feito: se a Igreja tivesse deixado que a sua vida bimilenar fosse guiada pelo sentido volátil dos ventos há muito que teria desaparecido.

Ao mesmo tempo, como assinalava John L. Allen, jornalista do «National Catholic Reporter», em coluna de opinião no «New York Times», "para todos os que conhecem a experiência recente do Vaticano nesta matéria, Bento XVI não é parte do problema, antes poderá ser boa parte da solução".

Uma demonstração disso mesmo pode ser encontrada na sua primeira encíclica, Deus Caritas Est, de 25 de Dezembro de 2005, ano em que foi eleito. Boa parte dela ocupa-se da reconciliação, digamos assim, entre as conceções de "eros", o termo grego para êxtase sexual, e de "ágape", a palavra que o cristianismo adotou para designar o amor entre homem e mulher. Se, como referia António Marujo na sua análise, o teólogo Hans Küng considera que existe uma "relação crispada" entre catolicismo e sexualidade, essa encíclica, ao recuperar o valor do "eros", mostra que Bento XVI conhece o mundo que pisa.

Por isso eu, que nem sou crente, fui informar-me sobre os casos e sobre a doutrina e escrevi este texto que, nos dias inflamados que correm, se arrisca a atrair muita pedrada. Ela que venha.

José Manuel Fernandes, Jornalista
in «Público», 02.04.2010

Sobre este excelente texto, ter em conta a opinião já emitida neste jornal eletrónico a 30.03.2010.

Ora, se alguém é assaltado por um polícia, deixa de confiar na Polícia!
É por isso que, quem foi abusado por um padre, tem vontade de pedir contas ao Papa.
Com isso não está a acusar Roma e o Papa de nada.

Os erros da Igreja Católica, ao longo dos seus dois mil anos, são a posteriori motivo de pedidos de desculpa mas, as vítimas, lá estão.

Némesis

Némesis era deusa da Grécia antiga da vingança e do castigo dos comportamentos anti-sociais. No mundo moderno a Némesis são os mercados e a Grécia moderna está a saborear a sua vingança. E Portugal anda a pôr-se a jeito.

Numa Tomada de Posição, injustamente negligenciada, em meados de Janeiro deste ano, a SEDES chamou a atenção para o perigo e para as consequências do excessivo endividamento do Estado. E que esse problema era, antes de mais, responsabilidade deste Governo; mas também de cada cidadão. A responsabilidade do Governo é óbvia; no entanto, a responsabilidade de cada cidadão tem uma dupla aceção. Por um lado, se não fizermos sentir aos políticos, a todos eles, que estamos fartos da sua má gestão da coisa pública, então merecemos tudo o que se passa; por outro lado, é nossa responsabilidade porque somos nós que pagamos os desvarios do Estado. E vamos pagar caro e com juros altos.

Esta debilidade financeira do Estado conduz, desde logo, a um Estado Fraco. Quem negoceia com este Estado sabe que está a negociar com um Estado em estado de necessidade. Os negócios que se revelam serem simples negociatas aparecem todos os dias nos jornais. Nas palavras da comunicação social atribuídas a João Cravinho, temos um Estado onde campeia a corrupção política.

Além disso, em segundo lugar, um Estado excessivamente endividado é um Estado Incapaz, porque não tem recursos para satisfazer o mínimo de Estado que todos exigem. A administração da justiça é o exemplo mais grave, e sem ela não há verdadeira cidadania. É a democracia que está em causa, lenta e inexoravelmente.

Em terceiro lugar, este estado de coisas implica um Estado Injusto. A proteção social, os subsídios de desemprego, a ajuda aos mais vulneráveis não se pode realizar por completa falta de recursos. E a educação e a saúde públicas não deixarão de ser fortemente afetadas. Estamos a começar a viver esse estado de coisas.

Em quarto lugar, um Estado excessivamente endividado é um Estado-Problema. Ou seja, não é um Estado que ajuda a resolver problemas mas, pelo contrário, é um Estado que é causa de mais problemas para o resto da sociedade. As empresas e as famílias vão pagar juros excessivos, o sistema financeiro debilita-se, o crescimento tarda, o desemprego só pode aumentar e os salários (para aqueles que o têm) só podem baixar. Tudo isto porque o Estado está demasiadamente endividado e sua reputação nos mercados é má.

Temos hoje, aparentemente, um Estado mais pequeno que há três décadas atrás: menos empresas na sua mão, regras de intervenção aparentemente mais claras, supervisão e regulação mais independente. Mas essa aparente pequenez do Estado não nos trouxe um Estado mais eficaz, mais justo e mais amigo do cidadão. Bem pelo contrário.

Como dizia a SEDES, "é sintomático que o futuro próximo do país esteja hoje mais dependente do que nunca da notação de empresas de rating, do desenlace da crise grega, ou da eventual falência de um banco estrangeiro, e, aparentemente, menos dependente de nós próprios". É sintomático e é triste.

O estado do Estado é muito grave e este terá capacidade limitada para cumprir as suas funções essenciais, por muitos anos. As suas funções sociais e de apoio aos mais vulneráveis estão já em crise. E a culpa é dos Governos da última década e, em particular, do actual. Mas também é culpa de todos aqueles que pensavam, escreviam e lutavam por um Estado gastador e se opuseram a medidas de consolidação orçamental em devido tempo. Por isso, os portugueses vão ter mais injustiça social, mais desemprego e pagar juros mais altos. Há alternativa? Claro que há. Se nada for feito os portugueses vão ter ainda mais injustiça social, ainda mais desemprego e pagar juros ainda mais altos. É escolher, Némesis vingou-se e o PEC é o seu instrumento.

Luís Campos e Cunha, Professor universitário
in «Público», 02.04.2010

Mealhada com olhos levemente orientais

A Mealhada é conhecida, sobretudo, pelo leitão assado à Bairrada, uma especialidade culinária que atrai milhares de visitantes durante o ano inteiro. Para completar o ambiente, o vinho da Bairrada acompanha muito bem os pratos da região.

Como se os tesouros não fossem suficientes, é possível deparar com "pérolas" de beleza exótica e que se destacam de entre as mulheres e as flores.

É o caso de uma Svetelana que consegue retratar fielmente as maravilhas da região.
Ou da outra, nos seus belos olhos azuis amendoados, levemente orientais, tímida, percorre as mesas, cativa atenções e distribui sonhos!
Merece um poema.

Bussaco, tesouro português

O Palácio Hotel do Bussaco é uma obra do final do século XIX, projetada pelo arquitecto italiano Luigi Manini.

Situado na Mata Nacional do Bussaco (Serra do Bussaco, Mealhada) é uma jóia de arquitetura encastrada num tesouro da Natureza.

Um valor a preservar. Um local a visitar. Com respeito pela beleza.

Coimbra tem muito encanto

Dom Afonso Henriques, aqui no seu túmulo na igreja de Santa Cruz, em Coimbra, é o verdadeiro culpado da atual situação de Portugal.

Não fora o seu ato de rebeldia contra o reino de Leão, em 1143, e os portugueses não teriam que aturar a atual praga de ratos.

Fundada em 1131 por Dom Telo e onze outros religiosos, a igreja-mosteiro foi construída com elementos de arquitetura românica e posteriormente modificada, no reinado de Dom Manuel I, com elementos de góticos e renascentistas.

O estado de conservação apresenta alguma degradação.
Seguramente, um monumento a visitar.

01/04/2010

Mário Jardel, treinador do Sporting Clube de Portugal

É oficial, Mário Jardel, antigo jogador do Sporting Clube de Portugal e do Futebol Clube do Porto, será o novo treinador do SCP, substituindo Carlos Carvalhal cujo contrato - até fim da presente época - não foi renovado.

Jardel tem contrato com o Flamengo, do Brasil, até final da presente época.

31/03/2010

«Libération»: Avaria na "gráfica"

O «Libération», jornal diário francês liberal de esquerda, não saiu em Portugal na quinta-feira, 18 Março,  devido a "problemas de impressão"…

Dele, um texto convenientemente perdido, pode agora ser lido a partir daqui Libération (fr) ou em tradução automática via Google em Libération (pt).

Eis o que dizia o artigo:
Anomisidade de grande parte da media, crise política que se transforma num impasse institucional, situação social explosiva, fiasco económico provocado por medidas drásticas, a muito curto prazo ...

Como se isso não bastasse, o impetuoso José Sócrates (reeleito enfraquecido em Setembro de 2009) tem agora de enfrentar uma revolta do Parlamento que o pode forçar à demissão ou a ceder o lugar a um sucessor, do seu Partido Socialista, na chefia do governo.

Hoje, em Lisboa, iniciam-se os trabalhos de uma comissão parlamentar de inquérito que, pela primeira vez desde o fim da ditadura de Salazar, implica diretamente um primeiro-ministro.

E vai obrigá-lo a comparecer fisicamente ou, na melhor das hipóteses, a responder por escrito. "Portugal é um barco bêbado, onde o capitão é o mais suspeito de toda a tripulação", afirmou um colunista do canal privado de TV «SIC».

Segundo muitos economistas, de todos os países europeus à beira da derrocada, Portugal é, certamente, o elo mais fraco. Mais do que a Grécia, o pequeno país ibérico sofre de problemas estruturais, tem as suas exportações a meio gás, regista uma dívida externa elevada e tem um défice orçamental de 9,3%.

Bruxelas aguarda de Lisboa as medidas concretas do plano de austeridade que José Sócrates prometeu. Mas, enquanto estas medidas draconianas são aguardadas ... , José Sócrates aparece muito enfraquecido pelos seus problemas políticos e legais.

"Reformador"

O que transparece verdadeiramente é que há um julgamento político ligado com um alegado caso de interferência. Durante dois meses, um grupo de deputados tentará lançar luz sobre o papel desempenhado por José Sócrates, na tentativa, por parte da gigante Portugal Telecom (PT, controlada pelo governo socialista) vir a comprar a televisão «TVI», hostil ao poder instalado. Trata-se, de saber se o líder socialista manobrou ou não para colocar a cadeia de TV sob seu controlo.

Em Junho de 2009, perante o Parlamento, Sócrates tinha solenemente negado o conhecimento de tais negociações. Se o inquérito, que chamará dezenas de testemunhas, provar que o primeiro-ministro mentiu, então, os dias de quem prometia "transformar profundamente Portugal", estarão contados.

"Se, antes, ele poderia ser parte de uma solução para o país, agora, Sócrates é parte do problema", diz José Manuel Fernandes, um ex-diretor do diário de referência «Público» do qual saiu devido às suas relações tensas com o líder socialista.

Como muitos outros críticos, Fernandes reconhece que o explosivo Sócrates, no início de seu primeiro mandato - de 2005 a 2007 - foi um líder de governo corajoso, que baixou um enorme défice até aos 3% (agora, regressado a cerca de 10%), reformou a Segurança Social (idade e tempo de contribuição aumentada), aumentou as receitas fiscais, criou 150 000 empregos, reformou o topo da administração pública...

"Um bom equilíbrio entre o reformismo, que soube conter a sua esquerda e tranquilizar a direita", disse o analista político Manuel Villaverde Cabral. "Tem afastado um grande número de pessoas em altos cargos e que, agora, são seus inimigos".

Mas se José Sócrates é provocador, é também porque a sua carreira está repleta de áreas cinzentas e atividades suspeitas.

Desde que deu os primeiros passos na região da Beira Baixa, no leste do país, ele passou a aparecer envolvido numa dúzia de escândalos. Um diploma de engenheiro obtidas em circunstâncias suspeitas, licenças de construção obtidas duvidosamente no concelho de Castelo Branco, o caso "Face Oculta" (escutas que o ligam a um empresário desonesto, com uma quase-monopólio nas sucatas industriais) ... ou o "caso Freeport", uma empresa britânica que instalou um centro comercial em Alcochete, arresdores de Lisboa, em terrenos protegidos pela chama... "Verde" de Sócrates, então ministro do Meio Ambiente.

"Na verdade, nunca há nenhuma prova formal", disse José Manuel Fernandes, "mas nada é muito claro com ele."

Jovem lobo
Enérgico e carismático, com uma ousadia que eletrizou uma política anquilosada, José Sócrates aparece também como um líder firme, autoritário e irascível, cuja ambição devoradora, acaba por irritar qualquer um. "O seu percurso é a de um jovem lobo, sem ideologia, oportunista, um produto puro do aparelho que subiu a escada do poder, com a cabeça fria", descreve Fernando Rosas, historiador e membro do Bloco de Esquerda. "Ele sempre ambicionou ir muito alto".

E, depois, os seus acessos de autoritarismo, justificam a sua imagem degradada na media que não é nada carinhosa com ele. E a Sócrates encaixa bem: vários jornalistas vedetas de TV (Mário Crespo, Manuela Guedes ...) denunciaram a "censura" exercida sobre eles pelo Primeiro-Ministro. Em Janeiro, foi criada uma Comissão de Ética para esclarecer o assunto.

"Um grande problema de Sócrates é que ele perdeu o apoio da elite", analisa José Manuel Fernandes, o ex-diretor do «Público». "Já não confiam nele, todos recebeiam ser enganados por esta personagem problemática e e ambígua".

Numa arena política dominada por dotores, o socialista sem título prestigiado, arrisca e rompe com o status quo.

Ao estilo de um Sarkozy português, Sócrates é um lutador, um comunicador zeloso que contaminou o seu partido e personalizou, ao extremo, o exercício do poder. Outras semelhanças: ele não tem medo de cortar a direito, suporta mal a crítica, perde facilmente a calma e cultiva a ligação entre política e negócios: aconteceu com Jorge Coelho, um dos seus próximos, ex-ministro socialista, que foi, com a sua bênção, para o conselho de administração da gigante de construção «Mota-Engil».

À força de brincar com o fogo, estará José Sócrates num assento ejetável, seis meses após a sua difícil re-eleição (uma curta maioria no Parlamento), e quando o seu índice de popularidade cai alegremente? "Basicamente, todos os elementos o cercam", diz Ricardo Costa, director-adjunto do semanário «Expresso». Felizmente para ele, as circunstâncias protegem-no. A opinião pública e o Presidente da República, Cavaco Silva, um mentor do grande partido da direita (PSD), não têm vontade de convocar eleições antecipadas.

No interesse da estabilidade institucional e também porque uma nova eleição, provavelmente, nada mudaria. Até Janeiro de 2011, data das prseidenciais, Sócrates não arrisca a pele. A menos, claro, a comissão parlamentar de inquérito, que arranca hoje, venha a exigir a sua renúncia.

Sacrifícios
Mesmo que permaneça no lugar, todos lhe antecipam uma via sacra até o final de 2010.

Depois da fase da generosidade social, em breve, Sócrates terá de aplicar o plano de austeridade ditado por Bruxelas por via de cortes nos gastos sociais (saúde, fundo de desemprego, subsídios, rendimento mínimo ...). "Depois de dez anos, o poder exige que os portugueses façam sacrifícios", disse Manuel Villaverde Cabral, um cientista político. "Não acho que suportem por mais tempo".

José Sócrates, estará preso entre a bigorna social e o martelo financeiro? "É mãos e pés atados", acrescentou José Manuel Fernandes. "O modelo industrial português, com mais de cinquenta anos, está moribundo e nada o substitui. O país produz entre 30 a 40% do que consome. A margem de manobra de Sócrates é muito baixa".

Será que vai recuperar? Ricardo Costa, do «Expresso» e outros observadores estão convencidos: "O homem tem mais vidas que um gato. É muito resistente, muito duro, e encaixa bem os socos".

Um verdadeiro animal político que mostra as suas garras sempre que está mais fraco.
François Musseau
in «Liberation», 18.03.2010

30/03/2010

Celibato: ficar na História

Papa Bento XVI está debaixo de fogo. E vai continuar.

Pode alegar e, provavelmente, é verdade, que desconhecia todos os casos que lhe passaram ao lado e que não adivinha os que ainda vão ser denunciados e que, claro, mancharão a Igreja Romana.

Pode invocar os santinhos, os anjos e os arcanjos. Que uma andorinha não faz a Primavera ou que uma árvore não faz a floresta.

Em suma, verberar que há pedófilos em todos os países e organizações e que a sua Igreja não é, não foi e não será cumplice destes crimes.

Terá, todavia, dificuldade em explicar porque, diariamente, vêm à tona novas denúncias, evidências e provas de crimes cometidos por padres quando, a acreditar nos missais e homílias, a Igreja seria o último lugar onde tal poderia acontecer. E ainda mais virão, numa imparável torrente de lama.

E novos casos com o do padre Frederico (1993) serão denunciados ou descobertos.

Terá ainda mais dificuldade em explicar porque o seu Deus, omnipotente, omnisciente, omnipresente, assistiu, assiste e continuará a assistir a crimes hediondos cometidos em sacristias, seminários, missões e orfanatos.

Como fez no passado e fará no futuro: com a 'Santa Inquisição', com a persistente estigmatização dos judeus, com os muitos massacres de inocentes em nome desse Deus e das muitas certezas.

E, contudo, o Papa Bento XVI tem uma oportunidade única de fazer História se abolir o celibato.

Com esse ato reformador, a Igreja Católica seguiria São Paulo ("se eles não podem exercer auto-controlo, devem casar. Por isso é melhor casar do que queimar com paixão." [versículos 7-9]).

Com esse ato inovador, a Igreja Católica libertaria o clero de uma prisão perpétua desviante que, frequentemente, se auto-satisafaz ou se serve de vítimas desprotegidas ou fragilizadas.

Com esse ato renovador, a Igreja Católica calaria o acumular de acusações de que dificilmente se conseguirá defender sem auxílio de quem tudo vê e tudo sabe.

Para esse ato revolucionário, bastaria abolir o celibato e fundamentá-lo na doutrina de um qualquer Evangelho escondido ou perdido na biblioteca do Vaticano e, oportunamente redescoberto por sugestão divina.

A Igreja Católica quebraria o cerco em que se acantonou e apresentaria argumentos renovados para recrutar sacerdotes (e sacerdotizas) de entre gente normal e sem taras.

E, para tal, com a iluminação do Espírito Santo, pode aprender com a experiência dos seus concorrentes mais diretos que há muito deixaram o dogma do celibato, com sucesso e sem perturbação na mensagem sobre o Deus, que alegam, ser comum.

No seu próprio interesse!
Para a sua sobrevivência.
Para a sua própria expansão.

Como diz, António Marujo no «Público», a "Igreja Católica atravessa a mais profunda crise do último século. Para encontrar algo de dimensão semelhante, devemos recuar até ao início do século XX, com o anti-modernismo do Papa Pio X. Ou antes, a 1870 e ao Concílio Vaticano I, com o dogma da infalibilidade papal, o cisma dos velho-católicos e o fim dos Estados Pontifícios. Há uma diferença: esta crise atinge um catolicismo universal, ao contrário do de há um século, quando ainda era uma realidade pouco mais que europeia."

Com base no título de «Público», 29.03.2010

29/03/2010

Novas oportunidades ...

... a preço de saldo.

27/03/2010

Mulher de coragem

Esta mulher de coragem, salvou Portugal de uma crise grega.
O seu último ato, como dirigente partidária, foi a passagem do PEC na Assembleia da República. Um sinal de acalmia para os mercados financeiros.

O governo de Portugal não merecia tal esforço mas o país deve-lhe isso.

Mesmo que ainda lhe custe a perceber.
Perceberá quando tiver de pagar as socretinices.

25/03/2010

Purga em Angola - 27 de Maio de 1977

Viúva de Agostinho Neto vai ser julgada por difamação em Lisboa
Divergências sobre a dimensão e natureza dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977 em Luanda, considerados uma tentativa de golpe de Estado contra o então presidente Agostinho Neto, levaram a que a viúva deste, Maria Eugénia Neto, tenha sido acusada de difamação pela historiadora Dalila Cabrita Mateus, co-autora de uma obra sobre aquela época.

Em causa estão declarações em Janeiro de 2008 ao «Expresso» com Eugénia Neto - que conheceu em Lisboa no início dos anos 50 o então jovem angolano que cursava Medicina - a classificar a historiadora como "desonesta" e "mentirosa", a propósito da versão que veicula sobre o 27 de Maio.

Dalila Mateus, em parceria com Álvaro Mateus, escreve em «Purga em Angola - O 27 de Maio de 1977» que o número de mortos causados pela repressão resultou da "preocupação de Neto e dos seus" pelo poder. O livro menciona que a "purga no MPLA atingiu enormes proporções" e indica 30 mil mortos como o número de vítimas que teria custado a Agostinho Neto para neutralizar os seus adversários.

Interrogada sobre este número, Eugénia Neto exclama: "Isso é mentira. Esta senhora é desonesta, é mentirosa", referindo-se à historiadora. Esta interpôs recurso junto da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e apresentou queixa por difamação nos tribunais. Em Fevereiro, a ERC deliberou a favor de Dalila Mateus na questão da "reputação e boa fama".

Um tribunal de Lisboa considerou agora que as declarações da viúva de Neto, que possui dupla nacionalidade, podem prefigurar o crime de difamação agravada, sendo pronunciada para julgamento. Segundo alguns media angolanos, Eugénia Neto escusou-se sempre a prestar declarações na fase de investigação.

Mas, para além das divergências sobre um dos momentos marcantes da história angolana após a independência de 1975, em causa está também um debate que atravessa este país africano, como a própria Eugénia Neto recordou na entrevista ao «Expresso» e que teria no seu marido o protagonista de uma das perspetivas. Agostinho Neto seria o porta-voz de um projeto moderado, da "concórdia" e de uma Angola negra e mestiça, enquanto o grupo do golpe - Nito Alves e José Van-Dúnem - eram pela "catequese política", por uma Angola negra, "uns jovens imaturos" e "ambiciosos pelo poder".

Nito Alves e José Van-Dúnem foram acusados de fracionismo em Outubro de 1976 e, segundo se lê na obra de Dalila Mateus, "existia o sério risco de conquistarem os principais lugares de direcção" do MPLA no congresso previsto para finais de 1977. Uma das teses de «Purga em Angola» é a de que o 27 de Maio foi um "contragolpe" do círculo de Agostinho Neto para impedir que o seu poder e influência fossem postos em causa. Para Eugénia Neto foi um ato de "imaturidade" do grupo de Nito Alves.

Abel Coelho de Morais
in «Diário de Notícias», 21.03.2010

24/03/2010

Abaixo os Xiconhocas

Abaixo os Xiconhocas.
Abaixo as negociatas.
Abaixo as chipandices.
Abaixo as inteliquices.
Abaixo as guebuzadas.

Abaixa!

Tsintsiva (ou Tchinchiva)

sabores que não se esquecem. Há memórias que são eternas.

Estes frutos secos, que dão pelo nome de tsintsiva em Moçambique, provocam estranhas sensações de agridoce.

A Internet ainda não a promoveu este tesouro.

Manifesto nº 2

O segundo número de um jornal rebelde:

23/03/2010

Manifesto nº 1

1974: ano de todos os perigos!

Em Lourenço Marques, os estudantes da Faculdade de Economia da Universidade (ULM) lançam o jornal «Manifesto».

Impresso na «Tempográfica» e em cima de um acelerado processo de descolonização, o jornal desatualizava-se entre a Redação, a Gráfica e a Revisão de Provas...

22/03/2010

Alterações climáticas

Os dados acima reproduzidos, divulgados no Economist de ontem, foram preparados pelo Met Office Hadley for Climate Change, sedeado no Reino Unido, uma das instituições europeias líderes no estudo das alterações climáticas.

Do lado esquerdo, em azul, vêem-se as variações das médias das temperaturas em terra. A linha castanha indica as tendências dessas variações anuais.

Do lado direito, em azul, estão as variações das médias das temperaturas nos oceanos. A linha castanha indica as tendências dessas variações anuais. A linha laranja, mesmo por cima, indica as tendências relativamente à temperatura do ar mesmo por cima do mar.

Claramente, algo se passa no mundo desde pelo menos o final dos anos 70. E não são só estes dados, publicados ontem, que o indicam. O norte-americano Albert Gore, o antigo vice-presidente de William Clinton, ganhou um prémio Nobel por conduzir uma campanha, centrada num filme que paguei para ver, em que foca nas tendências em termos da componente de dióxido carbono na atmosfera terrestre.

Concumitantemente, nos últimos dez anos, pessoas, governos e empresas começaram a adotar medidas no sentido de mitigar os efeitos altamente poluentes do nosso atual estilo de vida.

Olhemos ao que se passou no mundo nos últimos 35 anos.

Essencialmente, a Guerra Fria acabou, o Brasil, a China e a Índia surgiram como gigantes industriais e tecnológicos, e a população do mundo quase que duplicou.

Consideremos agora Portugal e em maior detalhe.

Para um português com mais do que 45 anos, 35 anos é mais ou menos desde que alguns militares que fizeram um pronunciamento em Portugal acabaram com o projeto colonial português entregando o poder aos movimentos de guerrilheiros da altura e assim despacharam Angola e Moçambique e o resto.  Em Portugal, os comunistas estiveram a um fio de tomar o poder e, com a ajuda de uns valentes sacos de dinheiro dos nossos amigos alemães, de Frank Carlucci e dos outros militares, estes os não comunistas,  Mário Soares adquiriu as suas credenciais degladiando-se com Cunhal e ajudando a inaugurar a III república. Com um algo doentio complexo de esquerda, a III república proclamou-se “socialista” e democrática.

Economicamente, a III república tem sido basicamente um desastre. Logo no início, com uma justificação sócio-política, expropriou praticamente tudo o que interessava às classes previamente abastadas, acompanhadas por vagas ameaças de mandados de captura e assédio a sério. Champalimaud, Mellos e Espíritos Santos refugiaram-se na Suíça, Espanha e Brasil e quase que tiveram que começar do zero. Aqui, aumentaram-se generosamente os salários – 13º mês, subsídio de férias, emprego garantido para toda a vida e o maior sector público de sempre. Mediante a constante desvalorização do escudo e o aliciamento, com um custo significativo, do envio dos fundos ganhos no estrangeiro por portugueses emigrados, a economia foi-se aguentando até ocorrer um pequeno crash, entre 1983 e 1985. Foi nessa altura que Mário Soares um dia foi à televisão antes do Natal e disse aos portugueses que trabalhavam que o subsídio de Natal desse ano ia ser comido como imposto. Um pouco como está a acontecer agora com os chamados “bónus”.

Por essa altura, ocorreu a adesão à então Comunidade Económica Europeia, que foi negociada por Soares mas aproveitada por um então praticamente desconhecido Aníbal Cavaco Silva. Durante os quinze anos que se seguiram, choveu dinheiro em Portugal.

Foi uma verdadeira festa.

Os dois mandatos consecutivos de Cavaco Silva foram curiosos, pois se por um lado se assistiu a um enorme acrescento na infra-estrutura pública, e a um aparente regresso a uma economia um pouco mais empresarial, em que surgiram dois bancos privados de raíz e se iniciou a privatização de parte do que o que os comunistas tinham nacionalizado em 1975, na realidade o que sucedeu foi que o aparelho de Estado, e especialmente as despesas públicas, e ainda mais os impostos, dispararam quase desmesuradamente. Foi Cavaco Silva que introduziu o IVA, que instituiu aumentos de ordenados fantásticos para os funcionários públicos e, quase no fim do seu mandato, negativamente simbolizado por um protesto contra um aumento na portagem em uma das pontes que serve Lisboa, e ainda por não ter concedido tolerância de ponto num dia de carnaval, Cavaco muda fundamentalmente as regras de financiamento do Estado.

Até então, o governo financiava-se essencialmente junto da banca portuguesa, o que tinha um efeito de crowding-out em termos da procura doméstica do dinheiro. Isso significava que o crédito no país era extremamente caro e limitado. O crédito ao consumo era proibitivo praticamente proibido, e financiar uma casa era a 12 anos e custava entre 20 e 25% de juros ao ano – o leitor lembra-se?

Ao passar a financiar-se no estrangeiro, de repente a banca portuguesa tinha uma fonte quase inesgotável de dinheiro, mas sem saber o que fazer com ele. A solução? emprestá-lo – ou melhor, nalguns casos impingi-lo – aos consumidores e empresas. Simultaneamente, ao aderir ao Sistema Monetário Europeu, que desembocaria em 2002 na extinção do Escudo e a adopção do euro, as taxas baixaram para níveis impensáveis apenas quatro anos antes.

Foi a segunda festa, ainda maior que a primeira, pois por esta altura os portugueses já se tinham habituado à boa vida. Mas pela primeira vez em séculos, os portugueses tiveram a ilusão de que eram “europeus”. Toda a gente comprou casa, comprou carro, passou a aquecer a casa no inverno, passou a ir de férias uma e duas vezes por ano ao estrangeiro, passou a usar roupa de marca, passou a andar de telélé na mão, televisão a cores na sala e no quarto. Quase duma assentada, criaram-se gigantescos centros comerciais por toda a parte, o maior dos quais chama-se Freeport.

Rapidamente, os bancos portugueses tiveram tanto sucesso nos seus esforços que também eles começaram-se a financiar no estrangeiro. A certa altura, dezenas de milhões de euros por dia fluiam para Portugal em empréstimos públicos e privados.

Mas o que aconteceu entretanto na indústria e no comércio? Por via da entrada maciça de produtos europeus, sucedidos por produtos chineses após a adesão da China à Organização Mundial do Comércio, Portugal passou a importar quase tudo e a preços que não havia uma empresa que conseguisse bater. A partir do fim dos anos 90, assistiu-se à crescente desindustrialização do país nos têxteis, na pesca, na agricultura, no calçado. Ineficazes, e por causa da forma como as leis operam em Portugal, as empresas não faliam: vegetavam numa longa, infindável agonia. A forma de combate normal a um mercado de trabalho insuportavelmente rígido e com férreas leis que protegem os empregados para além de quase qualquer lógica era convidar pessoas com 40, 50 anos de idade para a “reforma”. Cá chamam-lhes “reformas antecipadas”. Isto sem considerar as situações, amplamente divulgadas, de pessoas que, inexplicavelmente, acumulam duas, três, quatro reformas. O rol de “reformados” disparou e, para fazer face à crescente despesa, aumentaram-se mais os impostos e os descontos forçados.

E entretanto os portugueses, que se tornaram ricos, e já praticamente não tinham filhos, deixaram de fornicar ao nível mínimo para manter uma população sustentável. Para além do aparecimento das empregadas ucranianas, dos dentistas brasileiros e dos médicos angolanos (todos bem-vindos, atalhe-se) criou-se uma situação em que daqui a dez anos, cada português que trabalhe terá que sustentar com os seus impostos um reformado. Na geração do meu pai o rácio era de 10 para 1. Incapaz de atrair investimento, o governo pagou milhões à Volkswagen e a outras empresas para abrirem fábricas em Portugal.

Entretanto, e ao mesmo tempo que a manufatura, a indústria e o comércio implodiam, e os níveis de emprego eram mantidos artificalmente, citavam-se dogmas indecifráveis para o cidadão comum: que Portugal estava-se a deslocar para uma economia de conhecimento, para uma produção com valor acrescentado, para uma nova era tecnológica, para uma economia “limpa”.

Enquanto tudo era dito, silenciosamente, o governo engordava, aumentava os impostos e a dívida pública e privada e pública explodiam.

Entra José Sócrates em cena.

Em boa verdade, quando José Sócrates ganha a sua maioria absoluta em 2004, os males que acima descrevi,  já estavam basicamente em fase quase terminal.

Mas como é típico dos políticos portugueses, ele fez o que todos fazem quando confrontado com um défice medonho: simplesmente, aumentou os impostos.

E a coisa teria corrido bem mais uns anitos, não fosse a circunstância de os americanos se terem metido naquele inferno chamado “a crise do sub-prime”, que começou no final de 2007 mas que abalou o mundo no final de Setembro de 2008, quando, no espaço de duas semanas, a quase totalidade do sistema financeiro mundial, liderado pelos Estados Unidos, entrou em colapso.

A resposta do governo português foi gastar o que tinha e o que não tinha, em nome de coisas nobres como a estabilidade, a coesão social e outras coisas. No fim de 2009, a taxa de desemprego estava nos 10%, o défice do orçamento 9.3% do produto nacional bruto português e as taxas de endividamento público e privado verdadeiramente astronómicas. O incêndio da falência de dois bancos foi apagado com uma loucura em termos de dinheiro (não se sabe ainda ao certo esse velor, que é na ordem dos milhares de milhões de euros). As exportações caíram 20%.

Para além dos constantes escândalos e suspeitas e amigos duvidosos – e isso já dava pano para mangas, – o mandato de José Sócrates tem sido marcado por algumas caraterísticas peculiares, algumas em contradição umas com as outras.

Por um lado, ele é o primeiro ministro das grandes obras que nunca mais se fazem: mais pontas sobre o Tejo, um novo aeroporto primeiro na Ota e depois não sei aonde no outro lado do rio junto duns campos de arroz, de auto-estradas de toda a parte para toda a parte, de uma linha de comboio cuja lógica eu simplesmente não entendo, de subsídios para assegurar “padrões mínimos de riqueza.

É o ministro das iniciativas com nomes sonantes, desde o “Plano Tecnológico” às “Novas Oportunidades”, o (caríssimo) programa do computador Magalhães, da reforma dos procedimentos administrativos do Estado, da desburocratização.

É o ministro da ecologia, das energias renováveis e limpas, do uso do aquecimento solar, dos benefícios fiscais para as renováveis, dos parques eólicos, dos carros eléctricos. Quer que Portugal seja líder mundial nesta área. Acabou de lançar a iniciativa misteriosamente apelidade de “re, new,able”.

Por outro lado, ele é suposto endireitar as contas públicas de alguma forma. Face ao rescaldo de 2008, ele praticamente não fez nada em 2009 para além de atirar dinheiro à fogueira (havia eleição em finais de Setembro, que ele venceu com maioria simples) e agora aumentou novamente os impostos, em toda a linha. Ainda quer fazer alguns dos projectos acima referidos, e basicamente não vai fazer nada com as despesas públicas, usando em vez disso uns últimos cartuchos que sobraram de 1975, vendendo (a quem, não sei, mas não deve ser a portugueses) o que resta das empresas públicas em que o estado mantém participações.

Ora, eis o paradoxo, que desdobro em dois:

1. A criação de mecanismos para a produção de energias alternativas, sendo totalmente meritória, é quase ruinosamente cara, numa altura em que em todo o mundo os combustíveis fósseis continuam a ser muito mais competitivos do que as alternativas (e Portugal fingir que não é assim é patético, mesmo adoptando medidas oportunistas e ruinosas dos cidadãos tais como artificialmente e exageradamente tributar o preço da electricidade e dos combustíveis que em Portugal são dos mais caros da Europa perante o poder de compra do consumidor português).

Portugal não só não dispõe de capital para investir neste esquema, como, mesmo que o faça, o custo por unidade de custo de energia no fim será tão caro que não há indústria que resista a estes preços. Não vão conseguir competir. Ou seja, isto de ser líder nas energias vem com um custo que terá que ser pago agora, e vai ser caro, no contexto das prioridades que se apresentam agora, para benefícios que podem representar pouco ou nada em termos de competitividade.

2. O segundo paradoxo é parcialmente ilustrado pelo quadro acima reproduzido: Portugal ainda está inserido no planeta Terra, e em que é menos que 1 por cento da população europeia e uma verdadeira insignificância em termos da população mundial, que já vai nos cerca de 6200 milhões de pessoas. Os portugueses são 10 milhões. A actual geração defronta-se com desafios titânicos em termos de pôr a casa em ordem e de competir numa economia em que os bens e capitais (ainda) fluem livremente. Um Portugal limpo e verde e ecológico é excelente – mas será competitivo, quando temos uma Ásia que ainda não tem regras e uns EUA que estão ainda a começar a discutir, vagamente, o assunto? será que o que 10 milhões de portugueses vão fazer vai afectar de alguma forma as estatísticas que acima estão indicadas? e a que custo?

Eu acho que tenho o azar de pertencer à primeira geração em muitas décadas que suspeita que a geração que vem a seguir, a dos nossos filhos, vai herdar um mundo que pode ser pior do que o que o meus pais me deixaram.

E isso é muito triste.

António Botelho de Melo
in Ma-Schamba, 20 de Março de 2010

21/03/2010

Celibato: raiz de todos os males

O papa Bento XVI tem a oportunidade única de ficar na História e de subir ao Céu: abolir o celibato, uma disposição retrógada e "inconstitucional" - o mestre não a impôs aos seus discípulos. Fazendo isso, faria o clero descer à Terra, viver a vida de todos e levaria a que os seminários católicos deixassem de ser covis de recalcados e criminosos que se disfarçam sob as vestes de padre.

Se o papa não o fizer, a bola de neve não deixará de crescer e a Igreja Católica acabará crucificada.
É um debate explicado no «Público»:

No «Le Monde» de 5 de Março, o teólogo Hans Küng era claro na proposta: para lutar contra a pedofilia é preciso abolir o celibato obrigatório, "raiz de todos os males". Este tornou-se "um pilar essencial do "sistema romano"" e o clero está "completamente separado do povo cristão". Há quem conteste: se o problema fosse o celibato, teríamos que falar de conjugalidade e não pedofilia.

Küng, teólogo suíço-alemão proibido, em 1979, de ensinar em nome da Igreja Católica, admite que é "incontestável" a existência de abusos sexuais em outros âmbitos: "Nas famílias, escolas, associações e igualmente no interior de igrejas onde não existe a regra do celibato" - nas últimas semanas, vieram a público, na Alemanha, casos em igrejas protestantes.

Poucos dias depois de Küng, o cardeal Cristoph Schonborn, arcebispo de Viena, admitia que era preciso debater tudo: formação do clero, desenvolvimento pessoal, celibato. O facto de Schonborn ser próximo de Bento XVI fez aumentar a polémica sobre a relação do tema com a pedofilia. Vozes do Vaticano afirmaram que o celibato não está em causa. O Papa dizia, numa mensagem a um congresso sacerdotal, que ele é "sagrado".

No Le Monde, Küng diz que os casos de pedofilia não são só um enorme dano na imagem da Igreja, como também revelam "a crise profunda com que esta se debate". O teólogo adianta mesmo que esta crise é a expressão estrutural "mais impressionante da relação crispada que liga a hierarquia católica com a sexualidade, a mesma que determina a sua relação com a questão da contraceção e outras".

Küng evoca depois o Novo Testamento. Jesus e Paulo não casaram para ficar "ao serviço da humanidade" mas, no Evangelho, o celibato é uma vocação "livremente consentida" e não uma lei universal. Cita textos em que se pede que qualquer líder das primeiras comunidades seja "irrepreensível, marido de uma só mulher". E conclui: "É o celibato erigido em regra que contradiz o Evangelho e a tradição do cristianismo primitivo. Convém, por isso, aboli-lo."

Antonio Autiero, um dos nomes de topo da teologia moral, que ensina na Universidade de Münster (Alemanha), onde Ratzinger ensinou antes de ser bispo, diz que "não há uma relação monocausal: nem todos os célibes são pedófilos nem todos os pedófilos são célibes".

A questão da maturidade
De passagem por Lisboa, Autiero afirma, em entrevista ao «Público», concordar com Küng na perspetiva de que "o sistema do celibato coloca o desafio de como desenvolver os itinerários educativos de modo a que a maturidade sexual possa ser verdadeiramente conseguida". O próprio Vaticano, acrescenta, está consciente do facto, porque as congregações da Doutrina da Fé e do Clero "voltam a este tema periodicamente".

O psicanalista João Seabra Diniz observa, a partir dos jovens que têm problemas com o exercício da sexualidade. "Quando são de ambiente cristão, essas dificuldades, que podem ser várias, provocam intensos sentimentos de culpa e de ansiedade. A instituição do celibato e a ida para um lugar onde não há sexo aparece-lhes como uma boa solução."

Mas o celibato, "escolha exigente mesmo para homens equilibrados", pode ser uma situação "causadora de ansiedade e desequilíbrio para quem já traz problemas", diz. "O equilíbrio pessoal e o autocontrolo tornam-se cada vez mais difíceis".

A própria atividade de padre, de contato próximo e frequente com pessoas em situações de dependência afectiva, mais vulneráveis, acaba por trazer "um forte envolvimento afetivo", que pode ficar pela "dedicação" à pessoa em causa mas pode também, a partir de dado momento, entrar num "caminho sem regresso".

Seabra Diniz explica que, nesta fase, as caraterísticas dos problemas iniciais condicionarão o que pode acontecer: envolvimento afetivo com uma mulher, com mais ou menos intensidade, e consequências; "uma ligação afetiva mais ou menos passional com um jovem, que igualmente pode ter ou não passagens ao acto homossexual; ou a manifestação de outros desequilíbrios, talvez até aí desconhecidos, que levem a situações de pedofilia típica". O psicanalista conclui: "Sabemos que, infelizmente, todas estas situações se têm verificado".

António Marujo
in «Público», 21.03.2010

Damas de Branco contra a ditadura cubana

Orlando Zapata Tamayo, um dissidente cubano que estava preso e morreu a 23 de Fevereiro depois de uma greve de fome de 85 dias, tornou-se o motivo para novos protestos da oposição à ditadura castrista.

Pela terceira vez em pouco tempo, 30 mulheres vestidas de branco, de entre as quais Reyna Tamayo, mãe do falecido Orlando, participaram numa passeata pela ruas de Havana, clamando pela libertação dos seus filhos ou maridos que estão nas masmorras do regime desde 2003.

A marcha antigovernamental foi aumentando o que levou agentes de segurança a tentarem levá-las num autocarro. Finalmente, à força, arrastaram as "Damas de Branco" pelos cabelos, braços e pernas, no meio de gritos e violência.

Apoiantes dos Castro insultavam as oposicionistas gritando "esta rua pertence a Fidel".

Berta Soler, integrante do Damas de Branco, afirmou: "Quando um animal selvagem é confinado, faz isso e muito mais. Estamos prontas para tudo. Não temos medo".

Cuba vem sendo condenada internacionalmente pela morte de Zapata e o tratamento de outro grevista, Guillermo Farinas, que está num hospital recebendo fluidos intravenosos desde que desmaiou recentemente.

A União Europeia tem exercido pressão sobre a ditadura mas, em certa medida, tem havido uma inaceitável tolerância do primeiro-ministro espanhol Zapatero, presidente rotativo da UE.

foto de Reuters:

Governo Trocas-te com um Trocado

O mais incompetente governo de Portugal desde o tempo de D. Maria I.

20/03/2010

Aumentar impostos

Tal como cada um de nós, o PEC tem pecados e virtudes. A sua principal virtude, segundo tudo indica, é ter convencido Bruxelas e os ministros das Finanças dos nossos parceiros na União Europeia. Ou, pelo menos, foi suficiente para evitar o contágio que vinha da Grécia. Veremos se dura. Mas se o PEC é aceitável para os outros, pode não ser o melhor para os portugueses. Ou seja, pode ter alguns pecados.

Não haja dúvida: o PEC vai doer, a cada português, mas a alternativa de nada fazer seria ainda pior, para cada um e para todos. No entanto, poderia ser menos doloroso obtendo os mesmos resultados. Mas que fique claro, em qualquer circunstância, iremos sempre sofrer todos. De quem é a culpa? A culpa, antes de mais, é de quem tem tido a responsabilidade de governar nos últimos dez anos, digamos.

Desde 2001, primeiro grande sinal de desorientação orçamental, que todos são responsáveis. Desde logo, o governo (minoritário) de Guterres, que nos deixou o défice acima dos 4%. Depois, o governo do PSD-CDS, que fingiu que equilibrou as contas com receitas extraordinárias que agravaram, a prazo, ainda mais o problema. Em 2005, o défice orçamental rondaria os 7% (*), não fossem as medidas aprovadas em Maio e explicitadas num PEC a 5 anos (e não apenas a 4). Com base nessas medidas, em apenas dois anos, conseguiu-se baixar o défice para menos de 3%, sem receitas extraordinárias. Declarou-se "casa arrumada" e, em 2008, entrou-se no laxismo, com receitas extraordinárias, crise e eleitoralismo, que nos deixaram com um défice de 9,4% do PIB (com o novo PIB nominal), no ano passado. Passámos de 4 para 7 e para 9,4%, como resultado dos últimos dez anos.

Alguns protestam com o congelamento salarial e a redução dos apoios sociais. Mas esses são também aqueles que sempre combateram a consolidação orçamental: agora não há mais nada a fazer. Ou seja, a brutalidade do que vem aí é inevitável, em grande medida, porque no passado não houve excedentes orçamentais. Quem sempre pugnou pelo laxismo é agora politicamente co-responsável com a dureza da inevitabilidade do que aí vem.

Mas há alguns pecados neste PEC. Antes de mais e que fique claro, há subida de impostos. Não vale a pena escamotear a questão, entrar em linguagem cifrada ou em jogos de semântica: o IRS aumenta, como todos (ou praticamente todos) iremos ver e pagar. Para o mesmo rendimento bruto, uma família que ganhe pouco mais do que o salário mínimo, com as novas regras, vai pagar mais impostos. E a isso chama-se aumentar impostos. Por aumento de taxa ou por menores deduções fiscais de saúde ou educação, é irrelevante, paga-se mais. Dizer o contrário é perder credibilidade.

Segundo pecado: o adiamento de alguns dos grandes investimentos públicos não contempla adiar o TGV para Madrid e a nova ponte sobre o Tejo. Ou seja, o exemplo mais acabado de desperdício não foi cortado. Se há coragem a menos ou casmurrice a mais, não sei, mas é um péssimo exemplo. É natural que os outros ministros das Finanças europeus não se queixem, porque o negócio é bom para alemães ou franceses. Se Portugal, através do seu governo legalmente constituído, deseja fazer asneiras, para quê mais aborrecimentos, tanto mais que os beneficia. Para garantir os pagamentos dos investimentos no TGV-Madrid e os prejuízos de exploração anuais teremos menos despesa social em educação, na saúde e reformas mais baixas. As estradas secundárias ficam numa miséria, mas teremos um comboio de luxo. Quem não protesta, tem o que merece.

O terceiro pecado do PEC é não ter optado por subir o IVA para 21%. Os produtos afetados não são os essenciais, como a alimentação e os medicamentos, e seria um estímulo à poupança. Gastar menos é a única maneira de, de uma forma legal, pagar menos IVA. Por outro lado, o aumento do IRS induz os melhores das gerações mais novas a saírem do país, porque em Londres ou Nova Iorque ter um salário de 5 mil euros é sinónimo de sucesso e não de ser rico.

Por tudo isto, quarto pecado, para travar a escalada do endividamento público, vai haver um programa de privatizações. Estas privatizações não são ditadas por uma estratégia sobre o papel do Estado na economia, antes se vende em estado de necessidade. Os mercados não estão bem, a nossa reputação está mais arruinada do que nunca, pelo que se venderá por baixo preço. Também isto é consequência de laxismos antigos e dos novos investimentos públicos de megalómanos.

Não posso deixar de pensar que os jornais se enganaram ao afirmarem que o Governo vai gastar mais 400 milhões em eólicas. Essa energia saí caríssima, pagamos todos nós e as nossas empresas ficam em desvantagem competitiva face às do resto do mundo. Deve haver engano, porque o desperdício e o absurdo não pode ser assim tão grande; a culpa é dos jornalistas, certamente.

O PEC parece ter sido recebido com complacência pela Europa e pelos mercados. No entanto, os portugueses vão pagar caro as más políticas dos últimos anos, em particular, desde 2008. A opinião pública sempre pensou que os problemas do Estado eram problemas dos políticos e que o povo não tinha nada a ver com isso. É, e era, errado, como todos vamos saborear. De qualquer modo, para os mesmos resultados, o PEC poderia ser mais inteligente e poupar alguns sacrifícios aos portugueses se as sugestões acima (e outras que aí virão) fossem seguidas. Não alterar o IRS, subir antes o IVA e o imposto sobre as mais-valias (como proposto), cancelar projetos megalómanos e reduzir a despesa (como sugerido) seria melhor e mais eficiente. Mas há mais pecados...

Luís Campos e Cunha, professor universitário

in «Público», 19.03.2010

(*) Luís Campos e Cunha baseia a afirmação numa "projeção-frete" feita pelo governador do Banco de Portugal, numa altura em que o governo já era socialista; omite, igualmente, que até à sua passagem pelas Finanças, o país estava obrigado a um défice de 3%, situação que foi alterada nessa altura - lapsos que não tiram mérito ao artigo

18/03/2010

O Natal é quando o homem quiser

Amigos, amigos e mais amigos.

Afinal, há ditados que se podem invocar:

Não há Sábado sem Sol, nem Domingo sem Missa, nem Segunda sem preguiça
Quem canta antes d' almoço, chora antes do Sol posto
Os amigos são para as ocasiões
Quem tem amigos, não morre na cadeia
No aperto do perigo, conhece-se o amigo
Muitos conhecidos, poucos amigos
O segredo é a alma do negócio
A ocasião faz o ladrão
Tão ladrão é o que vai à horta, como o que fica à porta